
“A economia como um todo vai se ressentir”
É de se esperar que ao longo de todo o presente ano estará em avaliação as consequências ou efeitos económicos da pandemia da COVID-19, que até ao momento já demonstrou a sua força destruidora, não só da vida humana como também da economia.
No momento em que escrevemos estas letras a economia global e também a nacional estão vergados ao poder deste elemento inicialmente sanitário, mas cujas extensões alcançam com força bastante o capital, o trabalho e o emprego, fazendo estes e outros indicadores de estabilidade social e económica recuarem para níveis históricos, atirando para a penúria, empresas, indivíduos e sociedade.
O impacto severo da COVID-19 está, portanto, ainda por ser estimado, mas já se sabe que, pelo menos no domínio económico, que o pior ainda está por vir. E nada voltará a ser como dantes.
Michel Sambo ajuda-nos a perceber o poder economicamente infecioso deste novel coronavírus.
Apesar de ser um problema primariamente de saúde pública a Pandemia de
Covid-19 já esta a ter impacto nas economias mundiais, tendo em conta a actual situação das economias mundiais o que é que nos leva de facto a nos preocupamos economicamente com este vírus?
Na verdade, trata-se de uma pan- demia, o que significa que é um problema global. Neste sentido, a sua rápi- da expansão e também o factor pânico são os principais problemas que nos leva a de facto nos preocuparmos.
Todo o mundo olha para o Covid-19 como um problema de saúde pública, mas em algum momento estamos a ver que esta a ter um impacto na economia mundial o que é que realmente cria esse im- pacto em termos concretos?
Na essência é importante notar que quando falamos em economia temos que reparar os agentes económicos, além desses agentes económicos podemos falar dos quatro factores económicos: terra, trabalho, capital e capacidade organizacional. E quando nós falamos de trabalho, capacidade organizacional, ou empresarial estamos a falar do factor humano; ao falarmos do factor humano, aquele directamente afectado, logo tem um impacto na economia. Como? Quando nós falamos das pessoas elas são afectadas de dois lados, um do lado da produção e outro lado é do consumo, porque os problemas fundamentais da econo- mia são: o que produzir, como produzir e para quem produzir. Quando falamos d‘o que produzir’, estamos a falar de produtos. Mas o ‘como produzir’ se refere a combinação de diversos factores de produção. Então, se estes factores, como é o caso do trabalho, estiverem afectados, logo vai haver um impacto negativo na produção; pode haver redução da produção e, assim, a economia ressente-se. Mas, mesmo que haja um impacto na produção, havendo, por exemplo, do lado da procura, os consumidores, diga- mos, por alguma razão, do país afectado, é que recebem ou não os produtos. Por outro lado, se há impacto interno, o que pode acontecer é que as pessoas podem dispor de menos rendimento por causa do problema do absentismo e do ressentimento que pode levar a algumas parálises da produção. Eles disponibilizaram menos recursos para poderem fazer mais aquisições para o consumo, e desta forma poderá se dar também um problema: a redução da procura ou demanda, isto também tem um impacto na economia.
Dá para perceber aqui que há uma relação bilateral directa entre as consequências para a saúde também as consequências negativas para a economia seria a saúde a resolver os problemas económicos ou a economia que deve abrir espaço para minimizar os impactos deste problema de saúde?
Há uma grande inter-relação. Os dois, no entanto, de forma mais simplista, podemos dizer que a economia é que deve resolver os problemas de saúde. Como? É a partir dos recursosfinanceiros cujo um país dispõem que pode aprimorar os sectores, por exemplo, o de saúde para termos melhores médicos, melhores condições de tratamento de saúde… No entanto, é importante notar que para a economia funcionar como deve ser é preciso que a sociedade tenha saúde, capacidade física, psicológica e emocional para poder melhor produzir. E em casos de problemas de saúde haverá obviamente menor produção porque no factor de produção principal está afectado, então, os dois lados da moeda, na verdade, tem peso. Portanto, eu diria que maior peso é no sector económico, porque além de poder ter soluções internas é possível ter soluções externas para potenciar o sector interno.
Sabe-se que os efeitos da Covid-19 já se fazem sentir em todas as economias mundiais, tivemos o primeiro caso que foi o epicentro na China
que é consider- ado uma das principais potenciais económicas, olhando para o actual cenário o que significa as acções do Covid-19 para a economia hoje?
De uma forma geral, eu diria que a economia como um todo vai se ressentir. A COVID-19 agora é uma pandemia, isto significa que é um problema global. Desta forma, o que acontece é que vários países, sobretudo pelas medidas que estão sendo tomadas, vão sendo afectadas e vão afectando as outras economias. Nestes últimos tempos, praticamente, não temos economias fechadas. Os países são interdependentes, há relações quer comerciais, de investimento e outras de caracter diplomático.
E o que acontece é que as políticas que estão sendo tomadas em consideração, sobretudo reparando para o pânico gerado por essa pandemia da Covid-19 são políticas que muitas das vezes levam a restrições ou fecho de países, limitando a circulação da pessoas, neste caso, restringindo o exercício da actividade económica. Desta forma haverá uma redução da produção a nível global ou podemos dizer que a economia vai se ressentir dependendo da duração desta crise.
Que ilações os países em via de desenvolvimento podem e trair desse facto?
É importante para os países em via de desenvolvimento como é caso de Moçambique tomarem este tempo para uma reflexão interna profunda no sentido de começarem a procurar, de alguma forma, mudar a maneira de dependência. Sobretudo se reparamos para os dados económicos notaremos que Moçambique tem uma elevada dependência do sector externo e, além disso, a produção altamente concentrada no sector de recursos naturais. Com base nisso, é preciso começar-se a pensar em alternativas a este modelo de dependência, como é o caso da substituição das importações que pode ser bastante importante. Começar-se a procurar mecanismos de se produzir internamente as matérias-primas, fechar as cadeias de produção a nível interno ou, quando muito, reduzir significativamente a dependência externa. Mas isso não se limita apenas a estes factores económicos. Uma vez que se trata de pandemia, é impor- tante notar que Moçambique precisa de investir nos seus bens e serviços públicos primários, como é o caso da saúde. Se outrora podíamos depender de ir ao país vizinho ou a outros países para ir buscar atendimento médico, numa situação como esta temos que depender das facilidades criadas internamente e ela coloca praticamente todos em quase igual situação. Então, é um momento de reflexão. É um momento que nós podemos pensar em alternativas que visam potenciar a economia para responder situações como estas.
Olhando para o caso de Moçambique especificamente, quais seriam os aspectos ou impactos negativos o país poderia sofrer com a eclosão do vírus?
Uma vez se tratando de uma economia muito aberta, como é caso de Moçambique e tem se dito de uma forma mais genérica de que Moçambique importa, o que consome e exporta tudo o que produz, é importante como país começarmos a reflectir e mudar esta forma de operação, isto é, maximizamos a nossa produção, procurámos outras alternativas de como produzir matérias-primas para as nossas próprias indústrias e começarmos a ver soluções internas mais do que externas. Obviamente é impossível não termos relações comerciais com os outros países, no entanto, é possível reduzirmos estas relações, reduzindo, sobretudo, a dependência.
Com a propagação dessa pandemia, assistimos à adopção de um conjunto de medidas por parte do Governo, MISAU, Banco de Moçambique e outras instituições públicas e privadas que directa ou indirectamente têm um impacto na economia moçambicana.
Qual é a análise que faz dessas medidas?
É importante notar que as medidas que o Governo toma não são directamente de carácter económico, podem ter algum impacto económico na me- dida em que grandes aglomerações são vedadas, o que significa sobretudo shows e outras facetas da economia poderão ser prejudicadas.
São, sobretudo, eventos de grandes aglomerações. Mas estas medidas tomadas, quer pelo Governo de Moçambique quer pelo Ministério da Saúde (MISAU), tem em vista limitar as contaminações.
Mas talvez a medida que é de carácter económico é a medida tomada pelo Banco Central que foi a de anúncio de uma redução naquilo que são as taxas de reservas obrigatórias. Esta medida é de carácter económico, então depende muito daquilo que se quer atingir com esta medida. Por uma simplês razão, espera-se que com esta situação pandémica haja sim alguma recensão económica no mundo, o que na essência já se faz sentir. A medida financeira tomada pelo Banco de Moçambique vai permitir que os bancos comerciais disponham de maior liquidez. A pergunta é: o que é que se pretende com isto? É fomentar o investimento ou, de alguma forma, dar um pouco mais de capacidade as empresas ou necessariamente per- mitir que os consumidores façam as suas estocagens. Porque, em parte, as medidas anunciadas pelo Governo vão permitir que haja um aumento da procura de alguns produtos. Então, teremos cada vez mais pessoas a correrem para os bancos de forma a ter dinheiro e, assim, poder fazer compras de produtos para prevenção e alimentos de primeira necessidade para estocagem. Mas se as reservas que os bancos têm tido, quer seja nas ATM ou mesmo nos balcões, forem relativa- mente limitadas pode se dar uma situação de pânico bancário. Isto acontece quando os agentes económicos recorrem ao banco, mas não podem aceder ao dinheiro porque não há liquidez suficiente, então é muito provável, que a medida do Banco Central tenha em vista evitar o pânico bancário, mas não necessariamente para alavancar a economia.
Num curto prazo, podemos ter o au- mento da demanda, mas se nós repararmos para a questão da dependência dos outros países e a possibilidade de limitação de entrada de produtos, bens e serviços que são necessários, a posterior, teremos relativo decréscimo da demanda.
Como é que Moçambique deve agir para acomodar ou minimizar os impactos do COVID-19?
Há uma série de medidas que os outros países já tomaram como é o caso da China e de todos os outros países que já foram afectados que tem envista, acima de tudo, alavancar a economia ou reduzir os impactos nos diversos agentes económicos e algumas talvez mais simples de tomar, por exemplo, o custo de electricidade.
A electricidade que é usada tanto na produção pelos agentes económicos e tanto pelo consumidores de forma geral. Então, uma redução pode ajudar de alguma forma a reduzir os efeitos de liquidez em caso dos absentismo nos locais de trabalho; possíveis descontos ou mesmo perdas de emprego. Por acaso, a Organização Internacional de Trabalho (OIT) comunicou que há uma possibilidade de grandes per- das de trabalho a menos que medidas sejam tomadas.
É importante notar que o sector privado precisará de algum estímulo, isto vai significar, de alguma forma, a necessidade de redução de impostos para poder, de alguma forma, apoiar este sector privado porque é muito mais fácil e provável que este sector venha a ter perdas, quer pela redução da procura, quer pela redução do seu volume de negócio. Acima de tudo, a nível nacional e internacional por causa das restrições que estão a ser impostas. Mas isto será difícil para uma economia como a nossa, sobretudo olhando para um passado recente, onde houve uma grande perda de investi- dores e doadores. No entanto, alternativas podem ser necessárias, embora não sejam as mais adequadas, mas em momentos de crise é necessário que haja sacrifícios. Se, por exemplo, os nossos líderes tiverem que reduzir parte das suas mordomias é possível acolchoar, de certa forma, este efeito da redução das receitas colectadas, sobretudo, porque todos os gastos do Governo, quer seja as mordomias, os salários e “décimos-terceiros”, os custos de funcionamento e de investimentos, tudo depende de impostos que é a fonte de captação de receitas, sobretudo se repararmos que há uma redução daquilo que é o apoio externo nós podemos ver que nos últimos anos houve maior dependência daquilo que são as receitas internas, pese embora não sejam ainda de grande magnitude então é importante ver as possíveis alternativas: redução de alguns custos de produção, dos preços que são necessários para manter a economia fluindo de uma forma potenciária para que a massa trabalhadora tenha ainda recursos face àquilo que são as suas demandas.
Moçambique deve olhar para essa situação como um pânico ou uma oportunidade? Em que medida?
É verdade que se trata de uma crise em, primeiro lugar, mas geralmente as crises também trazem oportuni- dades e que as oportunidades que nós podemos olhar. Existe uma grande oportunidade de se fazer reformas a nível do Estado; reformas estas que serão significativas, que podem per- mitir que haja uma redução dos cus- tos dos gastos que o Estado tem feito em aspectos que são necessariamente produtivos, por exemplo, os gastos do consumo do Estado. No entanto, há necessidade de aumentar aquilo que são os gastos com investimentos pú- blicos. Se reparamos numa situação pandémica como esta existe um risco muito elevado de muitas contami- nações em Moçambique. É só reparar para os transportes públicos.


















