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Professor António Francisco

Em quase meio século de independência Moçambique coexiste com fracasso económico e sucesso apreciável de subdesenvolvimento

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 – Considera o Professor António Francisco, reflectindo sobre os “ 47 anos de independência, o que é hoje Moçambique, como realidade económica”

O economista e académico António Francisco não tem dúvida de que economicamente o período em apreço constitui um fracasso.

Para sustentar a sua asserção, António Francisco socorre-se dos  indicadores económicos que mostram sobre a evolução da realidade no longo prazo. Na sua análise,  o sucesso ou insucesso dos países nas últimas cinco ou seis décadas, girou em torno do crescimento económico, sendo que os dados estatísticos apenas confirmam o vivenciado. São esses dados que precisam ser devidamente interpretados, no lugar de se criar “narrativas fictícias paralelas”

António Francisco frisa que o fracasso a que se refere “manifesta-se na incapacidade de gerar crescimento económico, possível e desejável”.

O.Económico (O.E): Que evidências estatísticas fundamentam a sua constatação sobre o fracasso? Não houve altos e baixos, ao longo do último meio século?

António Francisco (AF): Claro que houve variações grandes, subidas e descidas bruscas das quais resulta uma tendência média. Por isso, devemos olhar para os dados disponibilizados por entidades reconhecidas internacionalmente, referentes ao desempenho económico. Por exemplo, o Produto Interno Bruto (PIB) real per capita em paridade de poder  de compra (PPC); um indicador alternativo às taxas de câmbio convencionais que medem a riqueza produzida, controlando os efeitos das variações dos preços e do poder aquisitivo entre países. O PIB real (PPC) per capita serve de proxy para medir o nível de vida e o desenvolvimento económico a longo prazo, articulando o crescimento da produção nacional e o crescimento demográfico da população. 

O que mostra o PIB real per capita de Moçambique, na sua tendência a longo prazo e comparativamente ao desempenho de outros países, vizinhos ou distantes?

Professor António Francisco

Para uma noção mais abrangente da evolução da realidade económica, recuemos uma década e meia antes de 1975. No início da década de 1960, Moçambique tinha um PIB real (PPC) per capita de $659 (correspondente 290 dólar americano convencional); um dos níveis de vida mais baixos na região da Africa Austral. Pior do que Moçambique, estava o Botswana, com $513 de PIB per capita, 78% do moçambicano em 1960. Em contraste com estes países, há 60 anos atrás, vários países vizinhos ou distantes desfrutavam de melhor PIB real per capita.

Todavia, o hiato ou distância do nível de vida desses países, alguns dos quais  figuram hoje entre os mais ricos do mundo não era muito grande. Por exemplo, o nível de vida do Zimbabwe ($2.448) era cerca de quatro vezes maior do que o de Moçambique. Muito próximo do Zimbabwe encontravam-se a Malásia, com um PIB per capita de $2.690 e Singapura com $2.765. Mas o PIB per capita da República Democrática do Congo (RDC), Congo-Kinshasa, era de $2.984; superior ao dos três países atrás referidos e cinco vezes maior do que o moçambicano. Mais distanciados destes todos podemos mencionar Portugal ($4.577), na altura a Metrópole colonial, com um nível de vida sete vezes superior ao de Moçambique; e a Africa do Sul ($6.773) tinha um nível de vida 10 vezes maior do que o de Moçambique.

Volvidas seis décadas,  o panorama actual em  Moçambique (2019) apresenta uma  ligeira melhoria, unicamente em relação ao Congo-Kinshasa. Apesar do Congo ser um dos países com maior concentração de valiosos  recursos naturais do mundo e ter em 1960  melhor padrão de vida do que a  Malásia, Singapura e Coreia do Sul, no último meio século registou um decréscimo médio do PIB per capita na ordem de 2% ao ano. Presentemente tem um PIB per capita  que é 80% do de Moçambique. O trambolhão do nível de vida da Venezuela na última década foi espantoso. Seu PIB per capita caiu de quase 19 mil dólares em 2010 para 250 dólares em 2019. Todos os outros países acima referidos, distanciaram-se de Moçambique, excepto a África do Sul que manteve a mesma distância de 1960 e  o Zimbabwe perdeu a distância para metade. Os demais países, cresceram de forma notável. O Botswana possui hoje um PIB per capita 13 vezes maior do que o de Moçambique; o PIB per capita da Malásia é 21 vezes maior, o da Coreia do Sul 34 vezes maior e o de Singapura 67 vezes maior do que Moçambique.

Espero que a ilustração empírica anterior seja suficiente para o convencer do fracasso do desenvolvimento económico, decorrente da articulação do desempenho da economia e da demografia da população moçambicana. A comparação anterior poderá variar relativamente a outras fontes, por razões metodológicas e diferenças de dados. Se houvesse tempo podíamos especificar os ciclos de expansão e os ciclos de regressão, ou adicionar outras evidências empíricas; mas o retrato do fracasso do desenvolvimento económico não mudaria.

O.E: Sim, as tendências que apresentou mostram discrepâncias surpreendentes…

A.F: Para bem ou para mal, revelam desempenhos e percursos muito diferentes. Sobre Moçambique, não há como negar a realidade. Em 60 anos, o PIB real per capita moçambicano cresceu a uma média de 1% por ano, razão pela qual Moçambique mantém-se entre os mais pobres em África e no Mundo. Se compararmos com os países da SADC, em 60 anos Moçambique não conseguiu ultrapassar nenhum dos países com muito menos recursos naturais e humanos, excepto o Congo-Kinshasa que se converteu na principal incubadora de conflitos violentos regionais com a qual Moçambique tem estado empenhado em competir. 

Leia a entrevista na íntegra no Económico Report_Edição de Julho

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