Empoderamento da mulher, modismo ou determinante do desenvolvimento?

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_A pobreza deve deixar de ter um rosto feminino, destaca Judite Chipenembe pesquisadora e especialista em género e diversidade

Apesar dos desafios, já são notáveis progressos em matérias de empoderamento económico da mulher no País. A promoção da igualdade e inclusão de género exige uma acção integrada.

O país está gradualmente a dar passos para uma maior inclusão das mulheres no desenvolvimento dos processos sócio-económicos. Trata-se de uma tendência que, segundo as opiniões existentes sobre o assunto, vem acompanhando o processo de transformação da própria economia, caminhando para um crescimento inclusivo e sustentável, com participação activa e benefícios acrescidos para os diferentes segmentos.

Esta tendência é particularmente evidente ao nível do sector público. Com efeito, apesar de ter registado uma ligeira redução entre 2014 e 2019, o País continua a ostentar uma das quotas de género mais altas ao nível do mundo, cerca de 39,6% mulheres no parlamento, contra a média global de 24,5%, segundo dados da União Interparlamentar (IPU).

Notam-se “mudanças significativas” em matérias de empoderamento económico da mulher no País, no entanto, o ritmo dos avanços ainda é “muito lento”, destacou Judite Chipenembe, pesquisadora e especialista em matérias de género e diversidade.

Segundo explicou, o País encontra-se, de facto, num “bom caminho” na matéria, mas prevalecem importantes desafios. Trata-se de desafios associados, essencialmente, à uma miscelânea de factores, entre os quais culturais, que criam exclusões logo a partida. Uma realidade evidenciada pelo facto de boa parte dos problemas sociais ao nível nacional – informalidade, desemprego, pobreza, analfabetismo, entre outros – ter um “rosto feminino”.

A situação torna-se relativamente mais preocupante a medida que passamos do sector público para o privado. Com efeito, não obstante os progressos alcançados, e à semelhança do que ocorre no mercado de trabalho, a participação das mulheres nos negócios continua a representar uma pequena parcela no universo de negócios formais – apenas 23,3%, segundo as últimas informações do Portal de Dados de Género do Banco Mundial.

No que refere a participação das mulheres nos negócios, Sofia Cassimo, Presidente do Pelouro da Mulher Empresária da CTA, em declarações ao “O.ECONÓMICO”, reconheceu a prevalência de desafios importantes na promoção da igualdade e inclusão de género, apontando para a necessidade de se avançar com a integração da mulher nas novas cadeias de valor e, assim, assegurar a sua presença em grandes oportunidades.

Sofia Cassimo, Presidente do Pelouro da Mulher Empresária e Empreendedorismo – CTA

Além das questões culturais, a falta de acesso à informação e recursos económicos em condições favoráveis, resultado da exclusão financeira, são factores que, na opinião da empresária, acabam limitando a participação feminina nos negócios: “ Para eu poder aceder a essas oportunidades, eu tenho que saber que elas existem. Então, o acesso a informação é fundamental para um maior engajamento das Mulheres nos negócios”, frisou.

Face a este contexto, e por se entender que o processo de desenvolvimento da economia exige, necessariamente, a contribuição de todos os actores produtivos, aponta-se para a necessidade de implementação de um conjunto de iniciativas visando a inclusão progressiva de género. “Nós não vamos atingir o desenvolvimento económico se nós não olharmos para questão do empoderamento económico da mulher (…) porque a maior parte da população é feminina e a maior parte da população está no desemprego”, avançou Chipenembe.

Segundo sustenta, o foco deve estar nos investimentos de capacitação/formação das mulheres, principalmente nas zonas rurais, onde o nível de exclusão ainda é bastante significativo: “A situação da mulher no meio rural é bem mais grave. Porque quando a gente fala da baixa qualificação no meio rural é bem mais baixa. E sobretudo porque a maior parte das mulheres está na agricultura familiar”

Apesar de reconhecer o crescente grau de preocupação com tema ao nível das políticas, com quase todos os documentos do Governo da última década mencionando a questão do género, a pesquisadora explica que o empoderamento da mulher não pode ser visto de maneira isolada, mas sim como uma acção integrada, ou seja, além das questões culturais, é preciso ter em consideração as “especificidades” do grupo e a questão da economia de cuidados no desenho e implementação dos programas visando o seu empoderamento: “Por mais que a gente tenha um programa de empoderamento da mulher, se nós não olharmos para a questão da economia de cuidados, esse programa não terá sucesso”, concluiu.(OE)

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