África Pode Mobilizar Mais de 1,4 Biliões de Dólares em Recursos Internos e Superar Crescimento Global Médio

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Questões-Chave:

  • O crescimento do PIB real em África deverá subir de 3,3% em 2024 para 3,9% em 2025, e atingir 4,0% em 2026;
  • Vinte e um países africanos deverão ultrapassar os 5% de crescimento em 2025, com quatro deles (Etiópia, Níger, Ruanda e Senegal) a atingir 7%;
  • África poderá mobilizar adicionalmente 1,43 biliões de dólares em recursos domésticos com reformas eficazes e contenção de fugas de capitais;
  • As perdas anuais por fluxos financeiros ilícitos, evasão fiscal e corrupção somam cerca de 587 mil milhões de dólares;
  • A implementação plena do Acordo de Livre Comércio Continental Africano (AfCFTA) poderá aumentar as exportações em 560 mil milhões de dólares até 2035.

O relatório African Economic Outlook 2025, publicado esta terça-feira pelo Banco Africano de Desenvolvimento, projeta uma aceleração do crescimento económico em África e destaca a urgência de reformas estruturais e de governação para libertar o vasto potencial de capitais internos, com destaque para as disparidades regionais e os riscos persistentes no cenário global.


Apesar das pressões inflacionistas, tensões comerciais e choques geopolíticos, África deverá manter uma trajectória de recuperação económica, com o PIB real a crescer 3,9% em 2025 e 4,0% em 2026. Estes números colocam o continente acima da média global estimada pelo FMI (2,8% em 2025 e 3,0% em 2026), ultrapassando também todas as outras regiões do mundo com excepção da Ásia em desenvolvimento.

Contudo, os dados agregados escondem uma realidade muito desigual entre regiões. A análise detalhada do Outlook revela uma África fragmentada entre motores de crescimento robusto e economias estruturalmente frágeis:

África Oriental mantém-se como o bloco regional mais dinâmico, com uma taxa de crescimento projectada de 5,9% em 2025 e 2026. Países como Etiópia, Ruanda, Tanzânia e Uganda destacam-se pela aposta na industrialização agrícola, infra-estruturas energéticas e diversificação das exportações. O crescimento consistente nesta região está associado a políticas activas de investimento público e integração intra-regional crescente.

África Ocidental deverá registar 4,3% de crescimento, sustentada por novas operações de extracção de petróleo e gás no Senegal e no Níger, e pela intensificação da transformação agro-industrial na Côte d’Ivoire, Mali e Togo. Apesar de desafios em mercados como a Nigéria, cuja economia crescerá apenas 3,2%, a região demonstra capacidade de alavancar investimentos internos e externos, com forte presença do sector privado.

África do Norte, por seu turno, apresenta uma recuperação moderada, com previsões de 3,6% de crescimento em 2025. A desaceleração em países como Egipto e Líbia reflecte a vulnerabilidade das receitas externas às variações nos preços das exportações e a tensões políticas internas.

África Central enfrentará uma desaceleração para 3,2%, com destaque para o impacto dos conflitos no leste da República Democrática do Congo e a redução da produção de hidrocarbonetos na Guiné Equatorial. O crescimento desigual entre os países da região levanta preocupações quanto à sua resiliência estrutural.

África Austral deverá crescer apenas 2,2% em 2025, reflectindo o peso da economia sul-africana, que enfrentará um crescimento anémico de 0,8% devido a constrangimentos fiscais, fragilidades institucionais e dependência de sectores pouco competitivos. Ainda assim, países como Zâmbia, Zimbabué e eSwatini poderão registar crescimentos superiores a 6%, revelando bolsões de dinamismo económico.

Em termos globais, 21 países africanos deverão crescer acima de 5% em 2025, e quatro — Etiópia, Ruanda, Níger e Senegal — atingirão ou superarão a marca dos 7%, considerada o limiar mínimo necessário para reduzir significativamente a pobreza e impulsionar o desenvolvimento inclusivo.

Capital Africano: Subaproveitamento e Oportunidade
O relatório do Banco Africano de Desenvolvimento sublinha que, com reformas eficazes, África pode mobilizar até 1,43 biliões de dólares em recursos domésticos adicionais — montante superior ao défice anual de financiamento estimado para alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030.

Essa mobilização dependerá da capacidade de:

  • Expandir a base fiscal sem aumentar taxas, recorrendo à digitalização e combate à informalidade;
  • Valorizar o capital natural africano, como os minerais verdes estratégicos (cobalto, lítio, manganês), através de políticas de retenção de valor e beneficiamento local;
  • Fomentar o capital humano e empresarial, aproveitando a juventude demográfica e as remessas da diáspora, que poderão atingir 500 mil milhões de dólares até 2035.

Contudo, o continente perde anualmente cerca de 587 mil milhões de dólares devido a fluxos ilícitos, evasão fiscal por multinacionais e corrupção — cifra que representa mais do triplo dos fluxos financeiros recebidos do exterior em 2022. A contenção dessas fugas poderá, por si só, financiar uma parte significativa da transformação estrutural de África.

Recomendações: De Dependência a Autonomia
Além da mobilização de capitais, o relatório recomenda:

  • Reforço da governação económica, transparência fiscal e estado de direito;
  • Consolidação das instituições financeiras africanas e dos mercados de capitais em moeda local;
  • Avanço na implementação do AfCFTA como alavanca para a industrialização regional e expansão do comércio intra-africano;
  • Reforma dos acordos de concessão mineira para garantir soberania e redistribuição justa da riqueza natural.


A trajectória de África dependerá, mais do que nunca, da sua capacidade interna de fazer o seu capital trabalhar a favor do seu povo. “Não há substituto para uma boa governação e gestão macroeconómica sólida”, afirmou Kevin Chika Urama, economista-chefe do BAD. Se o continente conseguir alinhar reformas estruturais com a sua riqueza de recursos, poderá inverter a narrativa da dependência e transformar o seu potencial em prosperidade sustentável.

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