Banco Mundial Defende Nova Agenda De Desenvolvimento Para Moçambique Assente Em Emprego, Industrialização E Capital Humano

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  • Na Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável, o director da Divisão do Banco Mundial, Fily Sissoko, afirmou que Moçambique já demonstrou capacidade para crescer, mas enfrenta agora um desafio mais complexo: transformar crescimento económico em emprego, rendimento e prosperidade partilhada. A instituição apresentou cinco prioridades estratégicas para orientar o desenvolvimento do país até 2050.

Questões-Chave

  • Banco Mundial considera que Moçambique precisa de uma transformação estrutural da economia para converter crescimento em prosperidade.
  • Fily Sissoko identifica cinco prioridades nacionais para os próximos 25 anos.
  • Instituição defende maior diversificação económica e menor dependência dos sectores extractivos.
  • Capital humano, industrialização e capacidade de execução do Estado surgem como pilares centrais da nova agenda.
  • Mensagem converge com a visão debatida na Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável promovida pelo Governo.

Moçambique dispõe hoje de condições únicas para inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento económico. Contudo, para que esse potencial se traduza em melhores condições de vida para a população, será necessário alterar profundamente o modelo de crescimento que tem caracterizado o país nas últimas décadas.

Esta foi a principal mensagem deixada pelo director da Divisão do Banco Mundial para Moçambique, Fily Sissoko, durante a Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável, realizada em Maputo, onde apresentou uma reflexão estratégica sobre os desafios e oportunidades que deverão orientar a agenda nacional de desenvolvimento até 2050.

Segundo o responsável, o percurso económico de Moçambique demonstra uma notável capacidade de resiliência. Após o conflito armado, o país registou durante mais de duas décadas um dos ritmos de crescimento mais elevados de África, próximo de 8% ao ano, impulsionado pela reconstrução, investimento externo e apoio dos parceiros de desenvolvimento. No entanto, esse percurso foi sucessivamente condicionado por crises financeiras, ciclones, pandemia, terrorismo em Cabo Delgado, instabilidade política e, mais recentemente, pelas cheias de 2026.

Crescimento Já Não Basta

Apesar desse desempenho, o Banco Mundial considera que o crescimento económico, por si só, deixou de ser um indicador suficiente de sucesso.

Para Fily Sissoko, a verdadeira medida do desenvolvimento reside na capacidade de criar oportunidades para as famílias, agricultores, jovens, mulheres e trabalhadores em todas as regiões do país.

“O crescimento deve ser inclusivo, e não apenas rápido”, defendeu, sublinhando que o aumento do Produto Interno Bruto só fará sentido se se traduzir em redução da pobreza, criação de emprego e melhoria efectiva da qualidade de vida.

Recursos Naturais Devem Financiar A Transformação

Outro dos alertas centrais prende-se com a gestão da riqueza mineral e energética.

Embora Moçambique possua algumas das maiores reservas de gás natural do mundo e importantes recursos minerais, o Banco Mundial considera que estes activos apenas produzirão desenvolvimento sustentável se forem convertidos em investimento produtivo.

Na perspectiva da instituição, as futuras receitas do gás deverão financiar infra-estruturas, educação, saúde, fortalecimento institucional e desenvolvimento do sector privado, evitando que a economia permaneça excessivamente dependente da exportação de matérias-primas.

Esta posição converge, aliás, com o crescente consenso nacional em torno da necessidade de promover maior transformação local dos recursos naturais e acelerar a industrialização da economia.

Diversificação Económica Continua A Ser O Grande Desafio

O Banco Mundial entende igualmente que a estrutura produtiva moçambicana continua excessivamente concentrada.

Actualmente, a agricultura de baixa produtividade e as indústrias extractivas continuam a dominar grande parte da actividade económica, situação que limita a criação de emprego de qualidade e aumenta a vulnerabilidade aos choques externos.

Por isso, a instituição defende uma aposta consistente na agricultura comercial, agro-processamento, indústria transformadora, logística, turismo e serviços modernos, sectores capazes de gerar maior valor acrescentado e emprego sustentável.

Capital Humano Como Principal Infra-Estrutura

Uma das mensagens mais marcantes da intervenção incidiu sobre o papel das pessoas no processo de desenvolvimento.

Segundo dados apresentados pelo Banco Mundial, cerca de 416 mil jovens entram todos os anos no mercado de trabalho moçambicano, mas apenas aproximadamente 30 mil conseguem aceder ao emprego formal.

Este desfasamento demonstra que o verdadeiro desafio não consiste apenas em fazer crescer a economia, mas em criar empregos produtivos numa escala compatível com o crescimento demográfico.

Neste contexto, Sissoko defendeu investimentos muito mais robustos em educação, saúde, nutrição, formação técnico-profissional e desenvolvimento de competências digitais.

“Os cidadãos são a mais importante infra-estrutura de um país”, afirmou, sustentando que a competitividade futura dependerá mais do conhecimento e da produtividade da população do que dos próprios recursos naturais.

Cinco Prioridades Para Os Próximos 25 Anos

O Banco Mundial propõe cinco prioridades estratégicas para orientar a transformação económica de Moçambique.

A primeira consiste numa agenda nacional de transformação agro-industrial, capaz de modernizar a agricultura, expandir a irrigação, aumentar a produtividade e fortalecer as cadeias de valor.

A segunda aposta numa verdadeira revolução do capital humano, através do reforço da educação, saúde e formação profissional.

Em terceiro lugar surge um programa acelerado de infra-estruturas, abrangendo estradas, energia, abastecimento de água, saneamento, habitação, conectividade digital e infra-estruturas resilientes às alterações climáticas.

A quarta prioridade consiste em utilizar o gás natural e os recursos minerais como catalisadores da industrialização, promovendo fertilizantes, manufactura e outras actividades transformadoras, em vez da simples exportação de recursos em estado bruto.

Por último, o Banco Mundial considera indispensável reforçar a capacidade de execução do Estado, apostando numa administração pública mais eficiente, maior coordenação institucional, disciplina fiscal e gestão orientada para resultados.

Uma Agenda Que Converge Com O Debate Nacional

As recomendações apresentadas pelo Banco Mundial assumem particular relevância por surgirem no âmbito da Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável, promovida pelo Ministério da Planificação e Desenvolvimento, precisamente para reflectir sobre o percurso do país entre 2000 e 2025 e construir consensos sobre a visão de desenvolvimento até 2050.

Mais do que um conjunto de recomendações sectoriais, a intervenção de Fily Sissoko constitui uma proposta integrada de transformação estrutural da economia moçambicana. A mensagem central é inequívoca: Moçambique já demonstrou que consegue crescer. O desafio da próxima geração será garantir que esse crescimento se traduza em milhões de empregos produtivos, aumento do rendimento das famílias e prosperidade partilhada.

Essa ambição, concluiu o responsável do Banco Mundial, dependerá menos da existência de recursos naturais e mais da capacidade do país para transformar esses recursos em conhecimento, produtividade, instituições sólidas e oportunidades para todos os moçambicanos.