Café Recua 2,8% em Junho, Mas El Niño Reabre Pressão Sobre a Oferta Global

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  • O indicador composto da Organização Internacional do Café caiu para 248,90 cêntimos de dólar por libra, reflectindo expectativas de uma colheita brasileira mais robusta. Contudo, a redução das exportações, os inventários limitados e o agravamento dos riscos climáticos provocaram uma recuperação abrupta dos preços no final do mês.
Questões-Chave:
  • O preço indicador composto do café caiu 2,8% em Junho, depois de ter recuado igualmente em Abril e Maio;
  • O nível mais baixo em quase dois anos foi atingido no dia 9 de Junho, e não pela média mensal;
  • Os preços recuperaram 17,4% entre o mínimo mensal e o final de Junho, revelando elevada sensibilidade às condições climáticas;
  • As existências certificadas de arábica nos Estados Unidos caíram 13,3%, para o nível mais baixo desde Fevereiro de 2024;
  • Uma colheita recorde no Brasil poderá aliviar o mercado, mas o El Niño, a chuva excessiva e os custos logísticos mantêm elevados os riscos sobre a oferta;
  • Para Moçambique, a volatilidade reforça a oportunidade de desenvolver cafés diferenciados, mas exige investimento em produtividade, qualidade, processamento e acesso estruturado aos mercados.

O preço internacional de referência do café caiu 2,8% em Junho face a Maio, fixando-se numa média de 248,90 cêntimos de dólar por libra, segundo o mais recente Relatório do Mercado do Café da Organização Internacional do Café.

A descida mensal, porém, não conta toda a história. Durante Junho, o mercado apresentou um movimento em forma de “V”: o indicador composto da organização, conhecido por I-CIP, caiu para 231,96 cêntimos por libra no dia 9 de Junho, o valor diário mais baixo em quase dois anos, mas recuperou depois 17,4%, encerrando o mês nos 272,39 cêntimos, o nível mais elevado em dois meses.

A correcção inicial reflectiu uma melhoria das perspectivas de produção, sobretudo no Brasil e no Vietname. Contudo, a queda das exportações, a redução dos inventários de café disponíveis para entrega e o aumento das preocupações climáticas inverteram rapidamente o sentimento dos operadores.

O resultado é um mercado no qual as expectativas de maior produção pressionam os preços para baixo, enquanto qualquer notícia sobre chuvas excessivas, seca, atrasos na colheita ou redução das existências desencadeia compras imediatas e movimentos expressivos de valorização.

A Média Caiu, Mas o Mercado Não Ficou Mais Estável

Importa distinguir o preço médio mensal do valor observado num determinado dia. O nível mais baixo em quase dois anos, frequentemente associado à cotação de Junho, correspondeu ao mínimo diário de 9 de Junho. A média do mês, de 248,90 cêntimos por libra, permaneceu acima desse valor devido à forte recuperação registada na segunda metade do período.

A queda também não foi uniforme entre os diferentes tipos de café. Os suaves colombianos avançaram 0,4%, para 324,60 cêntimos por libra, enquanto os robustas subiram 1,7%, para 169,39 cêntimos.

Em sentido contrário, os outros cafés suaves recuaram 2,4%, para 307,83 cêntimos, e os naturais brasileiros perderam 7,4%, fixando-se em 272,01 cêntimos por libra. Na bolsa ICE de Nova Iorque, o preço médio do arábica caiu 4,3% em Junho, enquanto o robusta negociado em Londres subiu 2,7%.

Estas trajectórias divergentes mostram que não existe um único “preço mundial do café”. O indicador composto da Organização Internacional do Café agrega diferentes qualidades e mercados, enquanto os contratos de futuros representam preços para entrega em datas específicas.

Por essa razão, uma cotação corrente de futuros acima de três dólares por libra não contradiz necessariamente a média mensal de 248,90 cêntimos. São referências diferentes, influenciadas pelo tipo de café, vencimento do contrato, origem, qualidade, prémios físicos e momento da negociação.

Em Julho, os futuros do arábica continuaram a oscilar aproximadamente entre 3,20 e 3,50 dólares por libra, à medida que os investidores reavaliavam diariamente a colheita brasileira e os riscos meteorológicos. 

Brasil Promete Mais Café, Mas a Colheita Enfrenta Obstáculos

A principal força de redução dos preços continua a ser a expectativa de uma colheita elevada no Brasil, o maior produtor e exportador mundial.

A Companhia Nacional de Abastecimento do Brasil projectou uma produção total de 66,7 milhões de sacos para a campanha de 2026/27, dos quais 45,8 milhões de arábica, representando um crescimento anual de 28% nesta variedade. A estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos é ainda mais elevada, apontando para 71,9 milhões de sacos.

Em teoria, uma colheita desta dimensão aumentaria a disponibilidade de café, permitiria a reconstrução dos inventários e reduziria a pressão exercida sobre os preços desde 2024.

Contudo, a chegada dessa produção ao mercado não está a decorrer sem problemas. As chuvas superiores ao normal nas principais regiões produtoras brasileiras atrasaram a colheita, dificultaram a secagem dos grãos e suscitaram preocupações sobre a qualidade.

Até 24 de Junho, a colheita brasileira estava concluída em 44%, abaixo dos 51% registados no mesmo período de 2025 e da média de 47% dos cinco anos anteriores. Em Minas Gerais, a precipitação observada numa das últimas semanas de Junho foi quase vinte vezes superior à média histórica do período, segundo dados citados pela Organização Internacional do Café.

O mercado enfrenta, portanto, uma diferença importante entre produção potencial e oferta efectivamente disponível. Uma colheita pode ser elevada, mas atrasos, perdas de qualidade, dificuldades de secagem, transporte e armazenamento impedem que todo o volume se transforme imediatamente em café comercializável.

Inventários Reduzidos Amplificam Cada Notícia

A sensibilidade dos preços ao clima é agravada pelo baixo nível das existências certificadas.

Os inventários de arábica certificados nos Estados Unidos caíram 13,3% entre Maio e Junho, para 410 mil sacos, o valor mais baixo desde Fevereiro de 2024. Os inventários certificados de robusta em Londres aumentaram 4,8%, para 680 mil sacos.

No conjunto, as existências certificadas de arábica e robusta totalizavam apenas 1,09 milhão de sacos no final de Junho, também o menor volume desde Fevereiro de 2024.

Inventários reduzidos funcionam como uma almofada mais pequena contra choques inesperados. Quando existe café abundante nos armazéns, um atraso de algumas semanas numa colheita pode ser compensado através da libertação de existências. Quando os inventários são escassos, o mesmo atraso provoca uma reacção mais intensa nos preços.

Este mecanismo ajuda a explicar por que razão o café recuperou rapidamente depois de atingir o mínimo de 9 de Junho. Os operadores não estavam apenas a responder às previsões climáticas, mas à possibilidade de essas previsões afectarem um mercado que dispõe de margens de segurança limitadas.

Exportações Recuam e Arábica Perde Peso

Os fluxos comerciais também contribuíram para o nervosismo.

As exportações globais de café verde totalizaram 10,8 milhões de sacos em Maio, uma queda anual de 4,1%. Considerando todas as formas de café — verde, torrado e solúvel — as exportações diminuíram 3,2%, para 12,38 milhões de sacos.

A contracção foi particularmente acentuada no arábica. As exportações desta variedade caíram 9,3% em Maio, para 6,46 milhões de sacos, prolongando uma tendência descendente iniciada em Abril de 2025.

A participação do arábica nas exportações globais de café verde caiu para 60,2% nos primeiros oito meses da campanha de 2025/26, contra 64% no período homólogo. Em contrapartida, os embarques de robusta cresceram 4,8%, apoiados pelo aumento da oferta brasileira.

Esta alteração tem implicações para a indústria. O robusta é geralmente mais barato e possui maior teor de cafeína, sendo amplamente utilizado em café solúvel e em misturas comerciais. Uma maior disponibilidade pode ajudar os torrefactores a controlar os custos através da substituição parcial do arábica.

Todavia, a possibilidade de substituição é limitada pela qualidade, pelo perfil de sabor e pelas preferências dos consumidores. Cafés especiais e produtos de maior valor acrescentado dependem mais do arábica, cujo mercado continua exposto a inventários reduzidos e maior vulnerabilidade climática.

África Regista Forte Queda Nos Embarques

As exportações africanas de todas as formas de café caíram 24,1% em Maio, para 1,63 milhão de sacos, contra 2,15 milhões no mesmo mês de 2025.

A redução resultou sobretudo dos menores embarques da Etiópia e do Uganda, que tinham alcançado níveis excepcionalmente elevados no ano anterior, beneficiando de boas colheitas e da libertação de inventários estimulada pelos preços altos.

Parte da queda representa, assim, um efeito estatístico de comparação com uma base particularmente elevada. Ainda assim, mostra que os países africanos continuam vulneráveis à alternância das colheitas, à insuficiência de armazenamento, ao financiamento dos produtores e à dificuldade de gerir a venda dos inventários ao longo do ano.

Quando os produtores e exportadores necessitam de liquidez imediata, são frequentemente obrigados a vender durante a colheita, período em que a oferta é maior e os preços podem ser menos favoráveis. Sistemas de armazenagem, crédito de campanha e comercialização colectiva permitiriam distribuir as vendas no tempo e capturar melhores condições de mercado.

El Niño: Risco Real, Mas “Super” Exige Precisão

As preocupações com o El Niño foram determinantes para a recuperação dos preços em Junho.

A Organização Meteorológica Mundial confirmou, no início de Julho, que o fenómeno já se tinha desenvolvido no Pacífico tropical e deverá intensificar-se rapidamente. As previsões apontam para um evento forte, susceptível de alterar os padrões de 

As probabilidades oficiais da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos indicavam, para o trimestre de Outubro a Dezembro, uma possibilidade de 81% de a anomalia de temperatura atingir a categoria “muito forte”, igual ou superior a dois graus Celsius. 

Contudo, a Organização Meteorológica Mundial esclarece que a expressão “Super El Niño”, usada por operadores e comentadores de mercado, não faz parte da sua classificação operacional oficial. A instituição utiliza as categorias fraco, moderado, forte e muito forte. 

A precisão é relevante porque a intensidade do El Niño não determina automaticamente a dimensão dos seus impactos em cada país. Os efeitos dependem da localização, da época do ano, das condições do Oceano Índico e do Atlântico e da interacção com outros fenómenos climáticos.

Para o café, o principal risco é a ocorrência simultânea de chuva excessiva em determinadas regiões, seca e temperaturas elevadas noutras. O El Niño pode afectar o Brasil, a Colômbia, a América Central, o Vietname, a Indonésia e a África Oriental de formas diferentes, dificultando uma avaliação uniforme da oferta global.

Queda Internacional Não Significa Café Imediatamente Mais Barato

A redução de 2,8% no indicador composto não deverá ser automaticamente transferida para os consumidores.

O preço final de uma embalagem de café inclui, além do grão, transporte, seguros, torrefacção, moagem, embalagem, distribuição, impostos, energia e margem comercial. Muitos importadores e torrefactores compram antecipadamente ou utilizam contratos de fornecimento, o que cria um intervalo entre a alteração das cotações internacionais e os preços no retalho.

As moedas também desempenham um papel central. Como o café é transaccionado internacionalmente em dólares, a desvalorização da moeda de um país importador pode neutralizar a queda do preço internacional.

Para consumidores e empresas moçambicanas, o custo dependerá, por isso, não apenas da cotação do café, mas também do metical, dos fretes marítimos, dos custos de importação e da composição entre arábica e robusta utilizada pelas marcas.

Moçambique Pode Entrar Pelo Valor, Não Pelo Volume

Moçambique ainda possui uma presença reduzida no mercado internacional do café, mas o contexto actual reforça a importância de desenvolver a cadeia de valor com uma estratégia diferenciada.

O Governo identificou o café como uma cadeia prioritária com potencial para gerar emprego, aumentar os rendimentos rurais e diversificar as exportações. O País aderiu à Organização Internacional do Café em 2023, enquanto programas apoiados pela FAO, UNIDO e Cooperação Italiana estão a promover variedades de arábica, viveiros, assistência técnica e novas plantações, sobretudo na província de Manica. 

Avaliações técnicas efectuadas em Manica identificaram zonas com altitudes entre 600 e 1.300 metros e condições agroecológicas semelhantes às de algumas regiões produtoras brasileiras. Estas características podem permitir a produção de cafés de qualidade e perfis diferenciados, desde que sejam acompanhadas por investigação, selecção de variedades, controlo de doenças e boas práticas de colheita e processamento. 

A oportunidade moçambicana não consiste em competir imediatamente com o Brasil ou o Vietname em volume. A escala reduzida torna mais racional uma estratégia assente em cafés especiais, origem identificada, produção sustentável, sistemas agroflorestais e ligação directa a torrefactores e compradores de nicho.

Preços elevados podem acelerar o investimento, mas também criar falsas expectativas. O café é uma cultura permanente que exige vários anos até atingir uma produção comercial relevante. Decisões baseadas apenas nas cotações actuais podem tornar-se economicamente frágeis quando a oferta global recuperar.

O desenvolvimento da cadeia requer viveiros certificados, extensão rural, investigação, unidades de lavagem e secagem, laboratórios de qualidade, financiamento de longo prazo, certificação e acesso previsível aos mercados. Sem estes elementos, os produtores poderão vender café em bruto e capturar apenas uma pequena parte do valor final.

A Volatilidade Será Mais Importante Do Que a Direcção

O recuo de Junho sugere que a expansão da produção brasileira poderá retirar pressão ao mercado. Mas a recuperação observada na segunda metade do mês mostra que a trajectória não será linear.

Nos próximos meses, os preços serão determinados pelo equilíbrio entre três forças: a dimensão efectiva da colheita brasileira, a evolução do El Niño e a capacidade de reconstrução dos inventários.

Uma colheita abundante, acompanhada por condições favoráveis de secagem e exportação, poderá prolongar a correcção. Pelo contrário, perdas de qualidade, atrasos logísticos ou danos climáticos nas principais origens poderão provocar novas subidas.

Para produtores, importadores, torrefactores e investidores, a principal mensagem do relatório da Organização Internacional do Café não é simplesmente que o preço caiu. É que o mercado permanece estruturalmente exposto a choques e reage de forma cada vez mais rápida quando a oferta disponível é limitada.

Neste ambiente, a vantagem competitiva pertencerá menos a quem tentar antecipar diariamente a cotação e mais a quem conseguir gerir riscos, assegurar qualidade, diversificar fornecedores e construir relações comerciais de longo prazo.