Agricultura Sustentável Enfrenta Verdadeiro Teste: Entre a Complexidade do Campo e a Pressão Climática

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Questões-Chave:

  • O modelo de sustentabilidade agrícola está a evoluir de uma lógica centrada em carbono para uma visão sistémica e integrada;
  • Os “4Ds” da agricultura — distribuída, diversa, diferenciada e difícil — tornam impossível a adopção de soluções padronizadas;
  • As empresas ajustam estratégias ESG, colocando foco no impacto mensurável e na sustentabilidade operacional;
  • Financiamento híbrido, combinando mercados de carbono e insetting, pode redefinir incentivos à produção sustentável;
  • Inovação tecnológica, genética e digital surge como o verdadeiro motor de transformação a médio prazo.

A agricultura é, simultaneamente, um dos sectores mais vulneráveis às alterações climáticas e um dos mais centrais para os objectivos globais de sustentabilidade. No entanto, como demonstra o relatório Key Emerging Trends in Sustainable Agriculture (S&P Global Commodity Insights, Novembro 2024), há uma lacuna profunda entre a urgência das soluções e a complexidade da sua implementação. A promessa da agricultura sustentável só se materializará com acções diferenciadas, financiamento direccionado e, sobretudo, ambição ancorada na realidade do campo.

Um Sector que Não Cabe em Um Único Molde

A narrativa dominante sobre sustentabilidade agrícola tem-se apoiado, durante anos, em promessas genéricas: menor uso de carbono, aumento de eficiência e “win-win” entre lucro e ambiente. Mas a agricultura real — feita por milhões de agricultores, em múltiplos biomas e sistemas produtivos — não é uniforme. A S&P Global sintetiza esse desafio nos chamados “4Ds”:

  1. Distribuída – práticas variam enormemente por geografia, clima, cultura e tradição;
  2. Diversa – múltiplas culturas, técnicas, ecossistemas e formas de produção coexistem;
  3. Diferenciada – cada combinação de cultura-região exige soluções específicas;
  4. Difícil – pela inerente incerteza, baixa margem financeira e vulnerabilidade a riscos naturais.

Esta caracterização não é apenas descritiva: ela põe em causa muitas das abordagens de política pública, de financiamento climático e de certificação ESG que, frequentemente, procuram aplicar modelos uniformes e importados de outras realidades.

Sair da Bolha do Carbono: Por uma Sustentabilidade Completamente Sistémica

A obsessão exclusiva com créditos de carbono — prática dominante até agora — não é sustentável nem financeiramente atrativa para os pequenos produtores. Os ganhos potenciais por hectare são incertos, os custos de certificação são elevados e os projectos de sequestro têm resultados altamente variáveis. Além disso, como o relatório evidencia, os solos tropicais, por exemplo, apresentam menor capacidade de retenção de carbono, dificultando a viabilidade de tais projectos em muitas regiões do Sul Global.

É por isso que a S&P propõe um novo enquadramento mais amplo e mensurável de sustentabilidade, que integra:

  • Conservação da biodiversidade e regeneração dos solos;
  • Uso eficiente da água e reciclagem de resíduos agrícolas;
  • Promoção de práticas de agricultura de conservação e agrossistemas biodiversos;
  • Inclusão de resultados sociais, como equidade de género e segurança alimentar.

Esta abordagem holística é particularmente relevante para países como Moçambique, Angola ou Brasil, onde os desafios da agricultura não se resumem às emissões, mas passam por baixa produtividade, erosão do solo, acesso limitado à tecnologia e exclusão de pequenos produtores dos mercados de exportação.

Compromissos ESG: Entre a Estratégia e a Reputação

As empresas agroalimentares enfrentam hoje um novo escrutínio. A era das metas vagas de “net zero até 2050” está a dar lugar à era do impacto rastreável em ciclos de curto prazo. O relatório revela uma transição notável: redução das promessas de escopo 3 e concentração dos esforços nos escopos 1 e 2, onde há maior controlo operacional e retorno directo.

Mas esta mudança de abordagem tem implicações ambivalentes:

  • Por um lado, permite que as empresas façam investimentos com impacto real na produção agrícola, como o uso de inteligência artificial no controlo da saúde dos solos (caso da Nestlé e Syngenta), ou a substituição de gás natural por hidrogénio verde no fabrico de fertilizantes (caso da Heineken);
  • Por outro, pode desviar a atenção da descarbonização profunda da cadeia de valor, transferindo o problema para o produtor primário sem o devido suporte.

Daí a importância crescente dos modelos de insetting, nos quais a própria empresa assume parte do investimento na transformação dos seus fornecedores agrícolas, numa lógica de parceria e repartição de riscos.

O Financiamento Como Gargalo (e Oportunidade)

A sustentabilidade custa — e é aqui que reside uma das maiores fragilidades dos actuais mecanismos de financiamento climático. O relatório mostra que os mercados voluntários de carbono estão a perder tração, não só pela fraca emissão de créditos, mas também pelas dúvidas sobre integridade, adicionalidade e real impacto dos projectos certificados.

Neste contexto, o insetting corporativo aparece como solução híbrida: as empresas passam a financiar projectos internos às suas cadeias de valor (por exemplo, apoio à adopção de culturas perenes ou cobertura vegetal permanente), com benefícios partilhados. Isto permite contornar a crítica ao “greenwashing” e criar valor a longo prazo.

Contudo, a massificação deste modelo exigirá:

  • Reformas na governação climática corporativa;
  • Quadro regulatório que reconheça projectos agrícolas como parte válida da neutralidade carbónica;
  • Capacidade técnica nos países produtores para desenhar e gerir projectos de alta qualidade.

A Inovação Como Motor da Sustentabilidade Escalável

Se há um eixo que pode transformar estruturalmente a agricultura, é a inovação tecnológica orientada para a resiliência e a eficiência. O relatório dá particular destaque a:

  • Sementes resilientes, capazes de suportar stress térmico e hídrico;
  • Soluções fitossanitárias de baixo impacto, com modos de acção inovadores;
  • Maquinaria inteligente, com aplicação variável de insumos, reduzindo desperdício e emissões;
  • Tecnologias para pecuária de baixo carbono, incluindo vacinas e aditivos para mitigar o metano.

Importa realçar que estas tecnologias não são neutras: sem políticas públicas activas, há o risco de exclusão tecnológica dos pequenos produtores, perpetuando desigualdades no acesso à inovação.

Conclusão: Uma Agricultura que Merece Ser Sustentada com Realismo e Ambição

O relatório da S&P Global Commodity Insights (2024) não é apenas um diagnóstico: é um apelo urgente por uma agricultura regenerativa, economicamente viável e tecnologicamente inclusiva. Mas alerta, sobretudo, para a necessidade de abandonar discursos simplistas e soluções universais.

A sustentabilidade agrícola não pode ser reduzida a uma métrica, um rótulo ou um selo verde. Ela tem de nascer do terreno — dos solos, das sementes, das mãos que cultivam, dos sistemas que distribuem, e da coragem de reequilibrar os incentivos em favor de quem produz e de quem protege o planeta.

 
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