Crise Cambial Aprofunda-se e Exige Medidas Estruturais Urgentes, Defende Economista Moçambicano

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Questões-Chave

  • Moçambique enfrenta uma crise cambial marcada por escassez de divisas, desvalorização do metical e fuga de capitais;
  • Diagnóstico aponta causas estruturais: dependência de importações, fragilidade das exportações e evasão cambial;
  • Economista propõe medidas de curto, médio e longo prazo para restaurar confiança e reequilibrar o sistema externo.

A crise cambial que afecta Moçambique exige respostas estruturais e imediatas, alerta o economista Edilson Munguambe. Em artigo recente, defende a adopção de um pacote coerente de reformas económicas para estabilizar o metical, restaurar a confiança dos mercados e colocar o país numa trajectória sustentável de geração de divisas e crescimento produtivo.

Moçambique atravessa uma das mais graves crises cambiais das últimas décadas. A escassez de divisas estrangeiras, aliada à desvalorização contínua do metical e ao aumento das transacções em moedas estrangeiras no mercado informal, tem fragilizado ainda mais o ambiente macroeconómico. Entre os factores críticos, destacam-se a fuga de capitais no período pós-eleitoral — revelada pelo Governador do Banco de Moçambique —, o fraco desempenho exportador e o endividamento externo excessivo.

O economista Edilson Munguambe aponta que a raiz do problema está na dependência estrutural de importações, na pouca diversificação da pauta exportadora e na ausência de políticas consistentes de repatriamento de receitas cambiais. Em 2024, as importações representaram mais de 73% do PIB, enquanto o sector exportador permaneceu dominado por produtos primários com baixo valor agregado.

A pressão sobre as reservas cambiais intensifica-se com a fuga ilícita de divisas, a dolarização informal e a falta de um sistema digital integrado de monitoria cambial, dificultando a actuação do Banco Central na defesa da moeda nacional.

Propostas de Regularização Cambial

O documento apresentado propõe uma abordagem tripartida — com medidas a curto, médio e longo prazo — que inclui intervenções de emergência, incentivos à produção nacional e reformas institucionais. Entre as medidas imediatas destacam-se:

  • Flexibilização do regime cambial e redução do spread entre câmbio oficial e paralelo;
  • Revisão das prioridades de alocação de divisas para sectores produtivos;
  • Publicação semanal da disponibilidade de divisas por sector;
  • Diálogo institucional com o sector privado e redução temporária das reservas obrigatórias.

No médio prazo, defende-se uma reorientação da política industrial e fiscal, com foco na diversificação das exportações, substituição competitiva de importações e criação de um banco de desenvolvimento. Também se propõe o uso estratégico de contratos de pré-pagamento com grandes exportadores para mobilizar receitas cambiais em moeda forte.

Já no horizonte de longo prazo, o autor sublinha a necessidade de reformas estruturais profundas, incluindo:

  • Alargamento da base fiscal e sustentabilidade orçamental;
  • Alinhamento entre educação técnica e os sectores produtivos prioritários;
  • Reformulação das Zonas Económicas Especiais (ZEEs);
  • Consolidação de acordos comerciais regionais e bilaterais.

Lições de Países Africanos

O artigo cita boas práticas de países africanos que reformaram os seus sistemas cambiais com sucesso. A Etiópia, por exemplo, eliminou o mercado negro de divisas com apoio do FMI. A Zâmbia avançou com reformas fiscais e cambiais coordenadas, enquanto o Ruanda apostou na vinculação de incentivos ao desempenho exportador como estratégia de diversificação económica.

A actual crise cambial, argumenta Munguambe, é o sintoma de um modelo económico frágil, dependente de importações e de receitas externas voláteis. A superação desta crise requer muito mais do que medidas técnicas ou administrativas: exige reformas estruturais, liderança política e vontade de transformar o sector produtivo como base para uma economia mais resiliente e soberana.

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