Exportações Como Pilar Estruturante Da Transformação Económica: Entre Potencial Estrutural E Bloqueios Sistémicos

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Convidado do “Tema de Fundo” da última edição do Semanário Económico, Miguel Joia Santos, CEO da ExportaMoz, analisa os constrangimentos estruturais que travam as exportações e os caminhos para transformar potencial em competitividade efectiva.

Questões-Chave:
  • Moçambique tem condições naturais e económicas para ser uma potência exportadora regional, mas enfrenta falhas estruturais na organização produtiva;
  • O principal estrangulamento das exportações está na cadeia interna — aquisição, logística e estrutura do mercado — e não na colocação externa;
  • Perdas pós-colheita e informalidade representam uma destruição significativa de valor económico e rendimento;
  • O acesso limitado a mercados e informação comercial continua a travar o potencial exportador;
  • O modelo de financiamento não está alinhado com o perfil real do exportador moçambicano;
  • A informalidade nas fronteiras compromete a entrada de divisas e agrava o défice externo;
  • A profissionalização do exportador e a organização das cadeias de valor são determinantes para a transformação estrutural;
  • O surgimento de uma estratégia nacional de exportações pode representar um ponto de inflexão positivo.

Tema De Fundo Coloca Exportações No Centro Do Debate Económico

As exportações voltaram ao centro do debate económico nacional na mais recente edição do “Tema de Fundo” do Semanário Económico, que contou com a participação de Miguel Joia Santos, CEO da ExportaMoz. A conversa estruturou-se em torno de uma questão central: porque razão um país com reconhecido potencial exportador continua a apresentar um desempenho aquém das suas capacidades?

A resposta, segundo o convidado, exige uma mudança de paradigma na leitura do problema.

“O Problema Não É O Potencial, É A Conversão”

Miguel Joia Santos é peremptório ao afastar a ideia de que Moçambique enfrenta limitações estruturais ao nível da produção. Pelo contrário, defende que o país dispõe de condições naturais e económicas que lhe permitiriam afirmar-se como uma potência exportadora regional.

Miguel Joia Santos, CEO da ExportaMoz

“O problema de Moçambique não é falta de potencial, mas sim a incapacidade de o transformar em exportações reais”, afirmou, numa das ideias centrais da entrevista.

Esta leitura desloca o foco do debate para o funcionamento interno da economia, evidenciando uma falha sistémica na forma como o potencial produtivo é organizado e canalizado para os mercados.

Uma Economia Que Produz, Mas Não Escala

Ao longo da entrevista, o CEO da ExportaMoz sublinhou que a economia moçambicana apresenta uma desconexão estrutural entre produção e exportação. O país produz, mas não consegue transformar essa produção em fluxos consistentes de exportação.

Esta realidade está associada à fragmentação dos produtores, à ausência de mecanismos de agregação e à falta de padronização. Sem escala e consistência, os produtos nacionais enfrentam dificuldades em cumprir os requisitos dos mercados internacionais.

O resultado é uma economia que permanece num nível de baixa intensidade exportadora, apesar do seu potencial.

Estrangulamento Está Na Cadeia Interna, Não Nos Mercados Externos

Um dos pontos mais relevantes da análise reside na identificação do verdadeiro locus do problema. Para Miguel Joia Santos, os constrangimentos não estão na colocação dos produtos no exterior, mas na preparação interna para exportar.

A aquisição, a logística, o armazenamento e a organização dos mercados internos constituem os principais estrangulamentos. Sem uma cadeia interna funcional, o processo de exportação torna-se ineficiente e pouco competitivo.

Custos Logísticos E Ineficiências Penalizam Competitividade

A dimensão logística emerge como um dos factores mais críticos. Custos elevados, limitações infra-estruturais e ausência de sistemas integrados aumentam significativamente os custos de transacção.

Este contexto reduz a competitividade dos produtos moçambicanos e limita a capacidade de inserção nos mercados internacionais, especialmente em sectores onde as margens são reduzidas e a concorrência é elevada.

Perdas Pós-Colheita E Informalidade Destróem Valor Económico

Outro aspecto destacado foi a destruição de valor ao longo da cadeia produtiva, particularmente no sector agrícola. As perdas pós-colheita continuam elevadas, reflectindo a ausência de sistemas adequados de armazenamento e escoamento.

Paralelamente, a informalidade nas cadeias comerciais e nas fronteiras compromete a captação de divisas e fragiliza a balança de pagamentos.

Este duplo fenómeno — perdas físicas e fuga ao sistema formal — reduz o impacto económico das exportações e limita os ganhos para o país.

Financiamento Não Acompanha O Perfil Do Exportador

Miguel Joia Santos chamou ainda a atenção para o desalinhamento entre o sistema financeiro e a realidade do sector exportador. O modelo dominante continua orientado para operações de maior escala, excluindo uma grande parte dos potenciais exportadores.

Sem acesso a financiamento adequado, os produtores e empresas nacionais não conseguem investir em qualidade, certificação e expansão produtiva, comprometendo a sua capacidade de competir.

Mercados Existem, Mas Falta Construir As Pontes

Apesar das limitações, o problema não reside na ausência de mercados. A procura existe, mas os produtos nacionais não chegam aos canais adequados por falta de ligação comercial estruturada.

A ausência de inteligência de mercado, plataformas de intermediação e redes comerciais organizadas impede a materialização de oportunidades concretas de exportação.

Cadeias De Valor E Profissionalização Como Caminho Inevitável

A entrevista aponta para uma agenda clara de transformação: organizar cadeias de valor, profissionalizar os agentes económicos e estruturar o ecossistema exportador.

A capacitação, a formalização e a padronização surgem como condições essenciais para permitir que os produtores nacionais evoluam de uma lógica de subsistência para uma lógica de mercado.

Entre Sinais Positivos E O Desafio Da Execução

O CEO da ExportaMoz reconhece sinais positivos, nomeadamente o surgimento de uma estratégia nacional de exportações e um maior alinhamento institucional.

No entanto, sublinha que o sucesso dependerá da execução efectiva dessas políticas, com foco na resolução dos constrangimentos estruturais identificados.

A participação de Miguel Joia Santos no “Tema de Fundo” do Semanário Económico reforça a ideia de que o desafio das exportações em Moçambique não é de potencial, mas de organização. Num contexto em que o país procura diversificar a sua economia e fortalecer a geração de divisas, a capacidade de transformar produção em exportações reais será determinante para definir o ritmo e a qualidade do seu desenvolvimento económico nos próximos anos.

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