
Letshego Ambiciona 500 Mil Clientes Até 2031, Com Lucros a Recuarem 12,8% No Primeiro Semestre
- Banco de origem tswana, com activos de 18,9 mil milhões de meticais e crédito próximo de 14 mil milhões, prepara uma expansão comercial apoiada na digitalização. A instituição procura aumentar a sua presença num sistema bancário concentrado em três grandes operadores, onde historicamente detém uma quota de crédito superior ao seu peso nos activos e depósitos.
- Banco Letshego estabelece a meta de ultrapassar 500 mil clientes em cinco anos, partindo de uma base de 108.994 registados em Junho de 2026;
- Activos cresceram 9%, para 18,9 mil milhões de meticais, enquanto o lucro líquido recuou 12,8%, para 727,8 milhões, no primeiro semestre de 2026;
- Instituição detinha, em 2024, quotas de mercado de 4,69% no crédito, 1,65% nos activos e 0,39% nos depósitos, reflectindo um posicionamento especializado em financiamento;
- Sistema bancário moçambicano permanece concentrado no BCI, Millennium bim e Standard Bank, responsáveis por 58,09% dos activos e 62,18% dos depósitos no final de 2025;
- Controlado em 99,74% pelo Letshego Africa Holdings, do Botsuana, o banco aposta na transformação digital, diversificação dos serviços e expansão da rede de distribuição.
O Banco Letshego anunciou a intenção de ultrapassar 500 mil clientes nos próximos cinco anos, numa estratégia de crescimento que combina a expansão da presença comercial, a transformação digital e o alargamento da oferta de serviços financeiros a famílias, empreendedores e pequenas e médias empresas (PMEs).
A meta foi apresentada pelo presidente do Conselho de Administração da instituição, David Seie, durante a inauguração de um novo balcão na cidade da Matola, província de Maputo, na quinta-feira, 15 de Outubro.
A ambição surge num momento de crescimento dos activos, crédito e depósitos do banco, embora acompanhado de uma redução da rentabilidade no primeiro semestre de 2026.
As demonstrações financeiras intercalares indicam que o Letshego encerrou Junho com activos de 18,9 mil milhões de meticais, mais 9% relativamente ao período homólogo, enquanto a carteira de crédito líquido atingiu 13,88 mil milhões de meticais, um crescimento de 2,1%.
Os depósitos de clientes registaram uma expansão mais expressiva, de 52,2%, alcançando 5,17 mil milhões de meticais. Em contrapartida, o lucro líquido diminuiu 12,8%, para 727,8 milhões de meticais, face aos 834,3 milhões registados no primeiro semestre de 2025.
A trajectória coloca em evidência duas dimensões da estratégia da instituição: ampliar a escala comercial num mercado bancário ainda concentrado e melhorar a capacidade de financiamento da actividade económica, preservando a rentabilidade e a qualidade da carteira de crédito.
Letshego Ocupa Posição Intermédia Num Mercado Bancário Concentrado
O posicionamento do Letshego deve ser analisado no contexto da estrutura do sistema bancário moçambicano, caracterizado pela predominância de três instituições de grande dimensão e por um conjunto de operadores de menor escala, alguns dos quais especializados em segmentos específicos de financiamento.
Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Moçambique, no final de 2025, o Banco Comercial e de Investimentos (BCI), o Millennium bim e o Standard Bank concentravam, conjuntamente, 58,09% dos activos totais, 62,18% dos depósitos e 54,04% do crédito concedido pelo sistema bancário.
Estas três instituições foram novamente classificadas pelo banco central, em Abril de 2026, como bancos domésticos de importância sistémica, enquanto o Absa Bank Moçambique e o Moza Banco permaneceram na categoria de instituições de importância quase sistémica. O Letshego não integra nenhum destes dois grupos.
A posição relativa do Letshego apresenta, contudo, uma particularidade: a sua participação no mercado de crédito é significativamente superior ao seu peso na estrutura global de activos e depósitos.
Segundo o Relatório e Contas de 2024, as quotas de mercado da instituição situavam-se em 4,69% no crédito a clientes, 1,65% nos activos totais e 0,39% nos depósitos.
Quotas de Mercado do Banco Letshego — 2024
Esta configuração reflecte um modelo de negócio historicamente orientado para o financiamento de particulares, sobretudo trabalhadores assalariados, com destaque para funcionários públicos.
A Pesquisa sobre o Sector Bancário 2025, elaborada pela KPMG em parceria com a Associação Moçambicana de Bancos, posicionou o Letshego na 11.ª posição entre as 21 instituições analisadas em termos de activos totais referentes a 2024, com aproximadamente 16,33 mil milhões de meticais.
A mesma análise posicionava o banco no sétimo lugar em rentabilidade média dos capitais próprios, com um indicador de 16,20%.
A dimensão dos activos coloca, assim, o Letshego abaixo dos principais bancos universais do mercado, embora a expressão da sua carteira de crédito revele uma participação relevante no financiamento de segmentos específicos.
Os dados históricos de quotas permitem identificar esta especialização, mas não devem ser interpretados como quotas de mercado de Junho de 2026, para as quais não foi possível confirmar valores equivalentes e directamente comparáveis.
Activos e Depósitos Crescem, Mas Rentabilidade Diminui
A evolução dos indicadores financeiros no primeiro semestre de 2026 revela um banco em crescimento patrimonial, com melhoria da capacidade de captação de depósitos e alguma desaceleração dos resultados.
| Indicadores | Junho 2026 | Variação homóloga |
|---|---|---|
| Activos totais | 18,90 mil M MT | +9,0% |
| Crédito líquido | 13,88 mil M MT | +2,1% |
| Depósitos | 5,17 mil M MT | +52,2% |
| Capital próprio | 7,38 mil M MT | +10,6% |
| Produto bancário | 1,57 mil M MT | −4,4% |
| Lucro líquido | 727,8 M MT | −12,8% |
| Clientes | 108.994 | +7,1% |
O crescimento dos depósitos constitui um dos movimentos mais significativos do período, numa instituição cujo modelo de financiamento esteve historicamente associado a recursos obtidos junto de outros bancos, investidores e entidades relacionadas.
A relação entre o crédito líquido e os depósitos de clientes situava-se em aproximadamente 268% em Junho de 2026, o que significa que a carteira de crédito representava cerca de 2,7 vezes os depósitos captados.
Embora este indicador evidencie uma redução da dependência relativa de fontes alternativas de financiamento, continua a demonstrar a importância da gestão da estrutura de financiamento, da liquidez e dos custos associados à mobilização de recursos.
A redução dos lucros reflectiu, sobretudo, a diminuição do produto bancário e o aumento dos encargos operacionais. Os gastos com pessoal cresceram de 139,9 milhões para 151,4 milhões de meticais, enquanto os gastos gerais administrativos passaram de 229,1 milhões para 284 milhões.
O comportamento destes indicadores sugere a necessidade de conciliar a expansão comercial com ganhos de eficiência operacional, particularmente num contexto de crescente investimento em tecnologia e distribuição digital.
De Origem Botsuanesa, Grupo Controla 99,74% do Capital
O Banco Letshego integra o grupo financeiro pan-africano Letshego Africa Holdings Limited, sediado em Gaborone, no Botsuana, e cotado na bolsa de valores daquele país.
A instituição iniciou a sua actividade em Moçambique em 2011, inicialmente centrada no financiamento a particulares, tendo obtido, em Setembro de 2016, a licença do Banco de Moçambique para operar como banco comercial.
A transformação institucional permitiu ampliar progressivamente a oferta de produtos, passando a incluir serviços de depósitos, poupança, pagamentos e soluções de financiamento.
Em Junho de 2026, o capital social ascendia a 1,7 mil milhões de meticais, sendo 99,74% detidos pela Letshego Africa Holdings. Os restantes 0,26% encontravam-se distribuídos por quatro accionistas minoritários: Timbila Design, Tobias Joaquim Dai, Shawn Bruwer e Joaquim Mataruca.
O grupo encontra-se actualmente num processo de reorganização do seu portefólio africano. Em Abril de 2026, anunciou um acordo para a alienação das operações no Gana, Nigéria, Ruanda, Tanzânia e Uganda ao grupo Axian, numa transacção aprovada pelos accionistas em Junho, mas ainda dependente de autorizações regulatórias.
Moçambique não integra a lista das operações abrangidas pela transacção, permanecendo no conjunto dos mercados mantidos pelo grupo.
A reorganização insere-se numa estratégia de concentração de recursos financeiros e de gestão em operações consideradas capazes de proporcionar maior escala, eficiência e rentabilidade.
Rede Física Reduzida e Canais Digitais Sustentam Capilaridade
A estratégia de distribuição do Letshego distingue-se da dos grandes bancos universais, cuja presença comercial assenta em redes de centenas de agências e em estruturas operacionais de maior dimensão.
Segundo o Relatório e Contas de 2024, a instituição dispunha de 13 balcões bancários, uma rede de agentes comerciais e 171 colaboradores efectivos.
A cobertura comercial abrangia todas as províncias, combinando presença física, agentes de vendas e canais digitais.
A inauguração do novo balcão na Matola representa um movimento de aprofundamento da presença territorial e de proximidade com os clientes. Nesta cidade, onde iniciou operações em Janeiro de 2012, o banco serve actualmente mais de cinco mil clientes e administra uma carteira superior a 650 milhões de meticais.
O crescimento através de canais digitais assume particular relevância num mercado em que a expansão física da banca tradicional tem apresentado um ritmo relativamente moderado.
Os Indicadores de Inclusão Financeira do Banco de Moçambique, referentes ao segundo trimestre de 2026, mostram que o número de agências bancárias diminuiu 0,4%, enquanto os agentes das instituições de moeda electrónica aumentaram 5,8%.
No mesmo período, o número de contas bancárias cresceu 1,3%, contra uma expansão de 4,1% nas contas das instituições de moeda electrónica.
Estes movimentos evidenciam a crescente importância dos canais electrónicos na distribuição de serviços financeiros e na ampliação do acesso da população ao sistema formal.
Para o Letshego, uma rede física relativamente limitada torna a digitalização particularmente importante para alcançar novos clientes sem depender exclusivamente da abertura de agências.
Meta de 500 Mil Clientes Implica Aceleração Expressiva do Crescimento
A distância entre a actual base de clientes e a meta anunciada representa uma das principais dimensões da estratégia comercial do banco.
Em Junho de 2026, o Letshego contava com 108.994 clientes, comparativamente aos 101.741 registados um ano antes, o que corresponde a um crescimento de 7,1%.
Para alcançar 500 mil clientes num horizonte de cinco anos, partindo da base de Junho de 2026, seria necessário adicionar aproximadamente 391 mil clientes, multiplicando por cerca de 4,6 vezes a dimensão actual da carteira.
Em termos de crescimento anual composto, a expansão exigiria uma taxa média próxima de 35,6%, substancialmente superior ao ritmo homólogo observado no primeiro semestre.
A meta representa, consequentemente, uma mudança de escala comercial e operacional.
A expansão deverá envolver a conquista de novos segmentos, melhoria das soluções de pagamentos e poupança, desenvolvimento dos canais digitais e adaptação dos produtos financeiros às necessidades das famílias e pequenas empresas.
David Seie assegurou que a transformação digital será central neste percurso, permitindo disponibilizar serviços mais simples, rápidos e acessíveis.
Diversificação do Crédito Poderá Reduzir Concentração da Carteira
Outro aspecto importante da estratégia do Letshego está relacionado com a composição do seu crédito.
Historicamente, a instituição desenvolveu uma posição significativa no financiamento de trabalhadores assalariados, particularmente funcionários públicos.
O Relatório e Contas de 2024 indicava que os funcionários do Governo de Moçambique representavam aproximadamente 97% da carteira de crédito, evidenciando um elevado grau de concentração neste segmento.
O alargamento da oferta a empreendedores, pequenas empresas e outros segmentos económicos poderá contribuir para diversificar o portefólio, embora envolva exigências adicionais de avaliação do risco e de acompanhamento dos financiamentos.
O financiamento de PMEs apresenta características distintas das operações de crédito ao consumo ou de crédito associado a rendimentos salariais, nomeadamente quanto à volatilidade dos fluxos de caixa, garantias disponíveis e capacidade de reembolso.
A diversificação exige, por isso, modelos adequados de análise de risco, informação financeira dos clientes e produtos ajustados aos respectivos ciclos de actividade.
A crescente concorrência de soluções financeiras digitais e de instituições especializadas em microfinanças constitui igualmente um factor de transformação do mercado, estimulando a procura de novos segmentos e modelos de negócio.
Banco Central Defende Crescimento Responsável e Protecção dos Clientes
Na cerimónia de inauguração do novo balcão, o director da Filial do Banco de Moçambique na Matola, Bento Baloi, destacou a importância do alargamento da rede de instituições financeiras para a expansão do acesso ao sistema bancário.
O responsável advertiu, contudo, que o crescimento dos serviços financeiros deve ser acompanhado de transparência, educação financeira e concessão responsável de crédito.
“A inclusão financeira não se resume apenas à abertura de balcões ou à disponibilização de produtos financeiros. Pressupõe, igualmente, que os serviços sejam acessíveis, adequados às necessidades dos cidadãos, transparentes, seguros e utilizados de forma responsável”, afirmou.
A questão assume relevância num mercado em que o custo do financiamento permanece elevado para numerosos segmentos empresariais e familiares.
Segundo as demonstrações intercalares do Letshego, a taxa média anual de juros dos créditos a clientes situava-se em 31,4% em Junho de 2026, contra 32% um ano antes.
A extensão do crédito a novos segmentos deverá, assim, ser acompanhada por mecanismos que assegurem a compreensão das obrigações contratuais, a avaliação adequada da capacidade de pagamento e a prevenção do sobreendividamento.
Expansão do Letshego Pode Intensificar Concorrência Em Segmentos Específicos
A estratégia anunciada pelo Letshego enquadra-se num processo de transformação do mercado financeiro moçambicano, no qual a concentração dos principais indicadores bancários convive com o crescimento de instituições especializadas e de soluções digitais.
A predominância dos três maiores bancos continua a definir a estrutura global do sector. Contudo, a evolução das respectivas quotas de mercado mostra que outros operadores têm vindo a conquistar espaço em determinados segmentos de actividade.
O Letshego apresenta características particulares neste contexto: uma instituição com activos relativamente modestos face aos bancos de maior dimensão, mas com uma participação historicamente mais expressiva no mercado de crédito, uma rede física limitada e um modelo comercial assente em segmentos específicos de clientes.
A expansão da captação de depósitos, a digitalização e a diversificação do financiamento poderão alterar gradualmente este posicionamento, aproximando a instituição de um modelo de banca comercial com uma base de clientes mais ampla.
A concretização da meta de 500 mil clientes permitirá avaliar a capacidade do banco de transformar o crescimento comercial em maior escala financeira, diversificação da carteira e rentabilidade sustentável.
Num sistema bancário ainda marcado pela concentração de mercado e pelas dificuldades de financiamento de famílias e empresas, o desempenho das instituições de menor dimensão assume relevância para a evolução da concorrência e para o aprofundamento da inclusão financeira.
O Letshego entra nesta nova fase com crescimento dos activos, melhoria da captação de depósitos e uma ambição comercial expressiva. Os resultados dos próximos exercícios permitirão determinar em que medida essa expansão se traduzirá numa presença mais significativa na estrutura do mercado bancário moçambicano.
Mais notícias
-
Dezasseis centros de saúde destruídos durante protestos no Norte de Moçambique
10 de Janeiro, 2025
Conecte-se a Nós
Economia Global
Mais Vistos
Sobre Nós
O Económico assegura a sua eficácia mediante a consolidação de uma marca única e distinta, cujo valor é a sua capacidade de gerar e disseminar conteúdos informativos e formativos de especialidade económica em termos tais que estes se traduzem em mais-valias para quem recebe, acompanha e absorve as informações veiculadas nos diferentes meios do projecto. Portanto, o Económico apresenta valências importantes para os objectivos institucionais e de negócios das empresas.
últimas notícias
Mais Acessados
-
Governo admite nova operadora para a Mozal após suspensão das operações
14 de Março, 2026
















