Mercado Automóvel Ainda Não Recuperou Níveis Pré-Covid e Importações Recuaram 11,5% Para US$ 655 Milhões

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  • A entrada da Peugeot e da Citroën na carteira de representação da Motorcare amplia a concorrência num mercado ainda condicionado pela reduzida procura, dificuldades de acesso a divisas e custos de financiamento. Apesar dos sinais de recuperação das vendas, o sector enfrenta limitações estruturais que condicionam novos investimentos e a modernização da mobilidade.

Questões-Chave:

  • Recuperação do Mercado: Sector automóvel regista sinais de crescimento, mas a actividade permanece abaixo dos níveis anteriores à pandemia da Covid-19;
  • Comércio Externo: Importações de veículos, peças e acessórios diminuíram de US$ 740 milhões em 2023 para US$ 655,2 milhões em 2024, uma contracção de 11,5%;
  • Restrições Cambiais: Dificuldades de acesso à moeda estrangeira continuam a afectar as operações de importação e a disponibilidade de viaturas e componentes;
  • Concorrência Empresarial: Motorcare assume a representação oficial da Peugeot e da Citroën, integrando duas marcas da Stellantis na sua oferta comercial;
  • Serviços Pós-Venda: Disponibilidade de peças, assistência especializada e manutenção das garantias tornam-se factores importantes de diferenciação;
  • Mobilidade Eléctrica: Elevados custos de aquisição, condições de financiamento e necessidades de infra-estrutura condicionam a adopção de veículos eléctricos.

Recuperação do Mercado Automóvel Continua Limitada

O mercado automóvel moçambicano continua a enfrentar dificuldades para recuperar os níveis de actividade registados antes da pandemia da Covid-19, apesar dos sinais de melhoria da procura e da diversificação da oferta comercial. As restrições no acesso à moeda estrangeira, os custos de financiamento e a dimensão relativamente reduzida do mercado permanecem entre os principais factores que condicionam a expansão das vendas e a realização de novos investimentos.

A situação foi reconhecida pelo Director-Geral da Motorcare Moçambique, Ivan Buzi, durante a apresentação oficial das marcas Peugeot e Citroën, realizada a 13 de Outubro, em Maputo, no âmbito de uma parceria com o grupo automóvel internacional Stellantis.

Segundo o responsável, o sector apresenta alguma recuperação relativamente ao ano anterior, mas continua distante dos níveis de actividade anteriores à crise sanitária.

“Neste momento, nós estamos a tentar chegar aos níveis pré-Covid. Então, o mercado está a crescer, comparado com o ano passado, mas nós ainda não chegámos ao nível pré-Covid”, afirmou Ivan Buzi.

A evolução do sector reflecte as dificuldades de uma economia fortemente dependente das importações para assegurar o abastecimento de viaturas, peças e componentes, num contexto em que a capacidade de compra das famílias, o investimento empresarial e o acesso ao crédito influenciam directamente a procura.

A entrada das duas marcas na carteira comercial da Motorcare demonstra a continuidade do interesse dos operadores internacionais no potencial de médio e longo prazo do mercado moçambicano, embora a recuperação sustentada das vendas continue associada à melhoria das condições macroeconómicas e financeiras.

Importações Recuaram US$ 84,8 Milhões em 2024

Os dados do comércio internacional permitem avaliar a dimensão financeira do mercado e a sua exposição às condições de abastecimento externo.

Segundo a base de dados World Integrated Trade Solution (WITS), do Banco Mundial, com informação proveniente do comércio internacional, Moçambique importou aproximadamente US$ 655,2 milhões em veículos, peças e acessórios em 2024, contra US$ 740 milhões no ano anterior.

A redução corresponde a cerca de US$ 84,8 milhões, equivalente a uma contracção de 11,5% no valor das importações.

Importações Moçambicanas de Veículos, Peças e Acessórios

Valores de importações da categoria pautal HS 87, em milhões de dólares americanos.

Variação anual

−11,5%

Redução absoluta

US$ 84,8 M

Fonte: Banco Mundial/WITS, categoria pautal HS 87. Os valores abrangem veículos rodoviários de diferentes categorias, peças e acessórios, não correspondendo exclusivamente às vendas de automóveis novos.

A África do Sul manteve-se como principal mercado de origem destas importações em 2024, com aproximadamente US$ 201,3 milhões, seguida da China, com US$ 182,9 milhões, e do Japão, com US$ 134,8 milhões.

Em conjunto, estes três mercados representaram aproximadamente 79% do valor importado nesta categoria, evidenciando uma concentração significativa das relações comerciais do sector.

A redução das importações em valor não permite, isoladamente, concluir que o número de veículos comercializados tenha diminuído na mesma proporção. O indicador reflecte igualmente variações na composição dos produtos importados, nos respectivos preços e no peso das diferentes categorias de veículos e componentes.

Ainda assim, os números demonstram a exposição do sector às condições de financiamento externo e à disponibilidade de divisas necessárias para liquidar as transacções internacionais.

Falta de Divisas Condiciona Abastecimento e Planeamento Comercial

O acesso à moeda estrangeira permanece entre os principais constrangimentos identificados pelos operadores do mercado automóvel.

A importação de viaturas, componentes mecânicos, equipamentos electrónicos e peças sobressalentes exige pagamentos a fornecedores internacionais, normalmente realizados em moedas convertíveis.

Quando existem dificuldades na obtenção de divisas, os importadores podem enfrentar atrasos nos pagamentos, maiores períodos de reposição de existências e limitações na capacidade de planear novas encomendas.

Ivan Buzi reconheceu que estas dificuldades abrangem diferentes actividades económicas.

“A falta de moeda não é só do mercado automóvel ou do sector automóvel; é de vários outros sectores”, afirmou.

O impacto comercial destas restrições pode manifestar-se na disponibilidade de determinados modelos, no tempo de entrega das viaturas e na capacidade dos distribuidores para manter inventários adequados.

A dificuldade de acesso ao financiamento acrescenta outra limitação, particularmente num mercado em que a aquisição de automóveis representa um investimento significativo para famílias e empresas.

Taxas de financiamento elevadas, exigências de garantias e prazos de amortização podem restringir a procura, mesmo quando existe interesse em renovar viaturas particulares ou frotas empresariais.

A combinação destes factores influencia a escala do mercado e reduz os incentivos económicos à instalação de unidades de montagem ou produção, cuja viabilidade depende de volumes de vendas capazes de compensar os custos fixos de investimento.

Peugeot e Citroën Passam a Integrar Carteira da Motorcare

Foi neste contexto de recuperação gradual que a Motorcare assumiu a representação oficial da Peugeot e da Citroën em Moçambique, reforçando a sua oferta comercial e a presença de marcas internacionais no mercado nacional.

A empresa, que assinala 30 anos de actividade no país, passa a assegurar a distribuição das duas marcas pertencentes ao grupo Stellantis, bem como os respectivos serviços de assistência e manutenção.

A apresentação incluiu modelos como o Citroën C3, Citroën C5 Aircross, Peugeot Landtrek, Peugeot 2008 e Peugeot 3008, abrangendo diferentes segmentos de utilização, desde a mobilidade urbana e familiar até aplicações comerciais.

Peugeot Landtrek

Segmento de viaturas comerciais e pick-ups.

Citroën

Oferta orientada para mobilidade urbana e familiar.

A representação oficial insere-se na estratégia da Stellantis de reorganização e desenvolvimento da sua rede comercial na África Subsaariana, privilegiando parceiros locais com capacidade de distribuição e assistência técnica.

Segundo Ash Ramraj, representante do grupo, o crescimento sustentável nos diferentes mercados africanos exige parceiros que compreendam as características da procura e assegurem relações comerciais duradouras.

A escolha da Motorcare está associada à experiência acumulada pela empresa e à sua estrutura de prestação de serviços no mercado moçambicano.

Do ponto de vista empresarial, a integração de novas marcas permite diversificar o portefólio comercial, alcançar diferentes segmentos de consumidores e distribuir os custos operacionais por uma carteira mais ampla de produtos e serviços.

Contudo, a expansão da oferta não elimina as dificuldades que condicionam o poder de compra e a dimensão efectiva da procura.

Assistência Pós-Venda Torna-se Factor de Competitividade

Num mercado fortemente dependente de viaturas importadas, a disponibilidade de peças e a qualidade dos serviços pós-venda assumem particular importância nas decisões de compra.

A escolha de uma marca automóvel envolve custos que se prolongam durante vários anos, incluindo manutenção, substituição de componentes, consumo de combustível, seguros e eventual revenda.

O custo total de propriedade, conhecido internacionalmente por Total Cost of Ownership, constitui, por isso, um elemento importante na avaliação económica de uma viatura.

A Motorcare anunciou que os veículos Peugeot e Citroën ainda abrangidos pelas garantias das respectivas marcas terão continuidade de assistência no âmbito da nova representação.

O processo prevê igualmente a transferência do suporte e das existências de peças anteriormente assegurados pelo circuito de representação precedente.

A capacidade de garantir assistência técnica especializada e fornecimento regular de componentes poderá influenciar a confiança dos consumidores e o posicionamento competitivo das duas marcas.

Num ambiente em que atrasos na importação de peças podem aumentar o período de imobilização dos veículos, a qualidade do serviço pós-venda também tem implicações económicas para as empresas que dependem de frotas operacionais.

O reforço destes serviços poderá beneficiar actividades complementares, incluindo manutenção, reparação, distribuição de peças, formação técnica e gestão de frotas.

Mobilidade Eléctrica Enfrenta Barreiras Económicas e Operacionais

A transformação tecnológica da indústria automóvel internacional introduz uma nova dimensão no debate sobre o futuro do sector em Moçambique.

A crescente disponibilização de viaturas híbridas e eléctricas amplia as alternativas de mobilidade, mas a adopção destas tecnologias permanece condicionada por factores económicos e operacionais.

O investimento inicial necessário para adquirir um veículo eléctrico continua a constituir uma barreira para muitos consumidores, particularmente em mercados onde o acesso ao crédito é limitado.

A análise económica exige igualmente considerar os custos de utilização durante toda a vida útil, incluindo energia, manutenção, durabilidade das baterias e disponibilidade de assistência especializada.

A expansão destas tecnologias pressupõe ainda infra-estruturas de carregamento adequadas, fornecimento fiável de electricidade e capacidade técnica para realizar operações de manutenção.

Moçambique possui recursos energéticos que poderão favorecer, no longo prazo, o desenvolvimento da mobilidade eléctrica, mas a passagem de uma oferta comercial limitada para uma utilização mais ampla exigirá investimentos e condições de mercado apropriadas.

As decisões dos consumidores serão influenciadas pelo equilíbrio entre o preço de aquisição e as eventuais poupanças associadas aos menores custos de utilização.

Dimensão do Mercado Limita Perspectivas de Industrialização

A recuperação do mercado automóvel levanta igualmente questões sobre a possibilidade de desenvolvimento de actividades industriais associadas ao sector.

A localização de unidades de montagem ou produção depende, em grande medida, da existência de procura suficiente, disponibilidade de fornecedores, infra-estruturas adequadas e condições competitivas de investimento.

A dimensão relativamente limitada do mercado moçambicano constitui uma dificuldade para projectos industriais que necessitam de elevados volumes de produção para atingir economias de escala.

A integração regional poderá, teoricamente, ampliar as oportunidades de investimento, permitindo que instalações produtivas estabelecidas em Moçambique abasteçam outros mercados da África Austral.

Contudo, esta possibilidade exige avaliar a concorrência de centros industriais já estabelecidos, particularmente na África do Sul, que dispõe de uma cadeia de produção automóvel mais desenvolvida.

No curto e médio prazo, as oportunidades mais imediatas encontram-se na distribuição, assistência técnica, comercialização de componentes, serviços de manutenção e gestão de frotas.

O desenvolvimento destas actividades poderá contribuir para a criação de emprego especializado e para a formação de competências técnicas relacionadas com a modernização do sector.

Recuperação Sustentada Exige Maior Dinamismo da Economia

A entrada da Peugeot e da Citroën na carteira da Motorcare representa um movimento de expansão comercial num mercado que continua a evidenciar potencial de crescimento, apesar das limitações financeiras e estruturais.

A redução de 11,5% no valor das importações de veículos, peças e acessórios entre 2023 e 2024 demonstra a sensibilidade do abastecimento automóvel às condições económicas, embora os dados comerciais, por si só, não permitam medir a evolução integral das vendas internas.

A recuperação sustentada da procura estará associada à evolução do rendimento das famílias, à capacidade de investimento das empresas e à disponibilidade de financiamento para aquisição de viaturas.

A melhoria do acesso à moeda estrangeira também será relevante para assegurar maior previsibilidade nas importações e reduzir constrangimentos na reposição de peças e componentes.

A concorrência entre distribuidores poderá estimular melhorias na oferta comercial, nos serviços pós-venda e nas condições de atendimento, beneficiando consumidores particulares e operadores empresariais.

A experiência da Motorcare e o investimento comercial da Stellantis demonstram que o mercado nacional mantém interesse para grupos internacionais, mesmo numa conjuntura de recuperação moderada.

O comportamento das vendas, a evolução dos custos de aquisição e a capacidade dos operadores para garantir serviços de qualidade constituirão indicadores importantes para acompanhar a recuperação do sector nos próximos anos.

Fontes: Banco Mundial/WITS, estatísticas do comércio internacional de 2023 e 2024; Stellantis; Motorcare Moçambique; declarações de Ivan Buzi e Ash Ramraj, Outubro de 2026.