Minerais Críticos Podem Redefinir Lugar De Moçambique Na Nova Economia Verde Global – Salim Valá

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  • Governo defende que o país deve deixar de ser apenas exportador de matérias-primas e posicionar-se nas cadeias globais de valor associadas às baterias, mobilidade eléctrica, semicondutores e tecnologias limpas. A aposta passa por transformar a riqueza mineral em industrialização, emprego qualificado e transferência de tecnologia.
Questões-Chave:
  • Moçambique detém 9 dos 12 minerais críticos considerados essenciais para a transição energética global;
  • Grafite, lítio, terras raras, tântalo, nióbio e titânio colocam o país numa posição estratégica nas cadeias globais da economia verde;
  • Governo defende a passagem da simples extracção para o processamento local e a industrialização;
  • Cooperação com a Coreia poderá impulsionar tecnologia, inovação e desenvolvimento de cadeias de valor;
  • Criação de emprego qualificado e desenvolvimento de competências nacionais surgem entre as prioridades da estratégia governamental.

Num momento em que a corrida global pela transição energética está a redefinir prioridades geoeconómicas, Moçambique procura posicionar-se não apenas como fornecedor de matérias-primas, mas como um actor relevante nas cadeias globais de valor que irão sustentar a economia verde das próximas décadas.

A visão foi apresentada pelo Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Cripton Valá, durante o Fórum de Negócios Coreia–África 2026, realizado em Seul, onde destacou o potencial dos minerais críticos moçambicanos como um dos principais activos estratégicos do país para o novo ciclo industrial mundial.

Segundo o governante, Moçambique possui uma combinação rara de recursos minerais que o coloca numa posição privilegiada para responder à crescente procura internacional por matérias-primas essenciais para tecnologias de baixo carbono, produção de baterias, veículos eléctricos, energias renováveis, semicondutores e aplicações industriais avançadas.

Nove Minerais Críticos Colocam País No Radar Global

A relevância estratégica de Moçambique resulta do facto de o país albergar nove dos doze minerais actualmente classificados como críticos para a transição energética global. Entre estes destacam-se a grafite, o lítio, as terras raras, o tântalo, o nióbio e o titânio, recursos que se encontram no centro da transformação tecnológica em curso nas principais economias do mundo.

A procura por estes minerais tem vindo a crescer de forma acelerada devido à expansão da mobilidade eléctrica, ao desenvolvimento de sistemas de armazenamento de energia, à produção de equipamentos para energias renováveis e à crescente digitalização da economia.

O caso da grafite é particularmente relevante. Moçambique já figura entre os principais produtores mundiais deste mineral, considerado um componente essencial das baterias de iões de lítio utilizadas em veículos eléctricos e sistemas de armazenamento energético. Paralelamente, o país possui reservas significativas de tântalo, terras raras e outros minerais cuja importância estratégica tende a aumentar à medida que a transição energética ganha escala.

Num contexto de crescente preocupação internacional com a segurança das cadeias de abastecimento, a disponibilidade destes recursos confere a Moçambique uma vantagem competitiva que poucos países africanos possuem.

Exportar Minério Já Não É Suficiente

Apesar do potencial existente, o Governo considera que a simples exportação de matérias-primas não permitirá capturar plenamente os benefícios económicos associados à procura global por minerais críticos.

A estratégia apresentada em Seul assenta na transformação gradual do sector extractivo num motor de industrialização e desenvolvimento produtivo. O objectivo passa por promover o processamento local dos recursos, criar capacidade industrial, estimular a transferência de tecnologia e desenvolver competências técnicas nacionais.

Na visão das autoridades, o verdadeiro valor económico dos minerais críticos não reside apenas na sua extracção, mas na capacidade de os integrar em cadeias produtivas mais sofisticadas, capazes de gerar empregos qualificados, inovação e maior retenção de riqueza dentro do país.

Esta abordagem procura responder a um desafio histórico enfrentado por muitas economias ricas em recursos naturais: a exportação de produtos em estado bruto, com reduzido impacto na transformação estrutural da economia.

Da Extracção À Criação De Cadeias De Valor

O Governo pretende que a próxima fase de desenvolvimento do sector mineiro esteja associada à criação de cadeias de valor ligadas à manufactura, à produção de componentes industriais e ao fornecimento de insumos para sectores emergentes da economia verde.

Segundo as linhas estratégicas apresentadas no Fórum Coreia–África, a prioridade consiste em transformar os recursos minerais em plataformas de desenvolvimento industrial, promovendo simultaneamente a capacitação da mão-de-obra nacional e o fortalecimento do sector privado local.

Esta visão está alinhada com uma tendência observada em vários países produtores de minerais críticos, que procuram capturar uma parcela maior do valor gerado pelas cadeias globais de fornecimento associadas às tecnologias verdes.

Para Moçambique, o desafio passa por criar as condições necessárias para atrair investimentos que ultrapassem a fase extractiva e avancem para actividades de processamento, refinação e transformação industrial.

Coreia Surge Como Parceiro Natural

Neste processo, a Coreia do Sul é vista como um parceiro particularmente relevante.

O país asiático possui competências reconhecidas internacionalmente nas áreas das baterias, mobilidade eléctrica, electrónica avançada, engenharia industrial e inovação tecnológica. As autoridades moçambicanas consideram que a combinação entre os recursos minerais de Moçambique e a capacidade tecnológica coreana poderá criar oportunidades de cooperação mutuamente vantajosas.

A aposta passa pelo desenvolvimento de projectos que integrem investimento produtivo, transferência de conhecimento, formação técnico-profissional e criação de capacidades industriais locais.

Segundo a visão apresentada pelo Ministro Salim Valá, o futuro da cooperação económica entre África e Coreia deverá assentar numa lógica de co-criação de valor, superando o modelo tradicional baseado apenas na compra de matérias-primas e venda de tecnologia.

Oportunidade Histórica Para Reposicionar A Economia

A crescente procura mundial por minerais críticos está a criar uma janela de oportunidade rara para países dotados destes recursos.

No caso de Moçambique, o desafio será transformar essa vantagem geológica numa vantagem económica sustentável, capaz de impulsionar a industrialização, diversificar a economia e criar empregos de maior qualidade.

A mensagem transmitida em Seul é clara: o país pretende participar activamente na economia da transição energética, não apenas como fornecedor de recursos naturais, mas como um parceiro industrial capaz de integrar cadeias globais de valor e gerar benefícios económicos mais amplos para a sua população.