
Rali do ouro devolve protagonismo às acções mineiras após meses de resgates
A valorização histórica do ouro está a reverter o desinteresse prolongado dos investidores por fundos ligados à mineração, que registam em Março as maiores entradas líquidas mensais em mais de um ano, após um período marcado por saídas significativas.
A escalada do preço do ouro — que já acumula uma valorização superior a 15% em 2025, ultrapassando a fasquia dos 3.000 dólares norte-americanos por onça — está a reacender o interesse dos investidores por fundos especializados em acções de empresas mineiras. Dados recentes da LSEG Lipper apontam para entradas líquidas de 555,3 milhões de dólares nestes fundos em Março, o valor mais elevado desde Novembro de 2023, interrompendo um ciclo de seis meses consecutivos de saídas.
Este movimento de retorno ocorre após um ano difícil para o sector. Em 2024, enquanto os fundos de ouro físico e derivados atraíram 17,8 mil milhões de dólares — o maior montante em cinco anos — os fundos focados em acções de mineiras registaram saídas líquidas de 4,6 mil milhões de dólares, o maior decréscimo da última década.
Os analistas destacam que, apesar da subida do ouro em 2024, as empresas mineiras enfrentaram sérias dificuldades operacionais, como o aumento dos custos de mão-de-obra e combustíveis, e barreiras regulatórias em mercados como o Mali e o Canadá. Porém, com a actual valorização do ouro, cresce a confiança de que estas companhias possam agora absorver os custos, expandir margens e melhorar os fluxos de caixa.
Empresas líderes como a Newmont e a Barrick Gold estão a recuperar fortemente. As acções da Newmont valorizaram cerca de 27% no acumulado do ano, enquanto a Barrick anunciou uma recompra de acções no valor de mil milhões de dólares, após duplicar o fluxo de caixa livre no quarto trimestre de 2024. Por sua vez, a AngloGold Ashanti declarou um dividendo final de 91 cêntimos por acção — quase cinco vezes superior ao do ano anterior — e afirmou ter a sua posição financeira mais sólida dos últimos dez anos.
Outras companhias, como a Gold Fields e a Harmony Gold, também mostram sinais de fortalecimento. A primeira admite lançar um programa de recompra de acções em 2025, enquanto a segunda pretende financiar com recursos próprios a construção de uma nova mina de cobre na Austrália.
“Com os actuais preços do ouro, o sector volta a apresentar rentabilidade”, afirmou Shaniel Ramjee, co-responsável de multi-activos da Pictet Asset Management, em Londres. A gestora VanEck reforça essa leitura: “Temos uma perspectiva positiva para o preço do ouro e, considerando as baixas valorizações actuais das mineiras, estamos ainda mais construtivos em relação às acções”, disse Imaru Casanova, gestora de portefólio para ouro e metais preciosos da firma.
Num contexto de incerteza nos mercados globais e de pressões inflacionistas persistentes, os investidores voltam a olhar para o ouro não apenas como activo refúgio, mas também como porta de entrada para ganhos mais expressivos via acções de empresas do sector mineiro.
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