
África Perde 587 Mil Milhões de Dólares por Ano em Fugas de Capitais: BAD Exorta Reversão Urgente da Tendência
Questões-Chave:
- África perde anualmente cerca de 587 mil milhões de dólares em fluxos financeiros ilícitos, evasão fiscal e corrupção;
- Apenas em 2022, o continente recebeu 190,7 mil milhões de dólares em entradas financeiras, valor muito inferior às perdas registadas;
- Estima-se que 90 mil milhões de dólares se percam anualmente em fluxos ilícitos e 275 mil milhões em manipulação de lucros por multinacionais;
- A corrupção absorve cerca de 148 mil milhões de dólares por ano, afectando directamente os recursos públicos disponíveis para o desenvolvimento;
- O Banco Africano de Desenvolvimento propõe reformas estruturais para conter as perdas e mobilizar capital para a agenda de transformação económica africana.
África perde três vezes mais em fugas de capitais do que aquilo que recebe em fluxos financeiros internacionais. Esta é uma das principais conclusões do relatório African Economic Outlook 2025, publicado pelo Banco Africano de Desenvolvimento, que considera a contenção destas perdas uma prioridade absoluta para o financiamento do desenvolvimento no continente.
Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), os países africanos registam perdas anuais estimadas em 587 mil milhões de dólares devido a fluxos financeiros ilícitos, evasão fiscal por parte de multinacionais e corrupção sistémica. Este valor supera largamente o total combinado de investimento directo estrangeiro, ajuda oficial ao desenvolvimento e remessas recebidas por África em qualquer ano recente.
Em 2022, por exemplo, o continente recebeu cerca de 190,7 mil milhões de dólares em entradas financeiras externas. No mesmo período, apenas os fluxos ilícitos representaram 90 mil milhões de dólares; as práticas de planeamento fiscal agressivo por multinacionais, através da manipulação de preços de transferência, desviaram cerca de 275 mil milhões; e a corrupção drenou mais 148 mil milhões.
Estas cifras revelam um cenário de drenagem estrutural de recursos, que perpetua a dependência externa e limita a capacidade de investimento produtivo nos sectores essenciais — como saúde, educação, infra-estruturas e industrialização.
Rompendo o Ciclo de Perdas
O Outlook 2025 defende que a inversão desta tendência é possível, desde que acompanhada de uma estratégia robusta assente em quatro eixos:
- Reforço da Governação e Estado de Direito – A existência de instituições sólidas, sistemas judiciais independentes e mecanismos de fiscalização eficazes é essencial para assegurar que a riqueza do continente beneficie os seus cidadãos.
- Controlo de Práticas Abusivas de Multinacionais – O relatório apela à renegociação de contratos de concessão e à adopção de requisitos de beneficiamento local de recursos naturais, para reter mais valor dentro do continente.
- Melhoria dos Sistemas de Controlo Fiscal e Aduaneiro – A digitalização das administrações tributárias, aliada a políticas de transparência e participação cidadã, pode aumentar a arrecadação e reduzir a fuga de capitais.
- Adoção de Contabilidade do Capital Natural – Avaliar correctamente os recursos naturais e incorporar o seu valor nas contas públicas permitirá tomar decisões mais estratégicas sobre exploração e partilha de benefícios.
Uma Solução Africana para um Problema Africano
Para o BAD, este é um imperativo africano: “Quando África aloca eficazmente o seu próprio capital — humano, natural, fiscal, empresarial e financeiro — o capital global segue a sua liderança”, afirma o Vice-Presidente Kevin Chika Urama.
Nesse contexto, o reforço de parcerias estratégicas, o financiamento verde, e o uso inovador de obrigações de diáspora são vistos como ferramentas complementares, mas não substitutas da acção urgente contra a fuga de capitais.
O relatório alerta que África não é pobre: é rica em recursos, mas sofre de uma má gestão crónica desses mesmos recursos. Se os países africanos conseguirem travar as actuais perdas de capital, poderão financiar autonomamente o seu desenvolvimento, reduzir a dependência externa e iniciar um novo ciclo de crescimento baseado na soberania económica e na justiça fiscal.
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