
UNCTAD16 Em Genebra Reacende Debate Sobre A Nova Ordem Económica Internacional
Sob o peso da incerteza e da fragmentação económica, líderes globais defendem um novo pacto multilateral para reformar o comércio, aliviar a dívida e mobilizar financiamento inclusivo ao desenvolvimento.
- A UNCTAD16 decorre em Genebra, de 20 a 23 de Outubro, reunindo 195 Estados-membros sob o tema “Shaping the Future”;
- O encontro define o mandato global da organização para os próximos quatro anos, com foco em investimento, dívida, comércio e economia digital;
- A Secretária-Geral Rebeca Grynspan alerta para a crise de confiança no sistema económico global e o enfraquecimento da cooperação internacional;
- O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, apela a um “novo contrato global de solidariedade económica e climática”;
- África e os países em desenvolvimento defendem maior justiça financeira e inclusão nas cadeias de valor globais.
A 16.ª Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD16) arrancou esta segunda-feira, 20 de Outubro de 2025, em Genebra, num momento em que o comércio global enfrenta forte incerteza, tensões protecionistas e desequilíbrios financeiros.
Com o lema “Moldar o Futuro: Impulsionar a Transformação Económica para um Desenvolvimento Equitativo, Inclusivo e Sustentável”, o fórum pretende redefinir a arquitectura do comércio internacional e restaurar a confiança no multilateralismo económico.
Economia Global À Procura De Um Novo Contrato De Confiança
A Secretária-Geral da UNCTAD, Rebeca Grynspan, abriu os trabalhos alertando que o mundo vive “uma crise de confiança sistémica”, caracterizada por endividamento elevado, investimentos em queda e fragmentação geoeconómica.
“A questão já não é saber se a mudança vai acontecer, mas quem a vai conduzir — e em benefício de quem”, afirmou Grynspan.
A dirigente defendeu que a economia mundial precisa de um pacto económico de nova geração, no qual o comércio e o investimento estejam subordinados à equidade e à sustentabilidade.
A UNCTAD16, órgão máximo de decisão da organização, define o mandato político e técnico da entidade para o ciclo 2026–2029, com mais de 40 sessões ministeriais e de alto nível dedicadas à reforma das cadeias de valor, dívida, economia digital e transição verde.
Comércio, Dívida E Clima No Centro Da Agenda Global
Os debates de Genebra refletem uma realidade em mutação: o comércio internacional, que antes impulsionava crescimento, hoje expõe vulnerabilidades estruturais.
A Primeira-Ministra de Barbados, Mia Amor Mottley, apelou à revisão urgente das regras financeiras internacionais, argumentando que “o actual sistema não foi desenhado para lidar com as crises do século XXI”.
De igual modo, o Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, sublinhou que a dívida pública e o colapso do investimento privado nos países em desenvolvimento ameaçam reverter ganhos de décadas.
“Precisamos de uma economia mundial onde a prosperidade não seja privilégio, mas direito”, afirmou Ramos-Horta.
O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, reforçou que “sem um novo contrato global de solidariedade económica e climática, não haverá crescimento sustentável nem estabilidade geopolítica”.
Fragmentação Comercial Ameaça Cadeias De Valor E Investimento
A conferência destacou o risco crescente da fragmentação das cadeias de valor globais, resultado de tensões comerciais, guerras tarifárias e políticas industriais protecionistas.
Estudos apresentados pela UNCTAD mostram que o comércio mundial deverá crescer apenas 2,3 % em 2025, abaixo da média histórica, enquanto o investimento directo estrangeiro (IDE) caiu 6 % no primeiro semestre do ano.
O impacto é mais severo nas economias em desenvolvimento, que enfrentam custo de financiamento elevado, volatilidade cambial e restrições no acesso a crédito internacional.
Para Rebeca Grynspan, “é preciso repensar as regras do comércio global para garantir acesso justo ao financiamento e oportunidades de investimento inclusivas”.
Reformas Sistémicas: De Bretton Woods À Economia Digital
A UNCTAD16 coloca novamente na mesa um tema histórico: a necessidade de reformar a arquitectura económica global, ainda moldada pelas instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial).
Os delegados discutem mecanismos para alívio da dívida, revisão de quotas e critérios de financiamento e integração do financiamento climático nos instrumentos multilaterais.
Paralelamente, a organização reforça a importância da economia digital e da inteligência artificial como motores da transformação produtiva, defendendo políticas de inclusão tecnológica e partilha equitativa de benefícios.
“A transformação digital deve ser um instrumento de convergência e não uma nova fronteira de exclusão”, defendeu Grynspan.
África Reivindica Espaço E Justiça Financeira
Para o continente africano, a conferência de Genebra é uma plataforma crucial para reforçar a voz política e económica do Sul Global.
Delegações africanas sublinharam a urgência de corrigir as assimetrias estruturais no comércio internacional, garantir liquidez externa e fortalecer a Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) como eixo de industrialização.
A UNCTAD estima que África necessitará de mais de 500 mil milhões de dólares até 2030 para financiar uma transição verde e digital justa.
Para países como Moçambique, o quadro é claro: é preciso mobilizar recursos concessionais, melhorar a competitividade das exportações e reforçar a integração regional, aproveitando o novo contexto de reformas multilaterais.
UNCTAD Reafirma Multilateralismo Como Activo Estratégico
A Presidente da Assembleia-Geral da ONU, Annalena Baerbock, advertiu que o comércio deve “unir e não dividir, empoderar e não excluir”, reforçando a necessidade de cooperação multilateral robusta como único caminho viável para enfrentar crises simultâneas — económicas, climáticas e tecnológicas.
A mensagem central de Genebra é inequívoca: o sistema económico internacional só será sustentável se for inclusivo.
“Estamos aqui para moldar o futuro — juntos — para que o comércio, o investimento e a tecnologia trabalhem para as pessoas, e não o contrário”, concluiu Rebeca Grynspan.
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