Moçambique encara reconstrução pós-cheias como desafio estrutural de desenvolvimento

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Governo mobiliza parceiros para plano de recuperação avaliado em 788,5 milhões de dólares e defende que reconstrução deve impulsionar reformas económicas e maior resiliência

Questões-Chave:
  • Mais de 724 mil pessoas foram afectadas pelas cheias e ciclones da época chuvosa 2025/2026;
  • Eventos climáticos extremos provocam perdas estimadas entre 1% e 2% do PIB anual;
  • Plano preliminar de reconstrução está avaliado em cerca de 788,5 milhões de dólares;
  • Infra-estruturas absorverão cerca de 42% dos recursos previstos;
  • Parceiros internacionais alertam para desafios de execução e implementação de projectos;
  • Reformas económicas e fortalecimento das PME e do sector agrícola são apontados como factores essenciais para um crescimento mais resiliente.

Choques climáticos expõem vulnerabilidade estrutural

As cheias e ciclones que marcaram o período chuvoso de 2025/2026 voltaram a evidenciar a elevada vulnerabilidade estrutural de Moçambique face a choques climáticos extremos.

Mais de 724 mil pessoas foram directamente afectadas, com impactos significativos sobre habitação, produção agrícola e infra-estruturas essenciais, segundo dados apresentados pelo Governo durante a reunião do Conselho de Parceiros para o Desenvolvimento (DCP) com o Ministério da Planificação e Desenvolvimento.

Perante este cenário, o Executivo passou a enquadrar a recuperação pós-cheias não apenas como resposta humanitária imediata, mas como parte de uma agenda mais ampla de transformação económica e institucional.

Eventos climáticos afectam crescimento económico

Durante o encontro com parceiros de cooperação, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, destacou que os eventos climáticos extremos têm impactos directos sobre a trajectória macroeconómica do país.

Segundo o governante, estudos indicam que fenómenos climáticos severos reduzem o ritmo de crescimento e agravam indicadores sociais.

“Cada vez que há um evento climático desta envergadura, perdemos entre 1% e 2% do PIB anual, e o índice de pobreza aumenta cerca de dois pontos percentuais”, afirmou o ministro.

Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá

Perante esta realidade, o Governo entende que a resposta aos desastres naturais deve ser integrada numa estratégia de desenvolvimento mais ampla, orientada para a resiliência económica e territorial.

Plano de reconstrução mobiliza 788,5 milhões de dólares

O plano preliminar de recuperação actualmente em preparação está avaliado em cerca de 788,5 milhões de dólares, procurando responder simultaneamente às necessidades imediatas da população e às exigências estruturais de desenvolvimento.

De acordo com as estimativas apresentadas, 42% dos recursos serão destinados à reconstrução de infra-estruturas, enquanto 32,6% serão canalizados para assistência humanitária.

A recuperação económica e a reposição dos meios de subsistência absorverão cerca de 21% do financiamento, ficando o restante destinado a medidas de redução do risco de desastres.

Para o Governo, a reconstrução deve ser encarada como oportunidade para reorganizar o desenvolvimento territorial e reforçar a resiliência económica.

“Precisamos de uma resposta que vá além da fase de emergência, um instrumento que articule emergência, recuperação e reconstrução e que permita promover uma transformação estrutural da economia e da sociedade”, sublinhou Salim Valá.

Execução de projectos surge como desafio central

Durante o encontro, vários parceiros internacionais reconheceram a relevância da estratégia apresentada pelo Governo, mas alertaram para desafios persistentes na execução de projectos.

O director do Banco Mundial para Moçambique, Fily Sissoko, destacou que o país já dispõe de um volume significativo de financiamento disponível, mas enfrenta dificuldades na implementação atempada das iniciativas.

Banco Mundial para Moçambique, Fily Sissoko

“O desafio não é receber mais recursos. O desafio é garantir que esses recursos sejam executados e implementados a tempo, para que os moçambicanos possam beneficiar deles”, afirmou.

Segundo o responsável, o Banco Mundial mantém actualmente um portfólio de cerca de 3 mil milhões de dólares em projectos activos em Moçambique, distribuídos por aproximadamente quarenta iniciativas em diferentes sectores.

Coordenação entre Governo e parceiros ganha importância

Representantes diplomáticos presentes na reunião também sublinharam a importância de reforçar a coordenação entre o Governo e os parceiros de cooperação.

O embaixador Antonino Maggiore destacou que o diálogo estratégico deverá ser acompanhado por mecanismos concretos de acompanhamento e cooperação.

Antonino Maggiore

“Depois desta conversa, é importante que possamos dar seguimento e trabalhar juntos para apoiar a implementação destas prioridades”, afirmou.

Reformas económicas entram no debate da reconstrução

Para alguns parceiros internacionais, o processo de reconstrução deverá ser acompanhado por reformas económicas que reforcem o ambiente de negócios e incentivem maior participação do sector privado.

O embaixador de Portugal em Moçambique, Jorge Monteiro, defendeu que a mobilização de investimento privado depende da previsibilidade das políticas económicas.

“É fundamental criar condições para que as pequenas e médias empresas possam operar num ambiente previsível, transparente e com segurança jurídica”, afirmou.

Embaixador de Portugal em Moçambique, Jorge Monteiro

Agricultura e diversificação produtiva ganham relevância

A necessidade de reforçar sectores produtivos estratégicos também foi destacada durante o encontro.

A embaixadora de Espanha em Moçambique, Teresa Orjales Vidal, sublinhou que o país possui um elevado potencial agrícola que permanece subaproveitado.

“Moçambique tem um enorme potencial agrícola que ainda não está plenamente desenvolvido e que pode contribuir para reduzir a dependência das importações”, afirmou.

Teresa Orjales Vidal

Reconstrução pode tornar-se oportunidade de transformação

A reconstrução pós-cheias surge assim como um momento decisivo para Moçambique.

Mais do que repor infra-estruturas destruídas, o desafio consiste em transformar a resposta a desastres numa oportunidade para reforçar instituições, melhorar a execução das políticas públicas e acelerar reformas económicas capazes de sustentar um crescimento mais resiliente e inclusivo.

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