
Choque do petróleo poderá travar cortes de juros em África, alertam decisores
Subida dos preços da energia associada ao conflito no Médio Oriente pode pressionar inflação, moedas e crescimento económico no continente
- Subida do petróleo devido ao conflito no Irão poderá travar ciclo de cortes de juros em África;
- Bancos centrais estavam a reduzir taxas para estimular economias após queda da inflação;
- Preços elevados da energia podem pressionar inflação, reservas cambiais e moedas africanas;
- Sectores como mineração, agricultura e transportes poderão ser particularmente afectados;
- Economistas alertam que impacto poderá atingir tanto importadores como exportadores de petróleo.
A recente escalada nos preços do petróleo, associada ao conflito no Médio Oriente, está a gerar preocupações entre decisores políticos e autoridades monetárias africanas, que alertam para possíveis impactos negativos sobre a inflação, as taxas de juro e a recuperação económica do continente.
Segundo uma análise da Reuters, o aumento da volatilidade nos mercados energéticos poderá obrigar vários bancos centrais africanos a suspender ou rever os planos de redução das taxas de juro, que vinham sendo implementados nos últimos meses para estimular o crescimento económico.
Nos últimos trimestres, vários países africanos iniciaram ciclos de flexibilização monetária, apoiados pela descida gradual da inflação e por alguma estabilidade nas taxas de câmbio.
Contudo, a nova pressão sobre os preços da energia pode alterar rapidamente esse cenário.
Bancos centrais enfrentam novo ambiente de incerteza
Autoridades monetárias em diferentes países do continente já começaram a sinalizar cautela.
O Banco Central do Uganda, citado pela Reuters, afirmou que o ambiente económico global se tornou mais incerto, exigindo uma reavaliação das ferramentas de política monetária utilizadas até agora.
“Períodos de elevada incerteza tornaram-se uma característica definidora da economia global, desafiando os bancos centrais de formas sem precedentes”, indicou a instituição.
Em Angola, o banco central decidiu manter as taxas de juro após três cortes consecutivos, com o governador Manuel Tiago Dias a justificar a decisão com os riscos associados à possível prolongação da guerra no Médio Oriente.
Segundo o responsável, a continuação do conflito poderá afectar cadeias de abastecimento, incluindo fertilizantes e insumos agrícolas.
Analistas antecipam pausa no ciclo de cortes de juros
Economistas e analistas financeiros consideram que vários bancos centrais africanos poderão interromper temporariamente os planos de flexibilização monetária.
Países como Gana, Nigéria, Zâmbia e Quénia são apontados como economias que poderão rever as suas estratégias de política monetária caso a subida do petróleo se prolongue.
Segundo Razia Khan, economista-chefe para o Médio Oriente e África no Standard Chartered, as autoridades monetárias terão de avaliar cuidadosamente o impacto indirecto da subida dos preços da energia sobre a inflação.
“Os bancos centrais terão de analisar os efeitos de transmissão para a inflação e outros indicadores económicos”, afirmou a especialista.
O banco JPMorgan também reduziu recentemente as previsões para novos cortes de juros em vários países africanos, citando os riscos associados à crise energética.
Moedas africanas e reservas cambiais sob pressão
A subida prolongada dos preços do petróleo poderá ter impactos significativos nas economias africanas, sobretudo nos países importadores de combustíveis.
Segundo Charlie Robertson, responsável de estratégia macroeconómica da FIM Partners, se o petróleo permanecer em torno de 100 dólares por barril durante um ano, muitas economias africanas poderão enfrentar pressões sobre as reservas cambiais.
Nesse cenário, várias moedas do continente poderão desvalorizar até cerca de 5%, aumentando ainda mais o custo das importações e pressionando a inflação.
Impactos esperados em sectores estratégicos
O aumento dos custos energéticos poderá também afectar a produtividade em sectores económicos fundamentais.
De acordo com Marie Diron, directora de risco soberano global da Moody’s, sectores como mineração, transportes e agricultura poderão ser particularmente vulneráveis ao aumento dos preços do petróleo.
Mesmo países produtores de petróleo, como Nigéria e Angola, poderão não beneficiar plenamente da subida dos preços, uma vez que os efeitos negativos da desaceleração económica global podem compensar eventuais ganhos de receitas.
“Alguns exportadores africanos de petróleo poderão obter receitas adicionais, mas não vemos isso como um benefício líquido para as economias do continente”, afirmou a analista.
Recuperação económica africana enfrenta novos riscos
Para vários analistas, a actual turbulência nos mercados energéticos representa mais um desafio para a recuperação económica africana, que vinha a ganhar algum impulso após anos marcados por choques externos, inflação elevada e volatilidade cambial.
A evolução do conflito no Médio Oriente e a trajectória dos preços da energia serão factores decisivos para determinar se os bancos centrais africanos poderão retomar os planos de estímulo monetário ou se terão de adoptar uma postura mais cautelosa nos próximos meses.
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