
Ouro Recupera Ligeiramente Após Pior Trimestre Em 13 Anos
- Metal precioso perdeu cerca de 16% entre Abril e Junho, pressionado pela perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos, fortalecimento do dólar e subida dos rendimentos reais. Ainda assim, procura dos bancos centrais e riscos associados à dívida pública sustentam perspectivas construtivas no médio prazo.
Questões-Chave
- O ouro iniciou o segundo semestre com uma recuperação moderada, após registar no segundo trimestre a maior queda em 13 anos.
- O metal perdeu cerca de 16% entre Abril e Junho e acumula uma descida de 7,76% desde o início do ano.
- A expectativa de uma política monetária norte-americana menos acomodatícia reduziu a atractividade de um activo que não gera rendimento.
- Compras dos bancos centrais, diversificação cambial e preocupações com a dívida pública global continuam a sustentar a procura estrutural.
O ouro registou uma recuperação moderada esta quarta-feira, depois de ter encerrado o segundo trimestre com a maior queda trimestral em 13 anos. O movimento ocorre num contexto em que os investidores reavaliam as perspectivas para as taxas de juro nos Estados Unidos, a evolução da inflação e o papel dos activos de refúgio numa economia mundial marcada por riscos geopolíticos e financeiros persistentes.
Os futuros do ouro negociavam em torno de 4.041 dólares por onça, enquanto o preço à vista avançava cerca de 0,49%, para aproximadamente 4.026 dólares. A recuperação, porém, não altera o quadro de correcção vivido pelo metal precioso desde o máximo histórico alcançado em Janeiro, quando chegou aos 5.586,20 dólares por onça.
Entre Abril e Junho, o ouro perdeu cerca de 16% do seu valor, no pior desempenho trimestral desde o segundo trimestre de 2013. Desde o início do ano, a descida acumulada é de 7,76%.
Juros Mais Altos Reduzem Atractividade Do Metal
A pressão sobre o ouro está associada, sobretudo, à percepção de que a Reserva Federal norte-americana poderá manter uma política monetária mais restritiva do que os mercados antecipavam.
O reforço dos dados económicos dos Estados Unidos, a subida dos rendimentos reais das obrigações e a valorização do dólar contribuíram para reduzir o apelo relativo do ouro. Ao contrário de títulos de dívida ou depósitos remunerados, o ouro não paga juros, tornando-se menos atractivo quando os retornos reais oferecidos por outros activos aumentam.
Segundo Giovanni Staunovo, analista de matérias-primas do UBS, o tradicional estatuto do ouro como activo de refúgio tem sido parcialmente neutralizado por este enquadramento macroeconómico. A correcção recente reflecte, por isso, não apenas a redução das tensões geopolíticas, mas também a adaptação dos investidores a uma realidade de taxas de juro potencialmente mais elevadas por mais tempo.
A guerra entre o Irão e os Estados Unidos, ao elevar os preços da energia e reacender receios inflacionistas, contribuiu para essa revisão das expectativas. Quanto maior for a probabilidade de a inflação se manter elevada, maior poderá ser a pressão sobre os bancos centrais para preservarem taxas de juro restritivas.
Correcção Não Elimina Papel Estratégico Do Ouro
Apesar da queda recente, várias instituições mantêm uma visão positiva sobre o papel do ouro numa carteira diversificada. A Amundi Investment Institute considera que a actual conjuntura continua a justificar a exposição a activos reais e a metais preciosos, sobretudo num período de inflação volátil, endividamento público crescente e riscos de concentração nos mercados financeiros.
A procura dos bancos centrais constitui outro suporte relevante. O World Gold Council identifica uma disposição crescente de várias autoridades monetárias para reforçarem as suas reservas de ouro ao longo dos próximos 12 meses, numa estratégia de diversificação gradual face a activos denominados em dólar.
Esta tendência tem uma dimensão que vai além do movimento táctico dos investidores de curto prazo. Reflecte uma busca por activos de reserva que não dependam directamente da política monetária ou da solvabilidade de um único país, num contexto de crescente fragmentação geoeconómica.
Entre A Correcção Cíclica E O Suporte Estrutural
O desempenho do ouro nos próximos meses dependerá, em larga medida, da trajectória da inflação nos Estados Unidos, das decisões da Reserva Federal, do comportamento do dólar e da evolução das tensões geopolíticas.
No curto prazo, o cenário aponta para uma fase de consolidação, depois da forte descida registada no segundo trimestre. Mas, no médio prazo, factores como as compras dos bancos centrais, a diversificação cambial, a elevada dívida pública global e a incerteza sobre a independência das autoridades monetárias poderão continuar a sustentar o interesse pelo metal.
A queda recente mostra que o ouro não está imune aos ciclos financeiros e às expectativas sobre juros. Mas também confirma que a sua função como reserva de valor e instrumento de diversificação continua a ser relevante num ambiente económico internacional cada vez mais instável.
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