Dólar Perde Impulso Com Inflação Benigna Nos EUA, Enquanto Yen Volta A Testar Limite De Intervenção

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  • Inflação norte-americana abaixo das pressões temidas reduz apostas numa nova subida das taxas da Reserva Federal e interrompe avanço do dólar. No Japão, porém, o USD/JPY regressou à proximidade dos 160, colocando novamente à prova a eficácia da recente intervenção conjunta de Washington e Tóquio e aumentando as expectativas de uma subida das taxas pelo Banco do Japão.
Questões-Chave:
  • O índice do dólar mantinha-se próximo de 100 pontos, mas as expectativas de uma subida das taxas da Fed em Setembro recuaram de mais de 50% há uma semana para perto de 40%, depois dos dados de inflação de Julho;
  • Os preços no consumidor dos Estados Unidos aumentaram apenas 0,1% em Julho e 3,4% em termos homólogos, enquanto a inflação subjacente ficou em 2,5%, reduzindo a urgência de novo aperto monetário;
  • O dólar negociava próximo de 159,35 Yen, novamente perto da zona dos 160 que o mercado associa ao risco de nova intervenção cambial japonesa;
  • A recente intervenção coordenada entre Estados Unidos e Japão levou temporariamente o USD/JPY de perto de 164 para cerca de 155,20, mas aproximadamente metade desse movimento já foi revertido;
  • Euro e libra mantêm-se relativamente estáveis, enquanto as moedas da Austrália e Nova Zelândia seguem trajectórias distintas perante diferentes perspectivas de inflação e política monetária;

Inflação Americana Retira Parte Do Suporte Ao Dólar

O dólar interrompeu nesta quinta-feira, 13 de Agosto, o movimento de valorização observado nas últimas sessões, depois de novos dados de inflação dos Estados Unidos reduzirem as expectativas de uma subida adicional das taxas de juro pela Reserva Federal já em Setembro.

Segundo a Reuters, o índice que mede a moeda norte-americana face a um cabaz de seis grandes divisas negociava praticamente inalterado próximo de 99,98 pontos, ainda assim encaminhado para uma valorização semanal de aproximadamente 0,4%. 

A alteração mais importante ocorreu no mercado de taxas de juro.

O Bureau of Labor Statistics informou que o Índice de Preços no Consumidor dos Estados Unidos aumentou apenas 0,1% em Julho, depois de uma queda de 0,4% em Junho. Em termos homólogos, a inflação desacelerou para 3,4%, enquanto o índice excluindo alimentação e energia avançou 0,2% no mês e 2,5% nos últimos 12 meses. 

Os números diminuíram a pressão sobre a Reserva Federal para continuar o ciclo de aperto monetário no imediato.

O CME FedWatch, que utiliza os preços dos futuros sobre Fed Funds para estimar as expectativas do mercado, passou a indicar uma probabilidade próxima de 40% de aumento das taxas na reunião de Setembro, contra mais de metade uma semana antes. 

A diferença é importante para o mercado cambial porque, em termos gerais, quanto maior for a remuneração esperada dos activos denominados em dólares relativamente às alternativas internacionais, maior tende a ser o incentivo à procura da moeda norte-americana.

Ao reduzir a probabilidade de novas subidas das taxas, os dados de inflação retiram parte desse suporte.

Fed Entre Inflação E Mercado De Trabalho

O quadro, contudo, permanece longe de justificar uma mudança rápida para uma política monetária expansionista.

A inflação norte-americana continua acima da meta de 2% da Reserva Federal e os preços da energia mantêm uma componente importante de incerteza. Ao mesmo tempo, os últimos dados do mercado de trabalho revelaram perda de dinamismo, colocando a autoridade monetária perante sinais contraditórios.

Michael Wan, estratega cambial do MUFG, citado pela Reuters, considera que o dilema da Fed passa precisamente por equilibrar os riscos de inflação com um mercado laboral que começa a enfraquecer. A instituição espera que o banco central mantenha em Setembro uma postura monetária restritiva, mas sem avançar imediatamente para nova subida das taxas. 

O Financial Times também interpreta os dados de Julho como uma redução da pressão para um aumento iminente das taxas, depois de a inflação anual ter descido de 3,5% em Junho para 3,4% em Julho e a componente subjacente ter recuado para 2,5%. 

Para o dólar, isso significa que o diferencial de juros continua favorável em relação a várias moedas, mas a perspectiva de alargamento adicional desse diferencial tornou-se menos evidente.

Yen Volta À Zona Dos 160

Se a inflação americana domina a discussão em torno do dólar, é o Yen que concentra actualmente um dos maiores riscos de volatilidade do mercado cambial internacional.

O dólar negociava esta quinta-feira próximo de 159,35 Yen, praticamente regressando à zona de 160 que vários participantes do mercado consideram crítica para a reacção das autoridades japonesas. 

A aproximação ocorre menos de duas semanas depois de uma rara intervenção coordenada de Estados Unidos e Japão para sustentar a moeda japonesa.

A operação levou o USD/JPY de níveis próximos de 164 — máximos de aproximadamente quatro décadas — para cerca de 155,20 em apenas três dias.

Mas parte significativa desse ganho desapareceu.

O Financial Times observa que o Yen já devolveu aproximadamente metade da valorização alcançada durante a intervenção, regressando para níveis próximos de 159 por dólar. A publicação associa a persistente fragilidade da moeda sobretudo ao diferencial de taxas de juro e à ausência, até agora, de um aperto monetário suficientemente forte pelo Banco do Japão. (

Mercado Coloca Credibilidade Da Intervenção À Prova

A questão já não é apenas saber se Japão e Estados Unidos conseguem movimentar a taxa de câmbio através de compras de Yen.

O problema é saber durante quanto tempo conseguem fazê-lo sem que os fundamentos monetários acompanhem a intervenção.

Shusuke Yamada, responsável pela investigação de câmbio e taxas japonesas do Bank of America, considera que uma subida do USD/JPY acima de 160 poderia ser interpretada pelo mercado como sinal de capacidade limitada das autoridades para defender a moeda, enquanto uma intervenção suficientemente forte para levar a taxa abaixo dos 155 contribuiria para consolidar a percepção de compromisso político. 

O facto de o par ter regressado rapidamente à proximidade de 160, sem nova intervenção durante a última semana, está novamente a colocar essa credibilidade à prova.

O Financial Times acrescenta que a intervenção recente foi excepcional também pela participação dos Estados Unidos, num movimento raro de apoio directo à moeda japonesa. Ainda assim, a ausência de uma resposta coordenada mais ampla entre bancos centrais deixa intacta parte das forças que pressionam o Yen. (

Banco Do Japão Passa A Fazer Parte Central Da Equação

É neste quadro que o mercado começa a deslocar a atenção da intervenção cambial para a política monetária japonesa.

O Banco do Japão reconheceu, nas suas perspectivas económicas de Julho, que a depreciação recente do Yen e os preços mais elevados do petróleo estão a exercer pressão sobre os preços domésticos, particularmente sobre bens duradouros e outras componentes importadas. 

As expectativas de uma subida das taxas japonesas já em Setembro aumentaram.

A Bloomberg reportou esta quinta-feira que o Governo japonês estaria receptivo a uma subida das taxas pelo Banco do Japão no curto prazo, possivelmente em Setembro ou Outubro, à medida que aumentam as preocupações com as pressões inflacionistas domésticas. A informação foi igualmente repercutida pela Reuters na sua leitura dos mercados asiáticos. 

Uma combinação entre Fed sem nova subida de juros e Banco do Japão a avançar para maior aperto monetário teria potencial para reduzir o diferencial de taxas entre as duas economias e, consequentemente, retirar parte do incentivo estrutural às posições de venda de Yen.

É precisamente essa possibilidade que torna os próximos encontros dos dois bancos centrais particularmente importantes para o USD/JPY.

Euro Mantém-Se Próximo De 1,15 Dólares

O euro apresentava pouca variação, negociando em torno de 1,1525 dólares, enquanto os investidores continuavam a avaliar as perspectivas para a política monetária norte-americana e europeia.

A relativa estabilidade mostra que, nesta sessão, o principal movimento cambial não resulta de uma reavaliação significativa da moeda única, mas sobretudo da alteração das expectativas sobre a trajectória futura dos juros nos Estados Unidos.

O dólar continua, contudo, a caminhar para uma valorização semanal no conjunto das principais moedas, mostrando que o CPI de Julho travou o movimento, mas ainda não produziu uma reversão consistente da tendência recente. 

Libra Aguarda Novos Sinais Da Economia Britânica

A libra esterlina recuava marginalmente para cerca de 1,349 dólares, depois de ter negociado recentemente próximo do máximo de um mês.

A moeda britânica permanece sensível às expectativas sobre o Banco de Inglaterra, numa conjuntura em que preços elevados de energia e incerteza fiscal mantêm riscos inflacionistas, enquanto a actividade económica envia sinais mais mistos.

Antes da divulgação dos novos indicadores económicos do Reino Unido, a Reuters observava que a economia britânica ainda não tinha demonstrado fraqueza suficiente para afastar completamente as expectativas de novos aumentos das taxas pelo Banco de Inglaterra. 

Dólar Australiano Mantém Suporte De Uma RBA Mais Dura

Na Austrália, a configuração é diferente.

O dólar australiano recuava cerca de 0,2%, para 0,7048 dólares norte-americanos, depois de ter atingido na quarta-feira um máximo de dez semanas próximo de 0,7091 dólares. 

Apesar da correcção, a moeda mantém algum suporte da perspectiva de taxas mais elevadas.

Christopher Kent, Governador-Adjunto do Reserve Bank of Australia, afirmou esta quinta-feira que os riscos para a inflação permanecem inclinados para cima e que novas subidas das taxas poderão tornar-se necessárias caso esses riscos se materializem. A RBA mantém actualmente a taxa directora em 4,35%, depois de já ter realizado 75 pontos base de aperto desde Fevereiro. 

Nova Zelândia Segue Caminho Diferente

O dólar neozelandês, por contraste, recuava aproximadamente 0,4%, para cerca de 0,5833 dólares, depois de uma leitura inesperadamente baixa das expectativas de inflação diminuir a percepção de necessidade de um aperto monetário agressivo. 

A divergência entre Austrália e Nova Zelândia demonstra novamente a importância que as expectativas de taxas de juro assumem na determinação dos movimentos cambiais.

Mesmo entre duas economias geograficamente próximas e fortemente relacionadas, mudanças relativamente pequenas nas perspectivas de inflação e política monetária podem produzir trajectórias diferentes para as respectivas moedas.

Dólar E Yen Continuam A Ser Os Principais Indicadores

Para economias como Moçambique, o comportamento internacional do dólar continua a ter particular importância.

Uma moeda norte-americana persistentemente forte tende a afectar preços internacionais expressos em dólares, custos de importação, serviço de obrigações externas denominadas na moeda americana e condições financeiras internacionais.

Neste sentido, a redução das expectativas de uma subida das taxas pela Fed pode representar um factor moderador para a valorização internacional do dólar, embora ainda seja prematuro falar numa tendência consistente de enfraquecimento.

O Yen, por sua vez, assume importância adicional como indicador do grau de tensão existente entre grandes diferenciais de taxas de juro, fluxos internacionais de capitais e capacidade dos governos e bancos centrais para influenciar as taxas de câmbio.

O seu regresso à zona dos 160 por dólar, tão pouco tempo depois de uma intervenção excepcional, mostra que intervenções cambiais podem alterar rapidamente os preços, mas dificilmente substituem por muito tempo os fundamentos que movem os mercados.

Próximas Sessões Podem Redefinir O Mercado

O mercado cambial global entra, assim, numa nova fase de avaliação.

Nos Estados Unidos, os investidores procuram determinar se a desaceleração da inflação e os sinais mais fracos do emprego serão suficientes para manter a Fed parada em Setembro.

No Japão, a questão é saber se o Banco do Japão responderá às pressões inflacionistas e à fragilidade do Yen com uma nova subida das taxas — ou se as autoridades terão novamente de recorrer ao mercado cambial.

Na Austrália, a possibilidade de maior aperto continua presente, enquanto outras economias apresentam sinais menos claros.

A aparente estabilidade do dólar nesta quinta-feira esconde, portanto, uma importante mudança na configuração do mercado: as expectativas de política monetária voltaram ao centro da formação das taxas de câmbio.

E é precisamente a eventual convergência entre uma Fed mais paciente e um Banco do Japão progressivamente mais restritivo que poderá determinar se o USD/JPY rompe novamente os 160 ou se o Yen consegue finalmente construir uma recuperação mais sustentável.

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