Petróleo Recupera Prémio de Risco Numa Semana Marcada Por Hormuz

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Brent valorizou 5,5% e WTI quase 4%, impulsionados pela renovada tensão entre os Estados Unidos e o Irão. O gás europeu acompanhou o movimento, enquanto o Henry Hub caiu mais de 9%, revelando um mercado global de energia cada vez mais fragmentado entre riscos de oferta, disponibilidade regional e dúvidas sobre a procura.

Questões-Chave:
  • Brent terminou a semana nos 76,01 dólares por barril, acumulando uma valorização de cerca de 5,5%, enquanto o WTI fechou nos 71,41 dólares, com um ganho semanal próximo de 4%.
  • O gás natural europeu subiu cerca de 10%, para 48,66 euros por megawatt-hora, reflectindo receios sobre o abastecimento de LNG e o ritmo insuficiente de reposição das reservas.
  • Nos Estados Unidos, o gás natural caiu aproximadamente 9,4%, para 2,94 dólares por milhão de unidades térmicas britânicas, pressionado por stocks elevados e pela manutenção do terminal de Freeport LNG.
  • A próxima semana será condicionada pelas negociações entre Washington e Teerão, pelo relatório mensal da OPEP, pelos dados económicos dos Estados Unidos e da China e pela evolução dos inventários energéticos norte-americanos.

Os mercados energéticos globais encerraram a semana de 6 a 10 de Julho sob o efeito de duas forças contraditórias. Por um lado, a reabertura gradual do Estreito de Hormuz e as expectativas de retoma das negociações entre os Estados Unidos e o Irão sugeriram uma melhoria progressiva da oferta. Por outro, novos ataques militares, perturbações no transporte marítimo e danos em infra-estruturas energéticas voltaram a incorporar um prémio geopolítico significativo nos preços.

O resultado foi uma semana de elevada volatilidade, na qual o petróleo recuperou parte das perdas anteriores, o gás europeu valorizou fortemente e o gás norte-americano seguiu na direcção oposta, pressionado por factores essencialmente domésticos.

Petróleo Oscila Entre Diplomacia e Risco de Interrupção

O Brent, referência para cerca de dois terços do petróleo transaccionado internacionalmente, terminou sexta-feira nos 76,01 dólares por barril. Apesar da queda diária de 0,38%, o contrato acumulou uma valorização semanal de aproximadamente 5,5%. O West Texas Intermediate, referência norte-americana, recuou 0,93% na última sessão, para 71,41 dólares, mas encerrou a semana com um ganho próximo de 4%. (Reuters)

A trajectória semanal evidencia a rapidez com que o sentimento do mercado mudou. Na segunda-feira, o Brent tinha fechado nos 71,99 dólares e o WTI nos 68,55 dólares, depois de a recuperação dos fluxos através de Hormuz, o aumento da produção global e a decisão da OPEP+ de elevar as metas de produção para Agosto terem reduzido os receios de escassez imediata. (Reuters)

O cenário alterou-se a partir de terça e quarta-feira, quando novos ataques norte-americanos contra o Irão e a resposta de Teerão colocaram em causa a continuidade do cessar-fogo. Os ataques contra navios e instalações militares no Golfo provocaram uma redução da circulação marítima e devolveram aos preços o chamado “prémio de Hormuz”.

Antes do actual conflito, o estreito assegurava a passagem de aproximadamente 20% dos fluxos mundiais diários de petróleo e gás. A possibilidade de uma interrupção prolongada naquela rota continua, por isso, a representar o principal risco de alta para os mercados energéticos. (Reuters)

Na sexta-feira, porém, os preços recuaram ligeiramente. A ausência de novos ataques durante a noite, a presença de negociadores do Qatar no Irão e a perspectiva de renovação das conversações entre Washington e Teerão levaram os operadores a considerar que a escalada poderia permanecer limitada.

Esta reacção mostra que o mercado ainda não está a precificar um encerramento duradouro de Hormuz. Está, antes, a atribuir uma probabilidade elevada a interrupções temporárias, atrasos nos embarques e custos acrescidos de transporte, seguros e segurança marítima.

Mais Petróleo no Mar, Mas Menos Combustíveis Disponíveis

A aparente moderação do preço do crude esconde, contudo, uma situação mais apertada nos mercados de produtos refinados.

A Agência Internacional de Energia estima que a oferta mundial de petróleo tenha aumentado 4,1 milhões de barris por dia em Junho, à medida que os navios retomaram parcialmente a circulação pelo Estreito de Hormuz. Mesmo com esta recuperação, a produção e os fluxos permaneceram cerca de 9,4 milhões de barris por dia abaixo dos níveis anteriores ao conflito. (Reuters)

A Agência prevê que a oferta global recue 3,7 milhões de barris por dia em 2026, antes de recuperar 7,5 milhões de barris por dia em 2027. Esta previsão pressupõe, no entanto, uma melhoria consistente do transporte marítimo, a reposição da produção no Golfo e a normalização das refinarias atingidas ou paralisadas.

O principal desequilíbrio encontra-se actualmente entre petróleo bruto e produtos refinados. Segundo o relatório de Julho da Agência Internacional de Energia, as margens de refinação atingiram máximos de quatro anos no início do mês, porque a recuperação das exportações de crude foi mais rápida do que o reinício das refinarias e dos embarques de gasolina, gasóleo e combustível de aviação. (IEA)

As refinarias exportadoras do Médio Oriente continuam sem operar plenamente, enquanto os ataques ucranianos reduziram a actividade de importantes instalações russas. A Rússia impôs, por isso, restrições às exportações de diesel, agravando a disponibilidade do combustível no mercado atlântico.

De acordo com informações recolhidas pela Reuters, a produção russa de gasolina caiu para um nível equivalente a cerca de 65% do consumo sazonal médio, após sucessivos ataques contra refinarias. Este factor ajudou a sustentar os preços dos combustíveis, mesmo quando as cotações do petróleo bruto recuaram na quinta e na sexta-feira. (Reuters)

Nos Estados Unidos, a Administração de Informação de Energia reportou um aumento de três milhões de barris nos inventários comerciais de crude durante a semana terminada em 3 de Julho. Em contraste, os stocks de gasolina diminuíram 1,9 milhões de barris e os de destilados, categoria que inclui o diesel, caíram cinco milhões de barris.

Os inventários norte-americanos de gasolina encontram-se cerca de 6% abaixo da média dos últimos cinco anos, enquanto os stocks de destilados permanecem aproximadamente 12% abaixo da média sazonal. Estes números reforçam a percepção de que o mercado de combustíveis está mais apertado do que o mercado de petróleo bruto. (ir.eia.gov)

Gás Europeu Sobe, Henry Hub Afunda

O gás natural apresentou a maior divergência regional da semana.

Na Europa, os futuros do TTF holandês passaram de 44,25 euros por megawatt-hora, no dia 3 de Julho, para 48,66 euros no encerramento de sexta-feira. A valorização semanal aproximou-se, assim, de 10%, apesar de uma correcção de 2,9% na última sessão. (Investing.com)

A subida foi alimentada pelas dúvidas sobre a recuperação dos fornecimentos de LNG provenientes do Golfo, pela redução dos fluxos através de Hormuz e pela necessidade de a Europa reforçar as reservas antes do próximo Inverno. Em meados da semana, os stocks europeus encontravam-se em torno de 50% da capacidade, abaixo da média dos últimos cinco anos para esta fase do período de injecção. (The Wall Street Journal)

A recuperação das importações europeias enfrenta também a concorrência da Ásia. Em Junho, o indicador asiático JKM registou uma média de 17,33 dólares por milhão de unidades térmicas britânicas, contra aproximadamente 13,19 dólares no TTF europeu. Este prémio incentivou o desvio de carregamentos norte-americanos do Atlântico para os compradores asiáticos. (Reuters)

Nos Estados Unidos, a dinâmica foi oposta. Os futuros do Henry Hub caíram de 3,24 dólares por milhão de unidades térmicas britânicas, no final da semana anterior, para 2,94 dólares na sexta-feira, correspondendo a uma desvalorização semanal de cerca de 9,4%. Apenas na quinta-feira, o preço caiu 6,2%, a maior redução diária em mais de três meses. (Investing.com)

A queda resultou de um aumento de 61 mil milhões de pés cúbicos nos stocks de gás norte-americanos, acima da média dos últimos cinco anos. As reservas atingiram 2,983 biliões de pés cúbicos e ficaram cerca de 185 mil milhões de pés cúbicos acima da média sazonal. (eia.gov)

A manutenção programada do terminal de Freeport LNG, no Texas, acrescentou pressão. A paralisação deverá prolongar-se até Agosto e reduzirá temporariamente a quantidade de gás destinada à exportação, mantendo mais oferta disponível no mercado interno norte-americano. O terminal absorve normalmente o equivalente a cerca de 2% da produção diária de gás dos Estados Unidos. (The Wall Street Journal)

Assim, enquanto a Europa e a Ásia pagam um prémio pela segurança do abastecimento, os Estados Unidos enfrentam uma combinação de produção robusta, capacidade limitada de exportação e inventários confortáveis.

Carvão Mantém-se Praticamente Estável

O carvão térmico mostrou menor sensibilidade aos acontecimentos geopolíticos durante a semana. Os futuros de Newcastle terminaram nos 128,60 dólares por tonelada, contra 128,80 dólares na semana anterior, representando uma variação negativa inferior a 0,2%. Na sexta-feira, o preço caiu cerca de 1%. (Investing.com)

A estabilidade contrasta com a forte volatilidade observada entre Março e Junho, quando os preços do LNG estimularam uma maior procura por carvão na Ásia. Países com capacidade para substituir gás por carvão aumentaram as compras para reduzir os custos de produção de electricidade e limitar a exposição às interrupções do Golfo.

Para já, a expectativa de recuperação parcial do LNG e a procura mais moderada da China impediram uma nova subida significativa do carvão. Contudo, uma interrupção prolongada dos fornecimentos do Qatar ou uma nova escalada em Hormuz poderá voltar a favorecer a substituição de gás por carvão, sobretudo nos mercados asiáticos mais sensíveis ao preço.

Procura Volta a Limitar as Subidas

A valorização semanal do petróleo não eliminou as preocupações com a procura.

A Agência Internacional de Energia prevê que o consumo mundial de petróleo diminua cerca de um milhão de barris por dia em 2026, antes de recuperar dois milhões de barris por dia em 2027. A instituição espera, ainda assim, uma recuperação sazonal de aproximadamente oito milhões de barris por dia entre o mínimo registado em Maio e o mês de Outubro, apoiada pelas viagens de Verão, pela redução dos preços e por alguma melhoria da actividade económica. (Reuters)

A incerteza permanece elevada. As actas da Reserva Federal revelaram maiores preocupações com a inflação, num contexto em que a subida dos custos energéticos pode atrasar qualquer flexibilização da política monetária. Taxas de juro mais elevadas durante mais tempo tenderiam a reduzir o crescimento económico, o transporte e o consumo industrial de energia.

Na China, o aumento dos preços no produtor, combinado com uma procura interna ainda moderada, levantou dúvidas sobre a capacidade das empresas absorverem novos aumentos nos custos de energia. Como maior importador mundial de petróleo e um dos principais compradores de LNG e carvão, a evolução da economia chinesa continuará a ser determinante para a direcção das cotações. (Reuters)

Hormuz e Dados Económicos Vão Definir a Próxima Semana

A semana de 13 a 17 de Julho deverá continuar dominada pela evolução das relações entre os Estados Unidos e o Irão.

Uma retoma efectiva das negociações, acompanhada por maior circulação de petroleiros e navios de LNG através de Hormuz, poderá retirar parte do prémio de risco incorporado nos preços. Pelo contrário, novos ataques contra embarcações, portos ou instalações energéticas poderão provocar uma reacção rápida, sobretudo no Brent, no TTF europeu e nos preços dos combustíveis refinados.

Na segunda-feira, 13 de Julho, a OPEP publicará o seu relatório mensal. O mercado estará atento às previsões de procura, à produção dos países membros e à forma como a organização avaliará o impacto da recuperação dos fluxos do Golfo. (OPEP)

Nos dias seguintes, os dados de inflação dos Estados Unidos, o crescimento económico da China no segundo trimestre, a produção industrial chinesa e as vendas a retalho norte-americanas fornecerão indicações sobre a robustez da procura mundial. Uma inflação norte-americana acima do esperado poderá reforçar as expectativas de taxas de juro elevadas, pressionando o petróleo. Dados chineses robustos produziriam o efeito contrário, ao sustentarem melhores perspectivas de consumo. (Reuters)

Os relatórios da Administração de Informação de Energia, previstos para 15 de Julho no caso do petróleo e 16 de Julho para o gás natural, serão igualmente decisivos. O mercado procurará perceber se a queda dos stocks de gasolina e destilados continuará e se o excedente de gás norte-americano voltará a aumentar. (eia.gov)

O cenário central aponta, assim, para a manutenção de uma elevada volatilidade. O petróleo continuará sustentado pelo risco geopolítico e pela escassez relativa de combustíveis refinados, mas limitado pelo crescimento da oferta de crude e pelas dúvidas em torno da procura. No gás, a fragmentação deverá persistir: preços elevados na Europa e na Ásia, onde a segurança de abastecimento permanece prioritária, e pressão descendente nos Estados Unidos, onde os stocks e as limitações temporárias às exportações continuam a dominar o mercado.

As versões específicas para as redes sociais poderão ser desenvolvidas na sequência editorial habitual.