Drones Entram na Primeira Linha da Resposta às Calamidades em Moçambique

0
37

País certifica os primeiros 30 operadores de drones para apoiar a monitoria de cheias, ciclones e outras emergências. A iniciativa representa um avanço tecnológico relevante, mas a sua eficácia dependerá da integração com os sistemas de aviso prévio, da manutenção dos equipamentos, do financiamento contínuo e da capacidade de transformar imagens aéreas em decisões operacionais rápidas.

Questões-Chave:
  • O primeiro projecto nacional de gestão de desastres com recurso a drones formou 30 profissionais, incluindo dez instrutores, criando uma base inicial de competências nacionais.
  • A iniciativa, avaliada em cerca de 967 mil dólares, foi financiada pelo Fundo de Cooperação Económica Coreia-África e gerida pelo Banco Africano de Desenvolvimento.
  • Os drones permitirão mapear áreas inundadas, avaliar danos, localizar comunidades isoladas e identificar rotas de acesso e evacuação.
  • A sustentabilidade do projecto exigirá orçamento para manutenção, renovação tecnológica, regulação, protecção de dados e integração institucional.

Moçambique deu um novo passo na modernização da sua capacidade de prevenção e resposta às calamidades naturais, ao certificar a primeira força nacional de operadores de drones destinada à monitoria de ciclones, cheias, inundações e outras situações de emergência.

A graduação ocorreu esta sexta-feira, 10 de Julho, em Maputo, durante a cerimónia de encerramento do Primeiro Projecto de Drones, presidida pela Primeira-Ministra, Maria Benvinda Levi.

Na ocasião, a governante considerou que a introdução desta tecnologia constitui um marco na adopção de soluções inovadoras para responder à crescente intensidade dos eventos climáticos extremos que afectam ciclicamente o território nacional. Segundo a Primeira-Ministra, os drones permitirão obter dados precisos e em tempo real sobre zonas de risco, áreas inundadas, populações afectadas e potenciais rotas de evacuação.

A capacidade de chegar virtualmente a áreas isoladas ou de difícil acesso poderá reduzir significativamente o intervalo entre a ocorrência de uma calamidade, a avaliação da sua dimensão e a mobilização dos meios de resposta.

Da Observação Aérea à Decisão Operacional

A importância dos drones na gestão de desastres não reside apenas na possibilidade de captar imagens aéreas. O seu maior valor está na capacidade de converter essas imagens em informação operacional para orientar decisões sobre busca e salvamento, evacuação, assistência humanitária e reposição de infra-estruturas.

Durante uma cheia, por exemplo, estradas, pontes e linhas de comunicação podem ficar interrompidas, dificultando a chegada das equipas ao terreno. Um drone pode sobrevoar a zona afectada, identificar comunidades isoladas, avaliar a profundidade e extensão da inundação e ajudar a definir os percursos mais seguros para as operações de socorro.

A Primeira-Ministra observou que um drone adequadamente pilotado pode realizar, em pouco tempo, tarefas que uma equipa terrestre levaria vários dias a concluir. A tecnologia poderá igualmente fornecer às equipas de busca e salvamento informação sobre quem necessita de apoio, onde se encontra e qual o tipo de assistência necessária.

O benefício potencial é particularmente relevante num país com mais de 2.700 quilómetros de costa, grandes bacias hidrográficas e extensas comunidades rurais expostas a ciclones, secas, cheias e inundações.

De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres, Moçambique é especialmente vulnerável a cheias, secas e ciclones tropicais, em parte devido à sua localização costeira. Mais de 90% dos desastres que afectam a região estão relacionados com fenómenos climáticos. (undrr.org)

Primeira Capacidade Nacional Certificada

O projecto formou uma primeira geração de 30 operadores certificados, incluindo dez profissionais preparados para desempenhar funções de instrutores. A criação desta capacidade interna reduz a dependência de especialistas estrangeiros e abre espaço para a formação de novos operadores nas instituições nacionais.

A iniciativa, lançada em Abril de 2025, foi financiada pelo Fundo Fiduciário de Cooperação Económica Coreia-África, gerido pelo Banco Africano de Desenvolvimento, e implementada com apoio técnico da agência sul-coreana Busan Technopark.

O investimento foi estimado em 967 mil dólares e incluiu a criação de um centro de formação, a disponibilização de nove drones e o desenvolvimento de um sistema de monitoria para cinco zonas consideradas particularmente expostas ao risco de inundações. (afdb.org)

A componente de formação é, neste contexto, tão importante quanto a aquisição dos equipamentos. Drones sem operadores qualificados, procedimentos operacionais e capacidade para interpretar os dados recolhidos teriam um impacto limitado na redução do risco de desastres.

O projecto foi concebido para permitir a transferência de tecnologia e conhecimento para as instituições moçambicanas, procurando assegurar autonomia nacional na operação dos sistemas durante pelo menos três anos, desde que sejam garantidos os necessários acordos de assistência e fornecimento. (furtherafrica.com)

Tecnologia Já Foi Testada Durante as Cheias

A utilidade operacional dos equipamentos começou a ser testada antes mesmo da conclusão formal do projecto.

Durante as cheias registadas no início de 2026, equipas nacionais, acompanhadas por especialistas coreanos, utilizaram drones para captar imagens aéreas, avaliar danos e apoiar as operações de resposta nas áreas afectadas.

Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento, esta intervenção demonstrou que a tecnologia pode fornecer uma visão mais rápida e detalhada das zonas inundadas, permitindo às autoridades avaliar a extensão dos danos sem depender exclusivamente de inspecções terrestres. (afdb.org)

Esta experiência ganha relevância num contexto em que as cheias do início do ano afectaram comunidades, infra-estruturas de transporte, áreas agrícolas e serviços públicos no Sul e Centro do País. Os acontecimentos voltaram a demonstrar que, durante uma emergência, a falta de informação actualizada pode atrasar o socorro e aumentar as perdas humanas e económicas.

Os drones podem ajudar a preencher essa lacuna, mas não substituem os sistemas meteorológicos, as redes de comunicação, os centros de operações de emergência ou as estruturas comunitárias. Funcionam como uma componente adicional de um sistema mais amplo de prevenção, alerta e resposta.

Integração Com o Sistema Nacional de Aviso Prévio

O maior potencial do projecto será alcançado quando os dados captados pelos drones forem integrados com informações meteorológicas, hidrológicas, geográficas e populacionais.

Moçambique modernizou, em Setembro de 2025, a sua Sala Nacional de Situação para Aviso Prévio Multirriscos, instalada no Centro Nacional Operativo de Emergência do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres.

A estrutura reúne intervenientes como o Instituto Nacional de Meteorologia, a Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos, o INGD e a Cruz Vermelha de Moçambique, procurando fortalecer a coordenação institucional e a análise conjunta dos riscos. (undrr.org)

É neste sistema que os drones deverão ser incorporados. As imagens recolhidas no terreno terão maior valor quando cruzadas com previsões meteorológicas, níveis dos rios, mapas de vulnerabilidade, densidade populacional, localização de escolas, unidades sanitárias, estradas e centros de acomodação.

Mais do que visualizar uma área inundada, as autoridades precisam de saber quantas pessoas estão expostas, quais as infra-estruturas ameaçadas, que vias continuam transitáveis e onde devem ser colocados os recursos disponíveis.

A tecnologia deverá, por isso, ser acompanhada por plataformas de processamento, cartografia digital, inteligência artificial e protocolos que permitam partilhar rapidamente a informação entre as diferentes instituições.

O Desafio Começa Depois da Graduação

A conclusão do projecto não significa que o sistema esteja definitivamente consolidado. Pelo contrário, abre uma fase mais exigente: transformar uma iniciativa financiada por parceiros numa capacidade pública permanente.

A operação de drones envolve custos recorrentes com baterias, peças de substituição, armazenamento de dados, actualização de software, seguros, licenciamento, conectividade e formação contínua dos operadores.

Os equipamentos também podem tornar-se rapidamente desactualizados, sobretudo quando expostos a condições exigentes de chuva, vento, humidade, poeira e altas temperaturas.

A própria Primeira-Ministra apelou aos novos pilotos para que preservem os equipamentos, actuem com disciplina e responsabilidade e mantenham os seus conhecimentos permanentemente actualizados.

O Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres assinala igualmente que a sustentabilidade desta tecnologia depende do reforço das dotações públicas, da existência de normas aeronáuticas adequadas e da definição de regras sobre utilização e protecção dos dados recolhidos. (undrr.org)

Estas questões serão decisivas. A utilização de drones sobre comunidades, residências e infra-estruturas exige regras claras sobre autorização de voo, segurança, armazenamento de imagens, privacidade e acesso institucional aos dados.

Um Investimento Pequeno Face ao Custo das Calamidades

O investimento de aproximadamente 967 mil dólares é relativamente reduzido quando comparado com os prejuízos económicos provocados por uma única cheia ou por um ciclone de grande intensidade.

As calamidades afectam estradas, pontes, escolas, hospitais, redes eléctricas, sistemas de abastecimento de água, habitações, áreas agrícolas e corredores logísticos. Para além das despesas imediatas com assistência humanitária, o Estado enfrenta posteriormente custos elevados de reconstrução e recuperação.

O Banco Mundial estima que Moçambique necessitará de cerca de 37,2 mil milhões de dólares em investimentos até 2030 para fortalecer a resiliência do capital humano, físico e natural. Sem medidas significativas de adaptação, as alterações climáticas poderão empurrar mais 1,6 milhão de pessoas para a pobreza até 2050, no cenário climático mais adverso. (worldbank.org)

Neste quadro, a utilização de drones deve ser vista como parte de um investimento mais amplo em prevenção. Quanto mais cedo forem identificadas as comunidades, infra-estruturas e actividades económicas ameaçadas, maior será a possibilidade de reduzir perdas e orientar os recursos para as áreas prioritárias.

Do Projecto-Piloto a Uma Capacidade Permanente

O encerramento do primeiro projecto representa, assim, menos um ponto de chegada do que o início de uma nova etapa.

O País terá de decidir como distribuir os operadores pelas instituições e províncias, onde posicionar os equipamentos, como financiar a sua manutenção e de que forma integrar as operações com o INGD, o Instituto Nacional de Meteorologia, os municípios, os sectores de saúde, agricultura, águas, transportes e defesa civil.

Será igualmente necessário medir resultados. O sucesso não deverá ser avaliado apenas pelo número de pilotos formados ou de drones adquiridos, mas pelo tempo reduzido na avaliação de danos, pelo número de comunidades identificadas e assistidas, pela melhoria das evacuações e pela diminuição das perdas humanas e económicas.

A criação de uma capacidade nacional de drones poderá ainda abrir oportunidades para universidades, empresas tecnológicas e jovens especializados em cartografia, programação, inteligência artificial, engenharia e análise de dados.

O verdadeiro avanço ocorrerá quando esta tecnologia deixar de funcionar como um projecto isolado e passar a integrar, de forma permanente, o sistema nacional de gestão do risco de desastres. Só então os drones poderão cumprir plenamente a promessa anunciada na cerimónia: colocar dados mais rápidos, precisos e úteis ao serviço da protecção da vida humana e da resiliência económica de Moçambique.