
Paralisação da Mozal Já Gera Mais De US$100 Milhões Em Encargos E Reabre A Disputa Pelo Futuro Da Maior Indústria Do País
- Produção caiu 30% no exercício de 2026, vendas recuaram 22% e a fábrica terminou o último trimestre sem produzir alumínio. Enquanto a South32 absorve indemnizações e perdas contabilísticas, a IDC avalia a aquisição da participação maioritária e procura uma nova solução energética para reactivar o complexo
Questões – Chave
- South32 estima em mais de US$100 milhões os encargos extraordinários associados à paralisação da Mozal, incluindo indemnizações, rescisões contratuais e perdas contabilísticas sobre matérias-primas e inventários.
- A produção de alumínio caiu 30%, para 248 mil toneladas, enquanto as vendas recuaram 22%, para 275 mil toneladas, no exercício financeiro terminado em Junho de 2026.
- Entre Abril e Junho, a fábrica não produziu qualquer tonelada de alumínio, dependendo exclusivamente da venda de 46 mil toneladas remanescentes em inventário.
- A retoma permanece condicionada à obtenção de cerca de 950 megawatts de energia contínua a uma tarifa compatível com a competitividade internacional da indústria do alumínio.
- A Industrial Development Corporation da África do Sul avalia a aquisição da participação maioritária da South32 e diferentes soluções energéticas, accionistas e operacionais para viabilizar a reactivação.
- A paralisação coloca sob pressão uma das maiores fontes de exportações, divisas, emprego industrial e procura de bens e serviços fornecidos por empresas moçambicanas.
A paralisação da Mozal deixou de ser apenas uma ameaça à produção industrial moçambicana para se transformar num custo financeiro efectivo, numa perda de capacidade exportadora e numa decisão estratégica ainda sem desfecho sobre o futuro do maior complexo industrial do País.
O relatório trimestral da South32, referente ao exercício terminado a 30 de Junho de 2026, mostra que a suspensão das operações da fábrica de alumínio, colocada em regime de conservação e manutenção desde 15 de Março, deverá produzir encargos extraordinários superiores a US$100 milhões.
A paralisação da Mozal deixou de ser apenas uma ameaça à produção industrial moçambicana para se transformar num custo financeiro efectivo, numa perda de capacidade exportadora e numa decisão estratégica ainda sem desfecho sobre o futuro do maior complexo industrial do País.
O relatório trimestral da South32, referente ao exercício terminado a 30 de Junho de 2026, mostra que a suspensão das operações da fábrica de alumínio, colocada em regime de conservação e manutenção desde 15 de Março, deverá produzir encargos extraordinários superiores a US$100 milhões.
A informação de base da Lusa estima estes custos em US$117 milhões, equivalentes a cerca de €104 milhões. O relatório individualiza, porém, duas rubricas distintas: aproximadamente US$33 milhões relacionados com indemnizações aos trabalhadores e rescisões de contratos, e US$89 milhões em reduções contabilísticas do valor de matérias-primas, consumíveis e existências. As duas componentes totalizam US$122 milhões, embora parte significativa corresponda a perdas contabilísticas e não a uma saída imediata de caixa.
Esta distinção é importante. A paralisação obriga a South32 a suportar custos directos associados ao desligamento da operação, mas também a reconhecer que determinados materiais e inventários já não possuem o mesmo valor económico depois de a produção ter sido interrompida.
O impacto ultrapassa, deste modo, o custo físico de manter a instalação encerrada. Reflecte igualmente a destruição de valor causada pela impossibilidade de utilizar activos, trabalhadores, contratos e matérias-primas numa operação contínua.
Último Trimestre Terminou Sem Produção
A Mozal produziu 248 mil toneladas de alumínio durante o exercício financeiro de 2026, uma redução de 30% relativamente às 355 mil toneladas registadas no exercício anterior.
As vendas diminuíram 22%, passando de 351 mil para 275 mil toneladas. Entre Abril e Junho, primeiro trimestre integral depois da suspensão, a fábrica não produziu qualquer tonelada de alumínio e limitou-se a vender 46 mil toneladas remanescentes nos seus inventários.
A ausência completa de produção no último trimestre mostra que a redução anual não resultou de uma simples desaceleração operacional. Representa a retirada efectiva de uma das maiores unidades de produção de alumínio do continente africano.
A fábrica não foi formalmente desmantelada. Encontra-se em regime de conservação e manutenção, uma situação concebida para proteger os equipamentos e preservar, tecnicamente, a possibilidade de uma futura retoma. Contudo, quanto mais prolongado for o período de inactividade, maiores poderão ser as exigências financeiras, operacionais e laborais para um eventual reinício.
A South32 tinha estimado inicialmente em cerca de US$60 milhões os custos directos de colocação da Mozal neste regime, incluindo indemnizações e terminação de contratos. A companhia previa ainda aproximadamente US$5 milhões anuais para conservar a instalação sem produção. Os novos dados mostram que, quando se acrescentam os ajustamentos contabilísticos sobre existências e materiais, a dimensão financeira da paralisação é substancialmente superior.
Uma Crise De Energia, Não De Mercado Ou Tecnologia
A suspensão da Mozal não foi determinada por falta de procura internacional de alumínio, incapacidade técnica da fábrica ou esgotamento das matérias-primas.
No concurso lançado em Junho para contratar assessores independentes, a Industrial Development Corporation da África do Sul, IDC, classifica expressamente o problema como uma situação de “inviabilidade estrutural” provocada pelas condições de preço e contratação da electricidade, e não por uma falha técnica ou comercial da operação.
Segundo a IDC, qualquer decisão de reactivar a Mozal terá de ser acompanhada por uma solução de fornecimento eléctrico que seja simultaneamente estável, sustentável e competitiva no longo prazo.
A produção de alumínio por electrólise é uma das actividades industriais mais intensivas em energia. A Mozal necessita de aproximadamente 950 megawatts de fornecimento contínuo, correspondente a uma carga de base que não pode ser interrompida sem riscos operacionais significativos.
A energia representa perto de um terço da estrutura de custos da fábrica. Por essa razão, uma diferença aparentemente pequena no preço por megawatt-hora pode determinar se a produção é internacionalmente competitiva ou financeiramente inviável.
A South32 sustentava que a Mozal necessitava de um preço próximo de US$51 por megawatt-hora. Segundo declarações do então director-executivo Graham Kerr, a única proposta formal disponível aproximava-se de US$100 por megawatt-hora, praticamente o dobro do nível que a empresa considerava sustentável. A companhia argumentou que, fora da China, menos de 1% das fundições de alumínio operava com tarifas superiores a US$50 por megawatt-hora.
O acordo anterior permitia que a electricidade produzida pela Hidroeléctrica de Cahora Bassa fosse encaminhada através da rede da Eskom, na África do Sul, antes de regressar a Moçambique para abastecer a Mozal. Esse contrato expirou em Março de 2026, depois de vários anos de negociações sem que as partes encontrassem uma nova fórmula de preço e disponibilidade.
As restrições associadas à seca e à disponibilidade regional de energia tornaram o problema mais complexo. Para a South32, não bastava assegurar electricidade: era necessário obtê-la em volume permanente e a um custo que permitisse competir com fundições localizadas na China, Médio Oriente, Canadá, Rússia e outros centros de produção.
Exportações De US$1,347 Mil Milhões Ficam Sem A Sua Única Fonte
A importância da Mozal para a economia nacional tornou-se particularmente visível nos meses anteriores à sua paralisação.
Dados do Banco de Moçambique, compilados pela Lusa, indicam que as exportações moçambicanas de alumínio alcançaram o recorde de US$1,347 mil milhões em 2025, um crescimento de 20% relativamente aos US$1,126 mil milhões registados em 2024. Toda esta receita exportadora estava associada à produção da Mozal.
O encerramento da produção elimina, portanto, uma das maiores fontes individuais de receitas de exportação do País. O impacto não deverá ser observado apenas na indústria transformadora, mas também na balança comercial, na disponibilidade de moeda externa, na actividade portuária e na procura de serviços fornecidos por empresas nacionais.
Em condições normais, as exportações de alumínio geravam uma entrada bruta expressiva de divisas. Uma parte desses recursos era posteriormente utilizada para importar alumina, coque, breu, equipamentos e outros factores necessários ao funcionamento da fábrica. Ainda assim, a interrupção reduz simultaneamente exportações, importações industriais, pagamentos a fornecedores e circulação financeira ao longo da cadeia.
A ausência da Mozal não significa que Moçambique perderá automaticamente US$1,347 mil milhões líquidos por ano, porque a operação possuía uma elevada componente importada. Significa, porém, que desaparece um fluxo comercial de grande escala, com consequências sobre a estrutura das exportações e o peso da indústria transformadora na economia.
A direcção da MozParks estimou anteriormente que a Mozal representava, em média, cerca de 49% da contribuição da indústria transformadora para o Produto Interno Bruto. A mesma entidade identificou aproximadamente 25 empresas que forneciam directamente bens e serviços à fábrica, várias das quais começaram a reduzir ou suspender operações ainda antes da paralisação.
O Custo Social Estende-Se Para Além Dos Portões Da Fábrica
A Mozal empregava mais de quatro mil trabalhadores de forma directa e indirecta, incluindo pessoal próprio, prestadores de serviços, fornecedores e trabalhadores ligados às operações logísticas.
As indemnizações e terminações contratuais reconhecidas pela South32 representam apenas a parte mais directamente mensurável deste impacto. A cadeia de efeitos inclui empresas de manutenção, transporte, alimentação, segurança, engenharia, limpeza industrial, construção, armazenagem, serviços portuários e fornecimento de equipamentos.
A redução da actividade afecta igualmente o Parque Industrial de Beluluane, que se desenvolveu durante mais de duas décadas em torno da presença da Mozal e da procura industrial gerada pela fábrica.
O risco não reside apenas no encerramento de empresas dependentes de um único cliente. A retirada da principal âncora do parque pode reduzir a atractividade do local para novos investidores, enfraquecer economias de escala e deixar infra-estruturas concebidas para grandes volumes com menor utilização.
Esta situação expõe uma vulnerabilidade recorrente das economias organizadas em torno de megaprojectos. Uma única operação pode elevar rapidamente as exportações, a produção industrial e o investimento, mas também concentrar riscos significativos quando os fornecedores, empregos e infra-estruturas dependem excessivamente do mesmo empreendimento.
IDC Avalia Compra Da Participação Maioritária
A paralisação não encerrou definitivamente a discussão sobre a Mozal. Pelo contrário, abriu uma nova disputa sobre a estrutura accionista, o modelo de operação e as fontes futuras de energia.
A South32 controla 63,7% da empresa, enquanto a IDC sul-africana possui 32,48% e o Estado moçambicano detém aproximadamente 3,9%.
Em Junho, a IDC lançou um concurso para contratar um assessor comercial e técnico independente, com a missão de avaliar se a Mozal pode ser adquirida e reconduzida a uma operação sustentável.
Os termos de referência mostram que a instituição está a estudar várias possibilidades. Entre elas encontram-se a aquisição da participação maioritária da South32, através do exercício de direitos de preferência ou de uma proposta de compra; a entrada de novos parceiros estratégicos; a criação de uma estrutura accionista alternativa; ou a alienação parcial ou total da própria participação da IDC.
A análise deverá abranger a condição técnica da fábrica, o custo do reinício, a contratação de trabalhadores, o fornecimento de alumina, coque e breu, as responsabilidades ambientais e laborais, a avaliação financeira e a posição competitiva da Mozal no mercado internacional.
A IDC exige ainda um plano empresarial capaz de demonstrar que a fábrica pode regressar à produção de forma comercialmente viável. O trabalho deverá ser concluído em aproximadamente oito semanas após a contratação do assessor, com uma avaliação preliminar dos principais riscos ao fim das primeiras quatro semanas.
O lançamento deste processo não representa uma decisão de aquisição. Mostra, contudo, que um dos principais accionistas considera a fábrica suficientemente estratégica para avaliar uma intervenção de grande dimensão.
Energia A Gás, Renováveis E Novos Modelos Entram Na Avaliação
O concurso da IDC revela que a futura solução energética poderá ser substancialmente diferente do modelo utilizado durante os primeiros 25 anos da Mozal.
Os consultores deverão avaliar fornecimentos temporários, energia proveniente da rede, produção própria, transporte de electricidade através de redes de terceiros, soluções renováveis e modelos híbridos.
O documento menciona igualmente a possibilidade de uma central de produção de electricidade a partir de gás localizada junto da Mozal. A análise deverá determinar a viabilidade técnica, os custos, os prazos, as licenças e a distribuição dos riscos associados a essa alternativa.
A inclusão do gás mostra que a reactivação da fábrica pode ser associada a uma discussão mais ampla sobre a industrialização dos recursos energéticos de Moçambique.
Uma central dedicada poderia reduzir a dependência de negociações regionais e oferecer maior previsibilidade de fornecimento. Todavia, exigiria investimento elevado, contratos de gás de longa duração, infra-estruturas de transporte e uma tarifa final compatível com o mercado internacional de alumínio.
As energias solar e eólica podem integrar uma solução híbrida, mas a Mozal necessita de electricidade permanente durante 24 horas por dia. Fontes intermitentes, quando utilizadas isoladamente, não asseguram a carga contínua necessária. Seriam indispensáveis capacidade de reserva, armazenamento, energia hidroeléctrica ou uma central térmica complementar.
A discussão deixa, assim, de se resumir à procura de uma tarifa reduzida. Passa a envolver a construção de um sistema energético que consiga conciliar disponibilidade contínua, competitividade, segurança, sustentabilidade ambiental e retorno do investimento.
Exclusão Da Venda À Alcoa Reforça A Incerteza
A South32 anunciou, no início de Julho, a venda de grande parte do seu portefólio mundial de alumínio e alumina à norte-americana Alcoa, numa transacção avaliada em até US$5,6 mil milhões.
O acordo inclui activos na Austrália, África do Sul e Brasil, mas exclui a Mozal. A Reuters explicou que a fábrica moçambicana ficou fora da operação devido à inexistência de uma solução suficiente e acessível para o fornecimento de electricidade.
A exclusão possui duas leituras.
Por um lado, evita que o destino da Mozal seja automaticamente incorporado numa transacção global em que os problemas específicos de Moçambique poderiam receber menor atenção. Por outro, deixa a fábrica isolada numa South32 que está a reduzir a sua exposição ao alumínio e a concentrar-se progressivamente em cobre e outros metais básicos.
A Mozal permanece sob controlo da South32, mas a empresa afirma estar a avaliar diferentes opções estratégicas. A ausência de produção, os custos de conservação e a reorientação do grupo aumentam a probabilidade de uma alteração accionista, desde que exista um comprador ou parceiro disposto a assumir os riscos energéticos e financeiros.
A Aquisição Não Resolveria Sozinha O Problema
Uma eventual compra da posição da South32 pela IDC ou por outro investidor não seria suficiente para garantir a reactivação da Mozal.
A propriedade accionista pode mudar, mas o consumo de 950 megawatts, a exposição ao preço do alumínio, a necessidade de importar matérias-primas e os custos de manutenção permanecerão.
O principal activo da Mozal é uma fábrica existente, com infra-estruturas, experiência operacional, acesso portuário e mão-de-obra que durante décadas demonstrou capacidade para produzir alumínio em grande escala. O seu principal passivo é a ausência de uma fonte de energia compatível com a estrutura de custos da indústria.
Qualquer novo investidor terá, portanto, de responder a três questões fundamentais: quem fornecerá a electricidade, a que preço e durante quanto tempo.
Uma tarifa artificialmente reduzida, suportada pelo Estado ou por outras classes de consumidores, poderia manter a fábrica em funcionamento, mas transferiria o custo económico para as finanças públicas, para a empresa eléctrica ou para outros utilizadores.
Uma tarifa puramente comercial, próxima dos US$100 por megawatt-hora referidos pela South32, poderá tornar a operação incapaz de competir internacionalmente.
A solução terá de resultar de uma combinação entre energia de custo reduzido, contratos de longo prazo, melhoria da eficiência operacional, eventual participação pública e privada nos investimentos energéticos e repartição equilibrada dos riscos.
O Futuro Da Mozal Tornou-Se Uma Decisão De Política Industrial
A paralisação da Mozal levanta uma questão que ultrapassa a negociação entre accionistas e fornecedores de energia: qual deve ser a posição do Estado perante uma instalação industrial que gera grandes exportações e emprego, mas exige volumes extraordinários de electricidade a preços reduzidos?
A resposta não deve basear-se apenas no valor bruto das exportações. É necessário comparar os benefícios económicos nacionais com o custo de oportunidade da electricidade, os incentivos fiscais, as importações de matérias-primas, as receitas públicas, os empregos, as compras locais e os efeitos sobre outras empresas.
Também será necessário avaliar o que aconteceria com os 950 megawatts caso a Mozal não retomasse a produção. Essa energia poderia apoiar novas indústrias, exportações regionais, electrificação doméstica ou outros projectos, mas a sua simples disponibilidade não garante que apareçam imediatamente consumidores capazes de gerar um impacto económico comparável.
A decisão envolve, por isso, um problema de afectação de recursos escassos. Moçambique precisa de determinar se a reactivação da Mozal continua a ser a utilização industrial mais produtiva para uma quantidade tão elevada de energia, e em que condições essa escolha beneficia efectivamente a economia nacional.
Mais De US$100 Milhões Medem Apenas O Primeiro Impacto
Os encargos reconhecidos pela South32 constituem o primeiro balanço financeiro concreto da suspensão, mas ainda não medem o custo completo para Moçambique.
As perdas acumuladas dependerão da duração da paralisação, da sobrevivência dos fornecedores, da evolução das exportações, do tratamento dos trabalhadores e da capacidade de encontrar um novo modelo energético e accionista.
A possibilidade de a IDC adquirir a participação maioritária mostra que o futuro da fábrica permanece em aberto. Todavia, a própria abrangência da avaliação — que inclui energia, finanças, ambiente, matérias-primas, governação, parceiros e mercado internacional — evidencia a complexidade da reactivação.
A Mozal não deixou de produzir por falta de alumínio para vender. Deixou de produzir porque o preço da electricidade rompeu a relação entre escala industrial e competitividade.
O futuro do empreendimento, ao que indica, passará pela capacidade de reconstruir essa relação económica. Sem uma solução energética credível, a fábrica permanecerá um activo industrial de grande dimensão, mas sem produção. Com uma solução competitiva e transparente, poderá voltar a desempenhar um papel central nas exportações, no emprego e na industrialização do País.
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