Países Menos Desenvolvidos Captam Apenas 0,6% Das Exportações Mundiais De Serviços

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  • Relatório da UNCTAD mostra que os serviços digitais já representam 56% das exportações globais do sector, mas apenas 16% das vendas externas dos países menos desenvolvidos. Conectividade cara, pagamentos internacionais, competências e regras fragmentadas ampliam a distância.
Questões-Chave:
  • Serviços representaram 71% dos insumos intermédios utilizados na produção mundial em 2022;
  • Participação do sector nas exportações globais aumentou de 23% em 2015 para 27% em 2025;
  • Exportações mundiais de serviços cresceram, em média, 6,7% por ano na última década;
  • Serviços fornecidos digitalmente avançaram 7,1% ao ano e representam 56% das exportações do sector;
  • Países menos desenvolvidos detêm apenas 0,6% das exportações mundiais de serviços;
  • Serviços digitais correspondem a 61% das exportações do sector nas economias desenvolvidas, contra 16% nos países menos desenvolvidos;
  • Apenas um terço dos países em desenvolvimento dispõe de estratégias nacionais de inteligência artificial;

Os países menos desenvolvidos detêm apenas 0,6% das exportações mundiais de serviços e continuam a perder espaço no segmento que mais rapidamente cresce no comércio internacional: os serviços fornecidos através de redes digitais.

A conclusão consta da edição de Setembro de 2026 do Global Trade Update, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), dedicada ao papel dos serviços na transformação do comércio mundial.

Segundo o relatório, as exportações globais de serviços cresceram, em média, 6,7% por ano durante a última década, superando o comércio de bens. Só em 2025, o crescimento atingiu 8,3%.

Os serviços fornecidos digitalmente registaram uma expansão ainda mais rápida, de 7,1% ao ano, e passaram a representar 56% das exportações mundiais do sector.

Os países menos desenvolvidos, contudo, registaram um crescimento médio anual de apenas 3%. A sua participação no comércio mundial de serviços, que já se situava abaixo de 1% em 2010, caiu para 0,6% em 2025.

Serviços Tornam-se Parte Da Produção

O peso económico dos serviços já não pode ser medido apenas pela participação directa do sector no Produto Interno Bruto ou no emprego.

Logística, finanças, seguros, desenho, investigação, armazenamento, telecomunicações, programação, gestão de dados, marketing e manutenção estão incorporados na produção e exportação de bens agrícolas e industriais.

Em 2022, os serviços representaram 71% dos insumos intermédios utilizados na produção mundial. A proporção atingiu 78% nas economias desenvolvidas, 61% nos países em desenvolvimento e 58% nos países menos desenvolvidos.

A UNCTAD designa esta evolução por “servicificação”: o uso crescente de serviços como componentes da produção em todos os sectores.

Uma empresa industrial, por exemplo, não depende apenas de matérias-primas e máquinas. Precisa de financiamento, logística, sistemas informáticos, engenharia, investigação, controlo de qualidade, comunicações, marketing e assistência pós-venda.

A qualidade, o custo e a disponibilidade destes serviços influenciam directamente a produtividade e a capacidade das empresas de integrarem cadeias de valor internacionais.

Conteúdo De Serviços Nas Exportações Mantém Grande Diferença

Nas economias desenvolvidas, os serviços representam 33% dos insumos incorporados nas exportações de bens industriais.

A proporção é de 27% nas economias em desenvolvimento e de apenas 13% nos países menos desenvolvidos abrangidos pelos dados disponíveis.

A diferença significa que os países mais avançados conseguem acrescentar uma maior componente de conhecimento, tecnologia e actividades especializadas aos produtos que exportam.

Mesmo quando o bem final é agrícola ou industrial, parte relevante do valor resulta de serviços associados ao desenho, certificação, propriedade intelectual, finanças, logística e gestão da cadeia de fornecimento.

Nos países menos desenvolvidos, as exportações continuam mais concentradas em matérias-primas e produtos com reduzida transformação, o que limita o valor acrescentado retido internamente.

Comércio Digital Avança A Duas Velocidades

Os serviços fornecidos digitalmente incluem actividades que podem ser prestadas internacionalmente através de redes informáticas.

Entre elas encontram-se serviços financeiros e de seguros, telecomunicações, informática, investigação e desenvolvimento, consultoria, engenharia, arquitectura, actividades audiovisuais, educação, saúde e gestão da propriedade intelectual.

Nas economias desenvolvidas, estes serviços representam cerca de 61% das exportações totais do sector. Nos países menos desenvolvidos, a proporção limita-se a 16%.

A diferença não decorre apenas da conectividade. Reflecte também estruturas exportadoras distintas.

Enquanto as economias avançadas se especializaram em serviços intensivos em conhecimento e tecnologia, os países menos desenvolvidos continuam dependentes de actividades tradicionais, como transportes e viagens.

O resultado é uma participação reduzida no segmento com maior crescimento, maior capacidade de gerar empregos qualificados e menores custos de transporte físico.

Pagamentos Excluem Empresas Dos Mercados Globais

Uma empresa pode possuir profissionais qualificados e encontrar clientes no exterior, mas continuará impedida de exportar se não conseguir receber pagamentos de forma rápida, segura e economicamente viável.

A UNCTAD identifica os custos das transferências internacionais, a baixa interoperabilidade entre sistemas e a indisponibilidade de algumas plataformas para contas bancárias locais como obstáculos particularmente relevantes para as micro, pequenas e médias empresas e para os trabalhadores independentes.

Metade dos países com os custos mais elevados de envio de remessas pertence ao grupo dos países menos desenvolvidos.

A estas limitações juntam-se preocupações com fraudes, reembolsos e mecanismos de resolução de conflitos, que reduzem a confiança nas transacções digitais internacionais.

Em África, a utilização de dinheiro móvel pela população adulta aumentou de cerca de 27% em 2021 para aproximadamente 40% em 2024. A UNCTAD destaca igualmente o Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidação como instrumento com potencial para reduzir custos transfronteiriços e diminuir a dependência de sistemas de compensação externos.

Inteligência Artificial Pode Fechar Portas De Entrada

A inteligência artificial poderá aumentar a produtividade, acelerar a inovação e reduzir o custo de produção e fornecimento de serviços digitais.

Todavia, as capacidades necessárias para desenvolver e utilizar estes sistemas — infra infra-estruturas digitais, capacidade computacional, dados, financiamento e profissionais altamente qualificados — permanecem concentradas num número reduzido de países e empresas.

O índice de preparação para a inteligência artificial citado pela UNCTAD atribui uma pontuação média de 0,65 às economias desenvolvidas, numa escala entre zero e um. Nos países menos desenvolvidos, a média é de 0,31.

Menos de um terço dos países em desenvolvimento adoptou estratégias nacionais de inteligência artificial.

Além da diferença na adopção tecnológica, existe o risco de automatização de tarefas rotineiras e de menor qualificação, que têm servido como porta de entrada de algumas economias nos mercados mundiais de serviços.

Actividades de processamento de dados, apoio administrativo, transcrição e atendimento ao cliente poderão perder competitividade à medida que a automação se generaliza.

A resposta exige a evolução para competências de maior valor, incluindo programação, análise de dados, cibersegurança, engenharia, gestão tecnológica e aplicação empresarial da inteligência artificial.

Regras Multilaterais Não Acompanharam Transformação

As principais regras multilaterais sobre o comércio de serviços foram concebidas antes da actual economia digital.

O Programa de Trabalho sobre Comércio Electrónico da Organização Mundial do Comércio foi criado em 1998, mas produziu esclarecimentos limitados sobre a aplicação das regras existentes aos novos modelos digitais.

A 14.ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio, realizada em Março de 2026, não alcançou consenso sobre a prorrogação da moratória que impedia a aplicação de direitos aduaneiros às transmissões electrónicas, levando à sua expiração.

Paralelamente, a definição das regras digitais deslocou-se para acordos bilaterais, regionais e plurilaterais.

Dos 487 acordos comerciais preferenciais assinados entre 2000 e 2025, cerca de 55% contêm disposições sobre comércio electrónico ou digital, 39% incluem excepções relacionadas com o comércio digital e 38% abordam a protecção de dados pessoais.

A multiplicação destes instrumentos criou regimes diferentes para fluxos de dados, localização de servidores, assinaturas electrónicas, privacidade, cibersegurança e protecção dos consumidores.

Para empresas pequenas, o cumprimento de regras distintas em vários mercados pode tornar-se financeiramente incomportável.

África Participa De Forma Desigual Na Definição Das Regras

Desde 2020, cerca de 90% dos países desenvolvidos participaram em acordos preferenciais com disposições sobre comércio digital. A proporção é de 62% entre os países em desenvolvimento e de 66% entre os países menos desenvolvidos.

Apesar desta evolução, muitos países africanos continuam ausentes dos principais processos de formulação das novas regras.

A participação não deve ser medida apenas pela adesão a acordos. Exige capacidade técnica para avaliar os efeitos das obrigações sobre dados, tributação, concorrência, propriedade intelectual e desenvolvimento das empresas nacionais.

Compromissos demasiado avançados, assumidos sem infra-estruturas ou capacidade regulatória compatíveis, podem limitar o espaço para políticas públicas. Em contrapartida, regras excessivamente restritivas podem afastar investimento e impedir o acesso das empresas aos mercados internacionais.

A UNCTAD defende maior transparência, cooperação regulatória e interoperabilidade, acompanhadas pelo fortalecimento da capacidade negocial dos países em desenvolvimento.

Moçambique Precisa De Tornar Serviços Visíveis

Para Moçambique, uma primeira limitação está na insuficiência de dados sobre o comércio de serviços.

Sem informação desagregada por actividade, mercado, parceiro comercial e modalidade de fornecimento, torna-se difícil identificar quais serviços o País já exporta, onde existem vantagens competitivas e que obstáculos impedem o crescimento.

Parte dos serviços encontra-se igualmente incorporada nas exportações de bens, mas não é contabilizada de forma suficientemente visível.

O desenvolvimento de uma estratégia nacional deverá começar pela medição dos serviços associados à logística, transportes, finanças, turismo, engenharia, consultoria, telecomunicações, produção audiovisual, educação e tecnologia.

A utilização de dados fiscais, inquéritos empresariais e informação do sistema financeiro pode ajudar a construir uma visão mais completa da contribuição do sector.

Uma Nova Agenda Para A Competitividade

A UNCTAD identifica três prioridades: melhorar as estatísticas do comércio de serviços; fortalecer a conectividade, os sistemas de pagamentos, a identificação digital e as competências; e ampliar a participação dos países em desenvolvimento na definição das regras internacionais.

Para Moçambique, estas prioridades precisam de ser articuladas com a formação profissional, a transformação digital das empresas e a diversificação das exportações.

A oportunidade não se limita à criação de empresas tecnológicas. Serviços mais eficientes podem aumentar a competitividade da agricultura, indústria, mineração, logística e demais sectores produtivos.

A capacidade de captar o crescimento do comércio mundial dependerá da qualidade das telecomunicações, da possibilidade de receber pagamentos internacionais, da protecção da propriedade intelectual, da disponibilidade de competências e da existência de regras previsíveis.

Os serviços estão a transformar a produção e o comércio. A posição de cada economia será determinada pela sua capacidade de converter conectividade e conhecimento em empresas exportadoras, empregos qualificados e valor acrescentado nacional.

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