Portugal Prepara Pólos De Formação Para Jovens Agricultores Moçambicanos

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A iniciativa da Associação dos Jovens Agricultores de Portugal pretende combinar formação teórica, aprendizagem prática e transferência de tecnologia, mas a sua contribuição para a transformação agrária dependerá da ligação dos futuros centros à produção, financiamento, agro-indústria e acesso aos mercados.

Formação Entra No Centro Da Cooperação Agro-Alimentar

A Associação dos Jovens Agricultores de Portugal, AJAP, anunciou a preparação de pólos de formação agrícola em Moçambique, destinados a capacitar jovens produtores e facilitar a transferência de conhecimento, tecnologia e inovação para o sector agrário nacional.

O anúncio foi feito na quarta-feira, 30 de Julho, em Maputo, pelo presidente da organização, Henrique Ferreira, durante a abertura do Fórum Agro-Alimentar “Go To Market”.

“A ideia é termos pólos para formar jovens, trazendo os nossos técnicos para partilhar conhecimento, tecnologia e inovação”, afirmou o responsável, indicando que a iniciativa pretende intensificar a cooperação entre agricultores jovens dos dois países.

A direcção da AJAP aprovou recentemente um projecto para a instalação de um centro de formação em Moçambique, concebido para articular ensino teórico e aprendizagem prática. A associação pretende mobilizar técnicos e formadores portugueses para transmitirem competências adaptáveis às condições da agricultura moçambicana.

“Temos os nossos formadores que querem estar presentes, que querem formar”, declarou Henrique Ferreira, manifestando a disponibilidade da instituição para apoiar o desenvolvimento das capacidades dos jovens produtores nacionais.

Juventude Agrícola Precisa De Competências Empresariais

A formação pode responder a um dos principais constrangimentos estruturais do sector: a distância entre a actividade agrícola de subsistência e uma agricultura organizada como negócio, com planeamento da produção, controlo de custos, gestão da qualidade e acesso regular aos mercados.

Moçambique deverá contar, em 2026, com cerca de 35 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 65% vivem nas zonas rurais, segundo as projecções do Instituto Nacional de Estatística. A dimensão da população rural torna a agricultura decisiva para a criação de rendimento, emprego e oportunidades para uma população maioritariamente jovem. 

O Banco Mundial estima que o sector absorve mais de 70% dos trabalhadores moçambicanos, mas continua marcado por baixa produtividade, reduzido investimento e elevada exposição aos choques climáticos. A agricultura representa igualmente cerca de um quarto da produção económica nacional. (

Neste contexto, a formação dos jovens agricultores não poderá restringir-se às técnicas de cultivo. Terá de incluir gestão empresarial, mecanização adequada, sistemas de irrigação, conservação dos solos, utilização de sementes melhoradas, adaptação climática, comercialização, transformação e literacia financeira.

A passagem de produtor para empresário agrícola exige também capacidade para interpretar a procura, calcular margens, negociar contratos, cumprir padrões sanitários e organizar a produção em função das necessidades das empresas transformadoras e dos mercados.

Aprendizagem Prática Pode Reduzir Distância Entre Tecnologia E Produção

A combinação entre teoria e prática poderá constituir um dos elementos mais relevantes do projecto. Em grande parte das zonas rurais, o problema não reside apenas na ausência de tecnologia, mas na dificuldade de adaptar soluções disponíveis às condições concretas dos produtores.

Experiências recentes acompanhadas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO, em Moçambique indicam que escolas de campo podem facilitar a adopção de melhores práticas, o acesso a factores de produção e o fortalecimento de sistemas colectivos de produção. 

Um pólo de formação que funcione simultaneamente como unidade demonstrativa poderá permitir aos jovens testar técnicas de irrigação, novas variedades, modelos de mecanização, conservação pós-colheita e métodos de gestão antes de os aplicarem nas suas próprias explorações.

A utilidade da experiência portuguesa estará, contudo, na capacidade de adaptar os conhecimentos à escala, aos recursos, aos solos, ao clima e às cadeias de valor de Moçambique. A simples reprodução de tecnologias utilizadas em explorações europeias poderá mostrar-se financeiramente inacessível ou inadequada para pequenos produtores nacionais.

O modelo terá de privilegiar soluções economicamente viáveis, de manutenção simples e capazes de gerar aumentos mensuráveis de produtividade e rendimento.

Formação Sem Financiamento Pode Produzir Agricultores Mais Qualificados, Mas Sem Meios

A capacitação técnica representa apenas uma componente da transformação agrária. Depois de formados, os jovens precisarão de terra produtiva, água, sementes, equipamentos, armazenamento, transporte, financiamento e compradores.

A FAO identifica entre os principais desafios dos pequenos produtores moçambicanos o acesso limitado a práticas agrícolas melhoradas, serviços financeiros e mercados confiáveis, factores que mantêm baixa a produção e instáveis os rendimentos das famílias rurais. 

Assim, os futuros pólos terão maior impacto se estiverem associados a mecanismos de crédito, fundos de garantia, fornecedores de equipamentos, empresas de seguros, instituições de investigação, serviços de extensão e operadores das cadeias de comercialização.

Sem essa ligação, existe o risco de formar jovens que compreendem novas tecnologias, mas não dispõem do capital necessário para as adoptar. A formação produziria conhecimento, mas não necessariamente capacidade produtiva.

O desenho do projecto deverá, por isso, responder a questões ainda em aberto: que jovens serão seleccionados, que culturas e cadeias de valor serão priorizadas, como será assegurada a continuidade da assistência técnica e que instrumentos permitirão transformar as competências adquiridas em empreendimentos economicamente sustentáveis.

Agro-Indústria Define O Valor Económico Da Iniciativa

Henrique Ferreira defendeu que o potencial agrícola de Moçambique precisa de ser acompanhado pelo desenvolvimento da agro-indústria, de modo que os produtos sejam transformados localmente e comercializados com maior valor acrescentado.

A observação desloca o debate da quantidade produzida para a estrutura das cadeias de valor. A expansão da produção primária, sem capacidade de conservação, transformação e distribuição, pode aumentar a oferta sem melhorar proporcionalmente o rendimento dos agricultores.

Produtos vendidos em estado bruto geram menor valor, oferecem menos oportunidades de emprego e permanecem mais expostos às oscilações de preços e às perdas pós-colheita. A transformação local permite criar procura mais estável, prolongar a conservação, melhorar a qualidade comercial e desenvolver actividades complementares de embalagem, logística e distribuição.

A formação dos jovens deverá, consequentemente, incorporar uma visão de cadeia de valor. Não basta ensinar a produzir tomate, milho, frutas ou oleaginosas. É necessário compreender quem compra, em que quantidade, com que regularidade, segundo que padrões e a que preço.

Os pólos poderão assumir maior relevância económica se forem instalados junto de zonas de produção e ligados a unidades agro-industriais, corredores logísticos, mercados grossistas e empresas interessadas em estabelecer contratos com produtores locais.

Portugal Procura Transferir Experiência Acumulada Em Quatro Décadas

Com 43 anos de actividade, a AJAP apresenta a sua experiência nas áreas de formação, inovação e promoção do sector agrícola como uma base para apoiar a modernização da agricultura moçambicana.

A intervenção portuguesa poderá abranger matérias como associativismo, certificação, organização empresarial, agricultura de precisão, utilização eficiente da água, acesso a mercados e sucessão geracional nas explorações agrícolas.

Portugal dispõe igualmente de experiência na articulação entre pequenos produtores, cooperativas, agro-indústrias e mecanismos europeus de apoio ao desenvolvimento rural. A sua aplicabilidade em Moçambique dependerá, porém, da adaptação a um contexto institucional, financeiro e produtivo diferente.

O embaixador de Portugal em Moçambique, Jorge Monteiro, considerou que a formação e a transferência de conhecimento são determinantes para o crescimento do sector agro-alimentar moçambicano. O diplomata destacou ainda o papel central da agricultura na economia e a existência de extensas áreas com potencial agrícola.

Projecto Precisa De Metas Para Traduzir Formação Em Resultados

O anúncio representa um sinal de aprofundamento da cooperação bilateral, mas a sua avaliação dependerá dos detalhes operacionais que ainda deverão ser apresentados.

O documento disponibilizado não especifica as províncias que receberão os primeiros centros, o investimento previsto, o número de jovens a formar, a duração dos cursos ou a data de início das actividades. Também não identifica as cadeias de valor que serão priorizadas nem as instituições moçambicanas responsáveis pela implementação local.

A definição de metas será determinante para medir o impacto. Entre os indicadores possíveis encontram-se o número de jovens formados, a percentagem que inicia uma actividade produtiva, o aumento da produtividade, o rendimento gerado, o acesso ao financiamento, a criação de empresas agrícolas e o volume de produção vendido a unidades de transformação.

Será igualmente importante avaliar a participação das mulheres jovens, frequentemente envolvidas na produção agrícola, mas com menor acesso a terra, activos, tecnologia e financiamento.

O Fórum Agro-Alimentar “Go To Market”, organizado pela AJAP em parceria com a Casa de Moçambique em Portugal, reuniu representantes governamentais, empresários, agricultores e especialistas para analisar oportunidades de investimento e fortalecer a cooperação entre os dois países.

A criação dos pólos poderá transformar essa cooperação numa intervenção prática. O seu valor económico será determinado pela capacidade de converter formação em produtividade, produtividade em transformação industrial e produção agrícola em rendimento sustentável para os jovens moçambicanos.