Economia Moçambicana Procura Recuperar em 2026, Mas Crédito, Dívida e Divisas Limitam Aceleração

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  • FUNDEC antecipa uma recuperação gradual da actividade económica, apoiada pelos investimentos estratégicos, energia, turismo e serviços. A leitura ganha, porém, maior complexidade quando confrontada com os dados mais recentes: o PIB cresceu apenas 0,1% no primeiro trimestre, a inflação homóloga atingiu 7,51% em Junho, o crédito produtivo continua reduzido e as restrições cambiais persistem. O gás pode acrescentar um poderoso impulso, mas uma recuperação mais ampla exigirá que financiamento, investimento e produtividade cheguem também à agricultura, indústria e empresas nacionais.
Questões-Chave:
  • A FUNDEC considera que Moçambique entrou em 2026 numa trajectória de recuperação gradual, depois dos choques que marcaram 2025, apontando energia, turismo, serviços e investimentos estratégicos entre os principais suportes da retoma;
  • O PIB cresceu apenas 0,1% no primeiro trimestre de 2026, segundo o INE, confirmando uma saída da contracção, mas ainda sem aceleração expressiva.
  • O Banco Mundial projecta crescimento de apenas 0,9% em 2026 e inflação média de 7,5%, num ambiente afectado pelas cheias, custos de combustíveis, conflito no Médio Oriente e constrangimentos cambiais;
  • O acesso ao financiamento permanece uma das principais limitações: segundo a FUNDEC, o crédito à agricultura situava-se em cerca de 3,34 mil milhões de meticais até Junho, contra 24,50 mil milhões no comércio, 23,85 mil milhões nos transportes e comunicações e 20,78 mil milhões na indústria transformadora.
  • A Prime Rate permanece em 15,50%, a Taxa MIMO em 9,25% e o coeficiente de reservas obrigatórias sobre depósitos em moeda nacional voltou a 39%, condições que mantêm elevado o custo e a selectividade do crédito;
  • A FUNDEC identifica agricultura e agro-indústria entre os sectores estratégicos para substituir importações e ampliar cadeias de valor, mas o próprio financiamento disponível revela a distância entre esse potencial e a actual alocação de capital.
  • A eventual Decisão Final de Investimento do Rovuma LNG pode alterar significativamente as perspectivas. A FUNDEC aponta Setembro, enquanto a ExxonMobil indica oficialmente o terceiro trimestre de 2026 como horizonte esperado para a decisão.

Moçambique atravessa em 2026 uma conjuntura que pode ser descrita menos como uma recuperação consolidada e mais como uma tentativa de transição da estagnação para um novo ciclo de crescimento.

É esta a leitura que emerge do estudo A Economia Moçambicana em 2026: Análise e Perspectivas, da Fundação para a Competitividade Empresarial (FUNDEC), que aponta para uma recuperação gradual da actividade económica depois de um 2025 marcado por choques sobre procura, oferta, confiança empresarial e investimento.

A FUNDEC antecipa que a recuperação da actividade produtiva, a continuidade dos investimentos estratégicos, a expansão do sector energético, o turismo e os serviços poderão sustentar uma melhoria progressiva durante o ano.

Os dados disponíveis confirmam que a economia saiu da fase mais intensa da contracção, mas também mostram que essa saída permanece frágil.

PIB Volta ao Positivo, Mas Ainda Longe de Uma Recuperação Robusta

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o PIB registou um crescimento homólogo de apenas 0,1% no primeiro trimestre de 2026, depois das contracções observadas durante grande parte de 2025.

É um sinal positivo, mas economicamente modesto.

A FUNDEC considera que a economia deverá ganhar maior resiliência a partir do segundo trimestre, mantendo, contudo, riscos relacionados com pressões fiscais, condições externas e constrangimentos estruturais. O gráfico apresentado na página 4 do relatório projecta uma progressiva aceleração da actividade ao longo do restante ano.

O Banco Mundial apresenta uma leitura mais prudente. A instituição projecta um crescimento anual de apenas 0,9% em 2026, acelerando gradualmente para 2,5% em 2028, apoiado pela recuperação da agricultura e dos serviços e pela retoma dos investimentos em GNL.

O FMI adopta cautela semelhante. Depois de uma missão a Maputo em Junho, considerou que a actividade económica está a recuperar gradualmente da contracção de 2025, mas que o crescimento permanece reduzido, num contexto de dificuldades fiscais, escassez de divisas e maior incerteza internacional.

A convergência entre estas análises está, portanto, menos na intensidade da recuperação e mais na sua natureza: Moçambique parece estar a recuperar, mas ainda não acelerou suficientemente para alterar os seus constrangimentos estruturais.

Inflação Regressa Como Variável Central

Há também uma diferença importante relativamente ao ambiente que permitiu ao Banco de Moçambique reduzir significativamente a taxa directora nos últimos dois anos.

A inflação voltou a acelerar.

Segundo o INE, a inflação homóloga nacional atingiu 7,51% em Junho, contra uma inflação acumulada de 5,40% desde Janeiro.

O Banco Mundial projecta uma inflação média próxima de 7,5% para 2026, associando a subida às perturbações na oferta alimentar provocadas pelas cheias e ao aumento dos custos de combustíveis e transportes decorrentes do conflito no Médio Oriente.

A FUNDEC identifica igualmente os combustíveis entre as principais pressões sobre os custos empresariais, destacando o impacto sobre transporte, logística e produção.

Isto cria uma equação complexa para a política monetária.

Uma economia com crescimento reduzido beneficiaria de condições financeiras mais favoráveis. Mas uma inflação novamente ascendente limita o espaço disponível para uma flexibilização agressiva.

Taxa MIMO Caiu, Mas Dinheiro Continua Caro Para as Empresas

A Taxa MIMO encontra-se actualmente em 9,25%, enquanto a Prime Rate do sistema financeiro está em 15,50%.

A diferença ajuda a explicar por que razão a redução substancial da taxa de política monetária ainda não se traduziu numa expansão equivalente do crédito produtivo.

A situação tornou-se mais exigente depois de o Banco de Moçambique aumentar, em Maio, o coeficiente de reservas obrigatórias sobre depósitos em moeda nacional de 29% para 39%, mantendo em 29,5% o coeficiente aplicável à moeda estrangeira.

Reservas obrigatórias mais elevadas significam que uma parcela maior dos depósitos dos bancos fica imobilizada no Banco Central, reduzindo os recursos disponíveis para outras aplicações.

A FUNDEC identifica precisamente esta combinação — custo do crédito e reservas obrigatórias — como uma das razões pelas quais o financiamento à economia permanece restritivo.

E os números sectoriais apresentados no relatório permitem perceber onde está um dos principais desequilíbrios.

Agricultura Emprega a Maioria, Mas Recebe Uma Fracção do Crédito

Até Junho, segundo os dados apresentados pela FUNDEC, o crédito destinado ao comércio ascendia a cerca de 24,50 mil milhões de meticais.

Transportes e comunicações absorviam 23,85 mil milhões e a indústria transformadora cerca de 20,78 mil milhões.

A agricultura recebia aproximadamente 3,34 mil milhões de meticais.

A diferença é particularmente relevante porque o Banco Mundial estima que a agricultura emprega mais de 70% da população activa, apesar de continuar caracterizada por baixa produtividade, reduzido investimento e elevada vulnerabilidade climática.

Aqui aparece uma das maiores contradições da estrutura económica nacional.

Moçambique identifica a agricultura como prioridade para gerar emprego, aumentar rendimento rural, desenvolver agro-indústria e substituir importações. Mas o sistema financeiro continua a canalizar uma parcela comparativamente pequena dos seus recursos para o sector.

Isso significa que a prioridade declarada ainda não encontra correspondência proporcional na alocação do capital.

Crédito ao Estado Continua a Competir Com Crédito à Economia

A FUNDEC sustenta que, apesar da liquidez existente no sistema bancário, as instituições financeiras mantêm uma elevada selectividade no financiamento da economia real, privilegiando também o crédito ao Estado através de Bilhetes e Obrigações do Tesouro.

O Banco Mundial confirma a perda de profundidade do financiamento empresarial: o crédito ao sector privado diminuiu de 19,3% do PIB em Novembro de 2023 para 16,5% em Novembro de 2025.  

Esta relação importa porque títulos públicos oferecem aos bancos uma alternativa relativamente segura ao financiamento empresarial.

Quando o Estado necessita de captar grandes volumes no mercado interno, pode ocorrer aquilo que a teoria económica designa por crowding out: recursos disponíveis no sistema financeiro são absorvidos pelo financiamento público, reduzindo o espaço ou aumentando o preço do crédito destinado às empresas.

É precisamente neste ponto que a questão da dívida pública encontra a agenda do crescimento.

Queda da Dívida Externa Não Significa Automaticamente Maior Sustentabilidade

O relatório da FUNDEC regista uma redução da dívida externa de 616,09 mil milhões para 569,95 mil milhões de meticais e associa este movimento a uma melhoria da sustentabilidade fiscal. Ao mesmo tempo, destaca o aumento da dívida interna para 529,84 mil milhões de meticais.

A leitura necessita, contudo, de uma importante qualificação.

O Boletim da Dívida Pública do Ministério das Finanças mostra que parte relevante da diminuição da dívida externa resulta de uma operação envolvendo uma obrigação perante o FMI que foi transferida para a componente interna através de um adiantamento do Banco de Moçambique.

Ou seja, ocorreu em grande medida uma mudança da composição da dívida, e não uma redução equivalente da obrigação global do Estado.

No final do primeiro trimestre, a dívida pública e garantida ascendia a cerca de 1,136 biliões de meticais, correspondentes a 75,2% do PIB.

O Banco Mundial mantém, aliás, a dívida pública moçambicana classificada como estando em situação de distress e insustentável, estimando que salários e juros absorveram cerca de 88% das receitas fiscais em 2025.

Esta restrição condiciona a capacidade do Estado financiar investimentos capazes de aumentar a produtividade futura.

Escassez de Divisas Continua a Travar a Economia Real

A estabilidade aparente do câmbio constitui outra característica particular de 2026.

A FUNDEC observa que o Metical permaneceu relativamente estável face ao dólar, enquanto se apreciou gradualmente perante o Euro, mas chama atenção para a persistente escassez de moeda estrangeira.

O FMI confirma que restrições cambiais continuam a afectar as importações e a actividade económica, num contexto em que as necessidades externas aumentaram devido aos grandes projectos e as exportações apresentaram menor dinamismo.

Este ponto é particularmente importante para as empresas.

Uma taxa de câmbio nominal estável não representa necessariamente um mercado cambial equilibrado quando os importadores enfrentam dificuldades para obter moeda estrangeira.

Para quem precisa importar matérias-primas, equipamentos, medicamentos, combustível ou componentes industriais, a disponibilidade efectiva de divisas pode ser tão importante quanto a taxa oficial de câmbio.

Gás Pode Produzir Uma Mudança de Escala

É no sector energético que se encontra uma das principais variáveis capazes de alterar significativamente o cenário.

A FUNDEC destaca a expansão do gás natural e a produção do Coral Sul FLNG como elementos estratégicos da economia e considera que uma decisão final de investimento do Rovuma LNG poderá abrir uma nova fase de crescimento.

A FUNDEC aponta Setembro como período esperado para essa decisão.

A ExxonMobil, operador delegado do Rovuma LNG, afirma oficialmente que os parceiros antecipam uma Decisão Final de Investimento no terceiro trimestre de 2026, com primeira produção de GNL apontada para 2030. O projecto actualizado possui capacidade prevista de 18 milhões de toneladas anuais.

O impacto potencial é elevado.

Durante a construção, grandes projectos desta natureza podem dinamizar importações de bens de capital, logística, construção, serviços, contratação empresarial e emprego. Posteriormente, a produção aumenta exportações, receitas fiscais e geração de divisas.

Mas existe uma distinção fundamental entre crescimento impulsionado pelo LNG e transformação económica impulsionada pelo LNG.

A segunda exige que empresas nacionais participem nas cadeias de fornecimento, trabalhadores adquiram competências, receitas sejam aplicadas produtivamente e o gás contribua para desenvolver outras actividades económicas.

Exportar Recursos Continua Mais Fácil do Que Diversificar

O próprio relatório da FUNDEC mostra uma estrutura exportadora ainda fortemente concentrada em recursos minerais e energéticos — carvão, alumínio, gás natural, areias pesadas e electricidade — enquanto algodão, tabaco, açúcar, castanha de caju, banana, madeira e produtos pesqueiros têm uma participação complementar na diversificação.

Esta configuração explica parte da vulnerabilidade da economia.

Grandes exportações extractivas conseguem gerar divisas e crescimento, mas são normalmente mais intensivas em capital e menos capazes de absorver mão-de-obra em grande escala.

O FMI estima que mais de meio milhão de jovens entram anualmente no mercado de trabalho moçambicano, enquanto a transformação estrutural tem privilegiado actividades extractivas intensivas em capital e cerca de 95% do emprego permanece informal.

É por isso que agricultura, agro-indústria, indústria transformadora, turismo, logística e serviços precisam de acompanhar a expansão energética.

Não apenas para diversificar o PIB, mas para transformar crescimento económico em emprego.

Importações Alimentares Revelam Outra Oportunidade Económica

A FUNDEC chama igualmente atenção para a dependência de produtos como trigo, arroz e açúcar, além dos combustíveis, colocando agricultura e agro-indústria entre os sectores estratégicos de crescimento.

A recomendação tem uma lógica que ultrapassa a segurança alimentar.

Cada produto que pode ser produzido competitivamente no País representa potencial para reduzir procura de divisas, aumentar rendimento rural, gerar emprego, desenvolver processamento e criar cadeias domésticas de fornecimento.

Num contexto de escassez cambial, esta dimensão torna-se ainda mais relevante.

Substituição competitiva de importações não significa produzir internamente a qualquer custo. Significa identificar bens em que Moçambique possui condições produtivas e construir escala, produtividade e logística suficientes para que a produção doméstica consiga competir economicamente com a importação.

2026 Pode Ser Um Ano de Inflexão, Não Ainda de Transformação

A FUNDEC encerra o seu diagnóstico propondo consolidação fiscal, melhor ambiente de negócios, maior financiamento ao sector produtivo, aceleração da industrialização e diversificação e gestão sustentável dos recursos naturais.

São recomendações que convergem amplamente com os diagnósticos do FMI e Banco Mundial.

O ponto decisivo está na relação entre elas.

Consolidação fiscal pode reduzir a pressão do Estado sobre o mercado financeiro. Menor pressão pode abrir mais espaço ao crédito empresarial. Mais crédito, acompanhado por reformas no ambiente de negócios e infra-estruturas, pode aumentar investimento. E investimento mais diversificado pode permitir que agricultura, indústria e serviços convertam a expansão energética em crescimento mais abrangente.

Esta é, provavelmente, a principal leitura da economia moçambicana em 2026.

Os sinais de recuperação existem, mas os mecanismos capazes de transformar essa recuperação em crescimento robusto ainda enfrentam limitações significativas.

O PIB voltou marginalmente ao terreno positivo. Os grandes projectos energéticos avançam. O País mantém recursos naturais, corredores logísticos, terra arável e posição geográfica capazes de suportar uma economia muito maior.

Mas crédito caro e selectivo, dívida elevada, escassez de divisas, reduzida produtividade e limitado financiamento dos sectores capazes de gerar emprego continuam a separar potencial económico de capacidade efectiva de crescimento.

O verdadeiro ponto de inflexão surgirá quando a recuperação deixar de estar concentrada nos grandes projectos e começar a ser visível também no investimento das empresas, no crédito produtivo, na produção agrícola, na indústria, nas exportações diversificadas e, sobretudo, na criação de emprego.