Dólar Perto de Mínimo de Dois Meses Com Inflação dos EUA a Dominar Semana Cambial

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  • Índice do dólar negoceia em 99,6 pontos depois de dados fracos do emprego terem reduzido as expectativas de nova subida dos juros pela Reserva Federal. Euro aproxima-se dos máximos desde Junho, enquanto o Yen se mantém em torno de 157,90 por dólar após a recente intervenção coordenada no mercado cambial.
Questões-Chave:
  • O índice do dólar encontra-se em 99,6 pontos, próximo do nível mais baixo desde 2 de Junho, depois da surpresa negativa do emprego norte-americano;
  • A probabilidade implícita de uma subida das taxas pela Fed em Setembro caiu para cerca de 44%, contra 67% uma semana antes;
  • O mercado aguarda o CPI de Julho, a ser divulgado na quarta-feira, 12 de Agosto, para decidir se a recente fraqueza do dólar poderá prolongar-se;
  • O Euro negoceia próximo de US$1,156 e a Libra em torno de US$1,349, beneficiando da redução das yields norte-americanas;
  • O Yen estabilizou em cerca de ¥157,90 por dólar, ainda consideravelmente mais forte do que o mínimo multidecenal próximo de ¥164 atingido no final de Julho;
  • Para economias importadoras como Moçambique, um dólar internacionalmente mais fraco pode aliviar parte da pressão cambial sobre importações denominadas na moeda norte-americana, embora a recuperação do petróleo introduza um efeito contrário sobre a factura energética.

O dólar norte-americano iniciou a semana próximo do seu nível mais baixo em cerca de dois meses, numa altura em que os investidores deslocam a atenção do mercado de trabalho para a inflação, que poderá determinar se a Reserva Federal mantém ou recupera a possibilidade de uma nova subida das taxas de juro em Setembro.

Segundo a Reuters, o Dollar Index, que mede o desempenho da moeda norte-americana contra seis das principais divisas internacionais, encontrava-se praticamente inalterado em 99,6 pontos nesta segunda-feira, 10 de Agosto, próximo do mínimo registado desde 2 de Junho. 

O Euro avançou para US$1,1558, aproximando-se do nível mais elevado desde meados de Junho, enquanto a Libra Esterlina se manteve em US$1,3490, perto de um máximo de cinco semanas.

A actual configuração do mercado reflecte uma alteração relativamente rápida das expectativas em torno da política monetária norte-americana.

Emprego Retira Força à Tese de Nova Subida dos Juros

O ponto de viragem ocorreu na sexta-feira.

Os Estados Unidos perderam inesperadamente 23 mil empregos em Julho, quando o mercado esperava uma criação líquida de postos de trabalho. Os ganhos dos dois meses anteriores foram igualmente revistos significativamente em baixa, levando os investidores a questionar até que ponto a economia norte-americana poderá suportar um novo aperto monetário no curto prazo. 

A taxa de desemprego recuou para 4,1%, mas outros indicadores ofereceram uma leitura menos robusta do mercado laboral. Dados do Bureau of Labor Statistics mostram que a população empregada diminuiu em Julho, enquanto a participação na força de trabalho continuou reduzida. 

O efeito imediato verificou-se nas taxas de mercado.

As yields das obrigações do Tesouro norte-americano recuaram, com a taxa a dez anos situada em cerca de 4,64%, enquanto os mercados futuros reduziram a probabilidade de uma subida dos juros da Fed em Setembro para aproximadamente 44%, face a 67% uma semana antes.

Para o dólar, a relação é directa.

Quando diminuem as expectativas de taxas de juro mais elevadas nos Estados Unidos, reduz-se também parte do diferencial de remuneração que favorece activos denominados em dólares, diminuindo o incentivo para os investidores internacionais manterem posições na moeda norte-americana.

Foi esse ajustamento que empurrou o dólar para os níveis actuais.

Inflação de Quarta-Feira Pode Redefinir o Movimento

A debilidade recente do mercado laboral não encerra, contudo, o debate sobre a Fed.

A inflação continua acima do objectivo de longo prazo de 2% da Reserva Federal, e o próprio banco central reiterou, na sua reunião de 29 de Julho, que as pressões sobre os preços permanecem elevadas, parcialmente devido aos choques de oferta que têm afectado sectores como a energia. 

É por isso que o Índice de Preços no Consumidor — CPI de Julho, cuja divulgação oficial está marcada para quarta-feira, 12 de Agosto, assumiu particular importância para o mercado cambial. O calendário do Bureau of Labor Statistics confirma a publicação para as 08h30, hora da Costa Leste dos Estados Unidos. 

O consenso recolhido pela Reuters aponta para uma subida de 0,2% em cadeia do núcleo do CPI, que exclui alimentos e energia, levando a taxa homóloga para 2,5%, contra 2,6% em Junho.

O Financial Times assinala igualmente que uma leitura de inflação mais moderada poderá reduzir ainda mais as expectativas de uma subida das taxas em Setembro. Pelo contrário, persistência particularmente forte nos serviços ou uma surpresa acima das previsões poderá reabrir o debate sobre novo aperto monetário. 

É esta assimetria que deverá definir a trajectória do dólar ao longo da semana.

Dólar Entre Dois Sinais Opostos

A Fed encontra-se agora perante uma combinação menos simples.

De um lado, o emprego mostra sinais de abrandamento.

Do outro, a inflação permanece acima da meta.

Geoff Yu, estratega sénior para EMEA do BNY, observou que a fraqueza do mercado laboral reduziu as expectativas de taxas reais e prolongou a queda do dólar, mas não representa ainda uma trajectória inequívoca de flexibilização monetária. Para o estratega, a inflação norte-americana deverá constituir o principal factor de orientação das moedas nesta semana.

Rodrigo Catril, estratega cambial sénior do National Australia Bank, adopta leitura semelhante: apesar das várias dinâmicas inflacionárias presentes, a Fed poderá permanecer à margem enquanto avalia a evolução dos dados.

Por isso, a queda do dólar não deve ser interpretada automaticamente como o início de um ciclo prolongado de depreciação.

O mercado está, essencialmente, a retirar uma parte da probabilidade anteriormente atribuída a taxas de juro ainda mais elevadas.

Euro Recupera Espaço Acima de US$1,15

A contrapartida mais visível dessa correcção aparece no Euro.

A moeda única europeia avançou para US$1,1558, posicionando-se próximo do nível mais elevado desde meados de Junho. 

A valorização não traduz necessariamente uma alteração igualmente forte dos fundamentos da Zona Euro. Parte significativa do movimento resulta da própria redução das taxas norte-americanas e da consequente perda de suporte do dólar.

O mesmo fenómeno favoreceu a Libra Esterlina, que permanece próxima dos máximos de cinco semanas.

Nesta fase, portanto, a leitura das principais moedas está fortemente condicionada por Washington: emprego, inflação, yields e expectativas sobre a Fed estão a determinar grande parte da formação dos preços no mercado Forex.

Yen Mantém Parte dos Ganhos da Intervenção

No Japão, o Yen estabilizou em torno de ¥157,90 por dólar nesta segunda-feira.

Embora tenha devolvido parte dos fortes ganhos registados após a recente intervenção cambial, a moeda japonesa permanece significativamente distante do nível próximo de ¥164 por dólar alcançado no final de Julho, que representou um mínimo de várias décadas.

A evolução recente do Yen merece atenção particular porque a intervenção envolveu uma coordenação pouco habitual entre as autoridades japonesas e norte-americanas.

O Financial Times estima que o Japão mobilizou aproximadamente ¥14 biliões para apoiar a moeda, numa operação que levou o Yen inicialmente para níveis consideravelmente mais fortes. 

O significado económico do movimento vai, contudo, além do montante utilizado.

Uma intervenção pode alterar rapidamente posições especulativas e impor custos aos investidores que apostam persistentemente contra uma moeda. Mas a sustentabilidade da valorização depende, em última instância, dos fundamentos — sobretudo da diferença entre as taxas de juro dos Estados Unidos e do Japão.

É aqui que a actual fraqueza do dólar poderá ajudar Tóquio.

Se os mercados continuarem a reduzir a probabilidade de novas subidas das taxas norte-americanas, o diferencial de juros entre Estados Unidos e Japão poderá diminuir sem que o Banco do Japão tenha necessariamente de responder com um aperto monetário igualmente agressivo.

Yen Continua Estruturalmente Barato

Apesar da recuperação recente, o Yen permanece historicamente fraco.

O mais recente relatório cambial do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, divulgado em Julho, observa que a moeda japonesa registou uma depreciação muito significativa ao longo da última década e permanece próxima de mínimos multidecenais, considerando-a substancialmente subavaliada em termos reais. 

Essa fragilidade tem consequências económicas importantes para o Japão.

Um Yen mais fraco favorece exportadores ao elevar, quando convertidas, as receitas obtidas no exterior, mas simultaneamente aumenta os preços das importações — particularmente energia e matérias-primas — e pode alimentar a inflação doméstica.

O Financial Times tem sublinhado que uma recuperação duradoura da moeda provavelmente exigirá mais do que intervenções pontuais, podendo depender também de uma alteração do diferencial de taxas entre o Banco do Japão e a Fed. 

Petróleo Introduz Uma Variável Adicional Para o Dólar

O mercado cambial desta semana terá ainda de acompanhar uma variável externa à política monetária: o petróleo.

O Brent voltou a negociar próximo de US$85 por barril nesta segunda-feira, à medida que permanecem dúvidas sobre a velocidade da normalização do tráfego no Estreito de Hormuz. 

A relação entre energia, inflação e moedas poderá voltar a assumir importância.

Se o petróleo voltar a subir de forma persistente, poderá alimentar novas pressões inflacionárias nos Estados Unidos e noutras economias, complicando a possibilidade de uma política monetária mais branda.

Isso significa que, mesmo com um mercado de trabalho mais fraco, a componente energética continua capaz de limitar uma queda mais acentuada das taxas de juro esperadas.

Austrália Fecha o Outro Foco da Semana

Na região Ásia-Pacífico, o Dólar Australiano negociava a US$0,5889, enquanto o Dólar Neozelandês se situava em US$0,7062, ambos ligeiramente mais fracos no início da sessão.

Os investidores aguardam a decisão de política monetária do Reserve Bank of Australia, prevista para terça-feira.

Segundo a Reuters, o consenso aponta para manutenção da taxa directora em 4,35%, nível que o mercado espera que permaneça até ao final do ano. 

Embora o evento tenha menor influência sistémica do que o CPI norte-americano, poderá introduzir volatilidade adicional no Dólar Australiano e, por extensão, em algumas moedas ligadas ao ciclo de commodities.

Para Moçambique, Dólar e Petróleo Movem-se Em Direcções Contrárias

A actual conjuntura internacional apresenta uma combinação particularmente relevante para economias importadoras como Moçambique.

Um dólar globalmente mais fraco tende, tudo o resto constante, a reduzir o custo em moeda doméstica de bens internacionais facturados em dólares e pode diminuir algumas pressões cambiais sobre importadores.

Mas a recuperação dos preços do petróleo actua no sentido contrário.

Como os combustíveis são negociados internacionalmente em dólares, uma subida do barril pode neutralizar parte dos benefícios de uma moeda norte-americana menos forte. A dimensão desse efeito em Moçambique dependerá, naturalmente, da evolução do Metical face ao dólar, dos preços internacionais dos produtos refinados e dos mecanismos internos de formação de preços.

Trata-se, portanto, de duas variáveis que deverão ser observadas conjuntamente: cotação do dólar e preço da energia

Semana Pode Definir o Próximo Movimento do Dólar

O mercado chega, assim, ao início de uma semana em que os dados poderão validar ou contrariar o movimento iniciado depois do relatório de emprego.

Na quarta-feira chega o CPI. Na quinta-feira serão divulgados os preços no produtor e, na sexta-feira, as vendas a retalho norte-americanas, oferecendo uma sequência de indicadores capaz de alterar as expectativas sobre crescimento, inflação e política monetária. 

Uma inflação mais baixa poderá consolidar a visão de que a Fed tem espaço para permanecer sem novos aumentos das taxas, prolongando potencialmente a fraqueza do dólar.

Uma surpresa inflacionária em sentido contrário poderá rapidamente recuperar parte das expectativas de aperto monetário e devolver suporte à moeda norte-americana.

Depois de o emprego ter colocado o dólar próximo de um mínimo de dois meses, a inflação passa agora a decidir se este movimento ganha continuidade ou encontra um limite.

No caso do Yen, a mesma divulgação terá uma importância adicional: qualquer queda das yields dos Estados Unidos poderá ajudar a consolidar parte dos ganhos obtidos após a intervenção, enquanto uma recuperação dos juros norte-americanos voltaria a testar a capacidade da moeda japonesa para permanecer abaixo dos níveis extremos registados no final de Julho.