Banca Fecha II Trimestre Com Capital Forte, Mas Qualidade do Crédito Mostra Fortes Diferenças

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  • Indicadores prudenciais divulgados pelo Banco de Moçambique mostram rácios de solvabilidade confortavelmente acima do mínimo regulamentar na maioria dos principais bancos, enquanto o crédito em incumprimento varia de menos de 2% em algumas instituições para quase 30% noutras. Rendibilidade e liquidez completam uma fotografia de um sistema globalmente resiliente, mas com perfis de risco bastante distintos.
Questões-Chave:
  • Entre os principais bancos, os rácios de solvabilidade permanecem acima do mínimo regulamentar de 12%, variando de cerca de 14,3% no Moza Banco a 58,7% no UBA, sem considerar instituições com modelos de negócio muito específicos;
  • A qualidade do crédito apresenta diferenças expressivas: o NPL situa-se em 1,48% no Standard Bank, 2,62% no BIM e 3,20% no Nedbank, mas sobe para 14,11% no BCI, 19,06% no Vista Bank e 29,66% no Moza Banco;
  • O grau de cobertura do crédito em incumprimento também varia significativamente, sendo superior a 90% no Access Bank e BIM, mas de aproximadamente 25% no BCI e 47% no Moza Banco;
  • ABSA, BCI, Nedbank, Standard Bank e UBA apresentam rendibilidades dos capitais próprios de dois dígitos no período reportado;
  • O mapa divulgado pelo Banco de Moçambique apresenta indicadores por instituição e não um rácio agregado ponderado para todo o sistema, pelo que a fotografia sectorial deve evitar médias simples entre entidades de dimensões e modelos de negócio muito diferentes.

O sistema bancário moçambicano encerrou o segundo trimestre de 2026 com uma característica que se tem tornado cada vez mais relevante para a leitura da sua estabilidade: capitalização geralmente confortável, mas diferenças significativas na qualidade dos activos, rendibilidade e utilização dos balanços entre instituições.

Os novos Indicadores Prudenciais e Económico-Financeiros do Sistema Bancário, publicados pelo Banco de Moçambique a 6 de Agosto, apresentam informação individual sobre 37 instituições, incluindo bancos comerciais, microbancos, instituições financeiras especializadas e operadores de moeda electrónica. O documento está enquadrado nos requisitos de disciplina de mercado estabelecidos pelo Aviso n.º 16/GBM/2017. 

A leitura dos números mostra que a robustez de capital permanece um dos principais amortecedores do sector, mas revela igualmente que o risco de crédito está longe de se distribuir uniformemente entre os bancos.

Solvabilidade Mantém Margens Confortáveis

Entre os principais bancos comerciais, os rácios de solvabilidade permanecem, em geral, significativamente acima do mínimo regulamentar de 12% estabelecido pelo Banco de Moçambique.

No final do período reportado, o ABSA Bank Moçambique apresentava solvabilidade de 17,42%, enquanto o Access Bank se situava em 17,17%.

O BCI registava 31,40%, o Millennium bim 40,76%, o BNI 38,26%, o FNB 27,59%, o Nedbank 30,83%, o Standard Bank 23,04% e o UBA 58,75%.

O Moza Banco apresentava um rácio de 14,30%, permanecendo acima do mínimo regulamentar, mas com uma margem comparativamente mais reduzida.

Para referência, o Banco de Moçambique indicou no seu Relatório Anual de 2025 que o rácio de solvabilidade agregado do sistema bancário se mantinha aproximadamente duas vezes acima do mínimo regulamentar de 12%, confirmando a capitalização como uma das principais fontes de resistência do sector. 

Os dados do segundo trimestre de 2026 mostram, portanto, que essa característica continua visível na maioria das instituições de maior dimensão.

Crédito Em Incumprimento Separa Perfis de Risco

É na qualidade dos activos que a fotografia se torna substancialmente mais diferenciada.

O rácio de crédito em incumprimento — NPL — mede a parcela da carteira de crédito que deixou de cumprir regularmente as suas obrigações e constitui um dos indicadores centrais para avaliar o risco de crédito nos balanços bancários.

O Banco de Moçambique tem utilizado 5% como benchmark convencional para este indicador. 

Entre os bancos analisados, o Standard Bank apresenta um NPL de apenas 1,48%, um dos níveis mais baixos entre as instituições comerciais de referência.

O First Capital Bank registava 1,66%, o Millennium bim 2,62%, o FNB 3,12%, o Nedbank 3,20% e o ABSA 4,07%.

Estas instituições situavam-se, portanto, abaixo do benchmark convencional de 5%.

No Access Bank, o rácio estava ligeiramente acima desse referencial, em 5,46%, enquanto no BNI atingia 7,21% e no UBA 8,59%.

A partir daí, as diferenças tornam-se mais pronunciadas.

O BCI apresentava um NPL de 14,11%, o Vista Bank 19,06% e o Moza Banco 29,66%.

Isto significa que, no caso do Moza, aproximadamente três em cada dez meticais da carteira de crédito considerada para este indicador estavam classificados em situação de incumprimento.

A comparação entre instituições deve, contudo, ter em conta a composição das carteiras, segmentos de clientes, políticas de reconhecimento de imparidades, concentração sectorial e estratégias de recuperação de crédito.

Cobertura do NPL Acrescenta Outra Dimensão

O rácio de NPL, isoladamente, não conta toda a história.

É igualmente importante perceber que parcela desses créditos problemáticos já se encontra coberta através de provisões ou outros mecanismos reconhecidos no indicador de cobertura.

Aqui, as diferenças são novamente consideráveis.

O Access Bank apresentava uma cobertura de NPL de 93,44%, enquanto o Millennium bim registava 91,91%, Nedbank 83,76%, ABSA 84,74%, UBA 85,02% e Standard Bank 74,91%.

No BNI, o indicador encontrava-se em 41,65%.

No BCI, a cobertura correspondia a 25,11%, enquanto no Moza Banco se situava em aproximadamente 46,85%.

A conjugação de um NPL elevado com uma cobertura proporcionalmente menor constitui um indicador que exige leitura particularmente atenta, embora não permita, por si só, concluir sobre a situação financeira global de uma instituição.

Capital, garantias, capacidade de recuperação, estrutura da carteira e rendibilidade são igualmente determinantes.

BCI Combina NPL Elevado Com Capitalização e Rendibilidade Fortes

O caso do BCI ilustra precisamente por que razão os indicadores devem ser interpretados em conjunto.

Apesar do rácio de NPL de 14,11%, o banco apresentava um rácio de solvabilidade de 31,40%, mais de duas vezes e meia o mínimo regulamentar.

Simultaneamente, o BCI registava uma rendibilidade do activo — ROA — de 2,71% e uma rendibilidade dos capitais próprios — ROE — de 17,74%.

Ou seja, a deterioração ou concentração de risco observável numa parte da carteira de crédito coexistia com níveis elevados de capital e capacidade de geração de resultados.

Este tipo de combinação mostra por que razão a qualidade do crédito não deve ser utilizada isoladamente para produzir uma classificação de solidez bancária.

Moza Apresenta o Maior NPL Entre os Grandes Bancos

No Moza Banco, a conjugação é diferente.

O banco registava 29,66% de NPL, o valor mais elevado entre os principais bancos comerciais considerados nesta análise.

A cobertura encontrava-se em 46,85%, enquanto a solvabilidade estava em 14,30%, acima do mínimo regulamentar de 12%, mas consideravelmente abaixo dos níveis apresentados por vários dos seus concorrentes.

O ROA situava-se em aproximadamente 0,38% e o ROE em 4,59%.

A leitura conjunta indica uma instituição que mantém capital regulamentar acima do limite mínimo e apresenta rendibilidade positiva, mas cuja carteira de crédito continua a representar uma variável particularmente relevante para acompanhar.

Standard Bank Destaca-se Pela Qualidade da Carteira

No sentido oposto, o Standard Bank combina um dos menores níveis de NPL com indicadores positivos de capital e rendibilidade.

O banco apresentava 1,48% de crédito em incumprimento, solvabilidade de 23,04%, ROA de 2,26% e ROE de 11,26%.

O rácio de activos líquidos atingia 53,03%.

A combinação traduz uma carteira com nível relativamente reduzido de incumprimento acompanhada por capitalização acima do mínimo e rendibilidade positiva.

O Millennium bim também apresentava NPL relativamente baixo, de 2,62%, conjugado com uma solvabilidade particularmente elevada de 40,76%.

O seu ROE, contudo, encontrava-se em 5,87%, abaixo dos níveis observados em instituições como ABSA, BCI, Nedbank, Standard Bank e UBA.

ABSA e Nedbank Com Rendibilidade de Dois Dígitos

O ABSA apresentava ROA de 2,16% e ROE de 16,82%, associado a um NPL de 4,07% e solvabilidade de 17,42%.

O Nedbank registava ROA de 2,92%, uma das rendibilidades do activo mais elevadas entre os principais bancos analisados, e ROE de 15,52%.

O seu NPL situava-se em 3,20%, enquanto o rácio de solvabilidade alcançava 30,83%.

O UBA também apresentava indicadores elevados de rendibilidade, com ROA de 4,85% e ROE de 18,66%, associados a uma solvabilidade de 58,75%, embora o NPL, de 8,59%, estivesse acima do benchmark convencional.

Estes números mostram que a rendibilidade não acompanha necessariamente de forma linear a qualidade do crédito: instituições com NPL relativamente superior podem continuar a apresentar resultados fortes quando dispõem de margens, capital e outras fontes de receita capazes de absorver o risco.

Liquidez Continua a Ser Um Amortecedor Importante

Os indicadores de activos líquidos também apontam para diferenças relevantes entre instituições.

Entre os principais bancos, o rácio de activos líquidos era de 36,33% no ABSA, 32,96% no Access Bank, 43,58% no BCI, 44,22% no Millennium bim, 50,12% no BNI, 48,49% no FNB, 40,75% no Moza Banco, 36,68% no Nedbank e 53,03% no Standard Bank.

O UBA registava 60,49%.

O Banco de Moçambique estabelece que as instituições de crédito devem manter diariamente um rácio regulamentar de liquidez não inferior a 25%. Contudo, a comparação directa entre este requisito regulamentar e cada indicador publicado no mapa deve ser feita com prudência, uma vez que os conceitos e metodologias de cálculo apresentados na divulgação prudencial podem não ser integralmente equivalentes ao rácio regulamentar definido no Aviso n.º 14/GBM/2017. 

A mensagem essencial é que a liquidez permanece, juntamente com o capital, uma dimensão importante da capacidade do sistema para absorver choques.

O Sistema Melhorou o NPL em 2025, Mas o Desafio Permanece

Os novos dados individuais devem também ser enquadrados na evolução recente do sistema.

Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Moçambique, o rácio agregado de crédito em incumprimento do sistema bancário baixou de 9,35% em 2024 para 7,47% em 2025, embora continuasse acima do benchmark convencional. 

Em Junho de 2025, o indicador tinha-se situado em 7,85%

A publicação disponibilizada para o segundo trimestre de 2026 não apresenta, no próprio mapa, um NPL agregado ponderado do sistema que permita estabelecer directamente a mesma comparação para Junho deste ano.

E esse é um cuidado metodológico importante.

Calcular uma média simples dos rácios dos diferentes bancos produziria uma leitura enganadora, porque atribuiria o mesmo peso a instituições com carteiras de crédito de dimensões profundamente diferentes.

Capital Forte Não Elimina a Importância da Qualidade do Crédito

A fotografia de Junho sugere, por conseguinte, que a estabilidade da banca moçambicana continua apoiada numa base relativamente confortável de capital.

Mas a composição dos riscos tornou-se cada vez mais importante.

Um sistema pode estar fortemente capitalizado e, simultaneamente, conter instituições com parcelas relevantes da carteira em incumprimento. Da mesma forma, bancos com NPL baixo podem apresentar menor rendibilidade, enquanto outros absorvem maior risco através de margens, provisões ou capital mais elevado.

Para depositantes, investidores, empresas e autoridades, a leitura prudencial exige, por isso, uma abordagem multidimensional: capital, qualidade dos activos, cobertura do crédito problemático, rendibilidade, liquidez e eficiência devem ser observados conjuntamente.

É esta leitura que os dados do segundo trimestre tornam particularmente evidente.

Uma Banca Menos Homogénea do Que os Agregados Sugerem

Os números ajudam igualmente a compreender uma característica estrutural do mercado financeiro moçambicano: falar simplesmente em “sistema bancário” pode esconder diferenças relevantes entre instituições.

Há bancos com solvabilidade acima de 40% e outros próximos de 14%. Há carteiras com NPL inferior a 2% e outras próximas de 30%. Há instituições com rendibilidade dos capitais próprios acima de 15% e outras praticamente junto de zero.

Essas diferenças interessam não apenas à supervisão prudencial.

Influenciam a capacidade de conceder novo crédito, os preços praticados, a apetência por risco, os critérios de financiamento às empresas e famílias e, em última instância, o grau em que o sistema bancário consegue converter depósitos e capital em financiamento à economia.

A fotografia do segundo trimestre de 2026 é, portanto, de robustez de capital, mas não de uniformidade de desempenho.

Para a economia moçambicana, que necessita de maior intermediação financeira para financiar investimento privado, PME e expansão produtiva, o passo seguinte será observar até que ponto essa robustez patrimonial se traduz em maior capacidade de concessão de crédito saudável — e não apenas em balanços fortemente capitalizados.

Fundamentalmente, o problema não parece estar, de forma generalizada, na falta de capital dos bancos, mas sim, muito mais na heterogeneidade da qualidade do crédito e na capacidade de transformar balanços robustos em financiamento saudável da economia.