Petróleo, Dívida e Inflação Recolocam Risco No Centro Dos Mercados Globais

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  • A economia mundial encerrou a semana de 17 a 21 de Agosto com sinais mais firmes de actividade nos Estados Unidos e na Zona Euro, mas a subida do petróleo, o agravamento das tensões no Médio Oriente e o aumento dos rendimentos da dívida pública alteraram o equilíbrio entre crescimento, inflação e política monetária
Questões-Chave:
  • O petróleo Brent acumulou uma valorização semanal de 6,39%, enquanto o crude norte-americano avançou 5,66%, alimentando novas preocupações inflacionárias;
  • As acções globais recuaram no final da semana, penalizadas pela subida dos rendimentos das obrigações soberanas e pelo prolongamento do conflito com o Irão;
  • A actividade empresarial acelerou nos Estados Unidos e atingiu, na Zona Euro, o ritmo de crescimento mais elevado desde Novembro;
  • A China continuou a apresentar sinais de enfraquecimento do investimento, do crédito e do mercado imobiliário;
  • O dólar registou uma das semanas mais fracas dos últimos meses, enquanto o ouro e outros activos alternativos beneficiaram da procura por protecção;
  • Para as economias africanas importadoras de energia, a combinação entre petróleo mais caro, custos financeiros elevados e menor previsibilidade cambial amplia os riscos sobre a inflação e as contas externas.

A economia internacional terminou a terceira semana de Agosto num quadro aparentemente contraditório. Os principais indicadores de actividade mostraram que algumas das maiores economias continuam a crescer, mas os mercados financeiros passaram a atribuir maior peso aos riscos associados à inflação, à dívida pública e ao conflito no Médio Oriente.

Nos Estados Unidos, a actividade empresarial acelerou em Agosto, impulsionada pelo sector dos serviços. Na Europa, a indústria apresentou sinais de recuperação, incluindo na Alemanha. Contudo, estes indicadores positivos não foram suficientes para sustentar o optimismo nos mercados accionistas, perante a subida do petróleo e dos rendimentos das obrigações soberanas.

A semana confirmou, deste modo, que a economia mundial não enfrenta apenas um problema de crescimento. Está também a atravessar uma fase de reajustamento dos preços relativos, das expectativas de inflação e do custo do capital — com consequências particularmente importantes para as economias emergentes e em desenvolvimento.

Petróleo Volta A Condicionar Expectativas De Inflação

O mercado petrolífero foi um dos principais centros de atenção. Os futuros do Brent subiram durante seis sessões consecutivas e acumularam uma valorização semanal de 6,39%, enquanto o West Texas Intermediate avançou 5,66%, segundo dados reportados pela Reuters.

A subida foi impulsionada pelo agravamento das tensões entre os Estados Unidos e o Irão, depois de Washington ameaçar aplicar sanções económicas aos países e empresas que mantiverem relações comerciais com Teerão. As interrupções no transporte marítimo através do Estreito de Ormuz aumentaram igualmente os receios de restrições na oferta.

A relevância económica do movimento vai além do sector energético. Um aumento persistente dos preços do petróleo eleva os custos dos transportes, da produção industrial, da electricidade e dos bens alimentares. Pode, por isso, atrasar a redução da inflação e limitar o espaço disponível para os bancos centrais flexibilizarem a política monetária.

O Fundo Monetário Internacional já havia advertido, na actualização de Julho das Perspectivas da Economia Mundial, que o conflito no Médio Oriente representa um choque particularmente adverso para os países importadores de energia e para as economias com menor capacidade orçamental e externa de absorção.

Estados Unidos Crescem, Mas Mercado Reavalia Juros E Dívida

A economia norte-americana apresentou sinais de maior dinamismo. O índice preliminar de actividade dos serviços da S&P Global subiu para 56,8 pontos em Agosto, o nível mais elevado desde Dezembro de 2024. O índice composto, que reúne indústria e serviços, avançou para 56 pontos, o melhor resultado desde Abril de 2022.

De acordo com a S&P Global, estes níveis seriam compatíveis com uma aceleração do crescimento económico norte-americano para cerca de 3% em termos anualizados no terceiro trimestre, depois de uma expansão de 1,5% no trimestre anterior.

O desempenho, contudo, não foi homogéneo. A indústria transformadora abrandou, afectada pela redução de inventários, por dificuldades logísticas e pelo aumento dos custos de matérias-primas e energia. O sector dos serviços tornou-se, assim, o principal suporte da actividade económica.

Esta resiliência pode ser positiva para o emprego e para os resultados empresariais, mas também reduz a urgência de cortes nas taxas de juro. Uma economia que cresce mais rapidamente, num contexto de petróleo caro e inflação ainda superior à meta, dá à Reserva Federal razões para manter uma orientação cautelosa.

Ao mesmo tempo, a dimensão da dívida pública norte-americana e as necessidades de financiamento do Tesouro continuaram a pressionar o mercado obrigacionista. A subida dos rendimentos das obrigações de longo prazo tornou o financiamento mais caro e afectou a valorização das acções, sobretudo dos sectores mais dependentes de expectativas de crescimento futuro.

Bolsas Interrompem Ciclo De Ganhos

Os principais índices de Wall Street recuperaram na sessão de sexta-feira, mas fecharam a semana em queda. O S&P 500 e o Nasdaq interromperam uma sequência de três semanas de valorização, enquanto o Dow Jones registou a segunda perda semanal consecutiva, segundo a Reuters.

O movimento ocorreu apesar de uma época de resultados empresariais globalmente robusta. Até meados da semana, cerca de 90% das empresas integrantes do índice MSCI World já tinham divulgado resultados do segundo trimestre, com os lucros líquidos a apresentarem um crescimento homólogo próximo de 40%.

O desempenho empresarial atraiu 22,01 mil milhões de dólares para fundos globais de acções na semana terminada a 19 de Agosto, o maior volume em três semanas. Os fundos norte-americanos captaram 11,72 mil milhões de dólares, enquanto os europeus receberam 4,7 mil milhões e os asiáticos 2,96 mil milhões.

A deterioração ocorrida no final da semana mostrou, porém, que os resultados das empresas deixaram de ser a única referência para os investidores. O preço do petróleo, os rendimentos das obrigações e as decisões de política orçamental passaram a influenciar de forma mais directa a percepção de risco.

Dólar Recua E Ouro Atrai Capital

O dólar registou uma perda semanal próxima de 0,9% face a um cabaz das principais moedas, aproximando-se dos mínimos de três meses. O euro, em contrapartida, valorizou cerca de 1% durante a semana e chegou ao nível mais elevado em 14 semanas.

A desvalorização da moeda norte-americana foi acentuada pelo anúncio de que o Tesouro dos Estados Unidos pretende aumentar as recompras de dívida pública de longo prazo. Embora a operação procure melhorar o funcionamento do mercado obrigacionista, também intensificou as dúvidas dos investidores sobre o crescimento da dívida e a sustentabilidade da política orçamental norte-americana.

O ouro beneficiou deste ambiente. Os fundos dedicados ao metal e a outros metais preciosos receberam aproximadamente 2,04 mil milhões de dólares durante a semana. A procura reflectiu não apenas a necessidade de protecção contra a instabilidade geopolítica, mas também a crescente preocupação com a inflação, as moedas e a dívida soberana.

O mercado obrigacionista continuou igualmente a captar recursos, registando a vigésima semana consecutiva de entradas líquidas, no valor de 15,42 mil milhões de dólares. O movimento mostra uma procura simultânea por rendimento e segurança, embora os preços das obrigações permaneçam expostos ao risco de novas subidas das taxas de juro.

Zona Euro Dá Sinais De Recuperação Industrial

Na Zona Euro, a actividade empresarial cresceu em Agosto ao ritmo mais rápido desde Novembro. O índice composto preliminar dos gestores de compras subiu para 52,1 pontos, ligeiramente acima dos 52 pontos registados em Julho.

O sector industrial constituiu o principal destaque. O respectivo índice avançou para 52,8 pontos, o valor mais elevado em quatro anos e meio. As novas encomendas cresceram ao ritmo mais rápido em mais de três anos e as encomendas externas aumentaram pela primeira vez desde 2022.

Na Alemanha, a indústria transformadora atingiu o melhor desempenho em 51 meses, com o respectivo índice a subir para 54,1 pontos. A recuperação industrial compensou a contracção dos serviços, permitindo à maior economia europeia manter uma expansão moderada.

Os indicadores de preços também mostraram algum alívio. Os custos de produção cresceram ao ritmo mais lento em seis meses e a inflação dos preços cobrados pelas empresas caiu para o nível mais baixo em cinco meses.

Ainda assim, a inflação da Zona Euro permanece acima da meta de 2% do Banco Central Europeu. A combinação entre melhoria da actividade e inflação elevada mantém aberta a possibilidade de novo aumento das taxas de juro, uma perspectiva que poderá prolongar o custo elevado do crédito para famílias, empresas e governos.

Reino Unido Surpreende Pela Resiliência Dos Serviços

O Reino Unido apresentou igualmente sinais mais favoráveis. O índice de actividade dos serviços subiu para 52,8 pontos em Agosto, o máximo dos últimos seis meses, contrariando as expectativas de abrandamento.

A confiança dos consumidores atingiu o nível mais elevado desde Agosto de 2024 e o investimento em tecnologia continuou a beneficiar da expansão das actividades relacionadas com inteligência artificial.

Contudo, o emprego manteve uma trajectória descendente e as pressões sobre os custos voltaram a aumentar, em parte devido à energia. Estes elementos deverão levar o Banco de Inglaterra a conservar uma postura prudente, num momento em que o crescimento demonstra maior resistência, mas a inflação continua a limitar a margem de actuação monetária.

China Continua A Enfrentar Procura Interna Frágil

Enquanto os Estados Unidos e partes da Europa apresentaram indicadores mais firmes, a economia chinesa permaneceu condicionada pela fraqueza da procura interna.

A produção industrial e as vendas a retalho desaceleraram em Julho, enquanto o investimento em activos fixos acumulou uma contracção de 6,7% nos primeiros sete meses do ano, acima da queda de 5,7% registada no primeiro semestre.

O crédito bancário também perdeu dinamismo. Os novos empréstimos concedidos entre Janeiro e Julho diminuíram 19% em termos homólogos, para 10,4 biliões de yuan, segundo dados citados pela Reuters.

No mercado imobiliário, os preços das habitações novas recuaram 0,1% em Julho e caíram 3,2% em termos anuais. As vendas, o investimento imobiliário e o início de novas construções apresentaram deterioração, mostrando que as medidas adoptadas pelas autoridades ainda não produziram uma recuperação sustentada.

O abrandamento chinês tem implicações internacionais relevantes. Uma procura mais fraca da segunda maior economia mundial pode reduzir as exportações de matérias-primas e bens intermédios de África, América Latina e Ásia. Ao mesmo tempo, a elevada capacidade industrial chinesa pode ampliar a oferta de produtos manufacturados nos mercados externos, intensificando a concorrência comercial.

Economias Emergentes Entre O Dólar Fraco E O Petróleo Caro

A desvalorização do dólar e a continuidade das entradas de capitais em fundos de mercados emergentes ofereceram algum alívio às economias em desenvolvimento. Os fundos de acções emergentes captaram 1,57 mil milhões de dólares, enquanto os fundos de obrigações receberam 493 milhões.

A Índia destacou-se neste domínio. As suas reservas internacionais atingiram 716,9 mil milhões de dólares, o nível mais elevado em seis meses, depois de aumentarem quase 10 mil milhões numa única semana. O resultado reflectiu a entrada sustentada de capitais e as medidas adoptadas pelo banco central indiano para estimular o financiamento externo.

Contudo, as condições permanecem diferenciadas. Países com reservas reduzidas, dívida externa elevada e forte dependência da importação de combustíveis enfrentam uma combinação mais difícil: petróleo caro, financiamento internacional oneroso e maior instabilidade dos fluxos de capital.

Para as economias africanas, este quadro pode traduzir-se em maior pressão sobre as facturas de importação, os custos de transporte, a inflação alimentar e as taxas de câmbio. Os exportadores de petróleo e de ouro poderão beneficiar da melhoria dos preços, mas os ganhos dependerão da capacidade de converter receitas externas em investimento produtivo e estabilidade macroeconómica.

Crescimento Resiste, Mas O Custo Do Dinheiro Permanece Elevado

O balanço semanal aponta para uma economia mundial ainda capaz de crescer, mas inserida num ambiente financeiro e geopolítico mais exigente.

O Fundo Monetário Internacional projecta um crescimento global de 3% em 2026 e de 3,4% em 2027. A instituição considera que o investimento em tecnologia continua a apoiar a actividade, embora os efeitos do conflito no Médio Oriente, dos custos energéticos e das tensões comerciais estejam distribuídos de forma desigual entre países.

A principal mudança observada durante a semana foi o regresso do petróleo e da dívida soberana ao centro das decisões dos investidores. A expansão da actividade nos Estados Unidos e na Europa reduziu os receios imediatos de recessão, mas também fortaleceu a possibilidade de as taxas de juro permanecerem elevadas durante mais tempo.

Para a economia internacional, o desafio passou a consistir em preservar o crescimento sem permitir que o choque energético reacenda uma dinâmica inflacionária mais persistente. Para os países em desenvolvimento, o risco é mais amplo: enfrentar simultaneamente energia cara, crédito externo dispendioso e procura mundial desigual.

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