Chapo Projecta Seguradoras Como Investidores Do Crescimento Económico

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  • Presidente da República defende que as seguradoras devem ultrapassar a função tradicional de protecção do risco e transformar poupança nacional em financiamento de infra-estruturas, indústria, energia, habitação e agricultura. A ambição confronta-se com uma taxa de penetração de apenas 1,6% e forte concentração das apólices na cidade de Maputo.
Questões-Chave:
  • Presidente Daniel Chapo considera o crescimento do sector segurador indispensável à independência económica de Moçambique;
  • Seguradoras são chamadas a assumir maior participação no financiamento de projectos produtivos e infra-estruturas;
  • Mercado segurador movimentou cerca de 24,7 mil milhões de Meticais em 2025;
  • Apenas 17% da população adulta possui algum produto ou serviço de seguros;
  • Seguro tradicional representa 98,8% do mercado, enquanto o microsseguro permanece limitado a 1,2%;
  • Cidade de Maputo concentra cerca de 75% das apólices comercializadas;
  • Inclusão, digitalização, riscos climáticos e confiança foram identificados como desafios prioritários;

O Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu que as seguradoras moçambicanas devem assumir um papel mais activo no financiamento do desenvolvimento, canalizando recursos de longo prazo para infra-estruturas, habitação, indústria, energia e agricultura.

A mensagem foi apresentada esta quarta-feira, 3 de Setembro, durante a abertura do simpósio que assinalou os 15 anos da Índico Seguros, em Maputo.

Para o Chefe do Estado, o sector não deve limitar-se a indemnizar famílias e empresas depois da ocorrência de sinistros. Deve também mobilizar poupança interna, proteger o investimento e disponibilizar capital para projectos capazes de gerar produção, emprego e rendimento.

“O dinheiro que hoje protege uma família ou uma empresa pode também ajudar a financiar a estrada, a habitação, a fábrica, a central eléctrica ou o empreendimento agrícola de que Moçambique precisa amanhã”, afirmou Daniel Chapo.

A orientação coloca as seguradoras no centro de uma questão estrutural da economia moçambicana: a reduzida disponibilidade de financiamento de longo prazo e a dependência de capital externo para a materialização de projectos públicos e privados.

Seguradoras Devem Financiar o Crescimento

As seguradoras recebem prémios antecipadamente e constituem reservas para responder a obrigações futuras. Esta característica permite-lhes acumular recursos com horizontes temporais mais longos do que muitas fontes tradicionais de financiamento.

Em mercados financeiros desenvolvidos, seguradoras e fundos de pensões são investidores institucionais relevantes em obrigações, habitação, energia, estradas e outros activos de longo prazo.

Chapo pretende que o mercado moçambicano avance nessa direcção, desde que a aplicação dos recursos respeite os critérios de segurança, prudência, solvência e protecção dos segurados.

“O desafio que colocamos ao sector segurador é maior: não queremos apenas seguradoras que protejam o crescimento. Queremos também seguradoras que participem no financiamento desse crescimento”, declarou.

A proposta não significa que as seguradoras devam financiar directamente qualquer projecto de desenvolvimento. Os recursos que administram correspondem a compromissos assumidos perante os segurados e precisam de ser aplicados em activos com risco controlado, rendibilidade adequada e capacidade de serem convertidos em liquidez.

A ampliação do seu papel dependerá, por isso, da existência de instrumentos financeiros apropriados, projectos economicamente viáveis, regras prudenciais claras e um mercado de capitais capaz de oferecer activos de longo prazo.

Mercado Cresce Mas Permanece Estreito

O sector segurador registou uma produção próxima de 24,7 mil milhões de Meticais em 2025, segundo dados do Relatório de Inclusão Financeira do Banco de Moçambique divulgados em Agosto.

No primeiro semestre de 2026, a produção ultrapassou 12,2 mil milhões de Meticais. O mercado integra actualmente 23 seguradoras, uma microsseguradora, uma resseguradora, oito entidades gestoras de fundos de pensões, 201 corretoras e 37 agentes.

A dimensão institucional, porém, ainda não se traduz numa cobertura ampla da população e das empresas. Apenas cerca de 17% dos adultos possui algum tipo de seguro, enquanto a taxa de penetração se situa em aproximadamente 1,6% do Produto Interno Bruto.

O seguro tradicional representa 98,8% do mercado. O microsseguro, concebido para pessoas de menor rendimento e pequenos negócios, corresponde a apenas 1,2%.

Existe igualmente uma elevada concentração territorial. A cidade de Maputo absorveu cerca de 75% das apólices comercializadas em 2025, contra 69,8% no ano anterior. A província de Maputo representou 5,3%, seguindo-se Inhambane e Sofala, com cerca de 5% cada.

Estes indicadores mostram que o mercado cresce em valor, mas continua estreito em cobertura, limitado geograficamente e concentrado em clientes formais com maior capacidade financeira.

Para que as seguradoras se transformem numa fonte relevante de capital nacional, terão primeiro de aumentar a base de segurados, diversificar produtos e captar poupança em segmentos actualmente afastados do mercado.

Inclusão Deve Chegar à Agricultura e às PMEs

O primeiro desafio identificado pelo Presidente foi a inclusão.

“Queremos que os seguros cheguem ao agricultor de Ribáuè, ao pescador de Angoche, ao comerciante da Beira, ao transportador de Tete, ao empreendedor de Pemba e às pequenas e médias empresas de todo o País”, afirmou.

A expansão exige micro-seguros, seguros agrícolas, soluções paramétricas e produtos ajustados à capacidade financeira das famílias e dos pequenos negócios.

Os seguros paramétricos realizam pagamentos quando um indicador previamente estabelecido — como quantidade de chuva, velocidade do vento ou intensidade de um ciclone — ultrapassa determinado limite. Ao dispensarem avaliações prolongadas das perdas individuais, podem acelerar indemnizações em zonas rurais e áreas afectadas por eventos climáticos.

A reduzida penetração destes produtos limita o acesso ao crédito. Bancos e outras instituições financeiras apresentam maior disponibilidade para financiar empresas, agricultores e activos quando os riscos estão devidamente segurados.

O seguro não funciona, assim, apenas como mecanismo de compensação. Pode melhorar a bancabilidade dos projectos, proteger garantias e reduzir o risco associado à concessão de crédito.

“Inclusão financeira não é apenas ter uma conta bancária ou uma carteira móvel; é também poder proteger aquilo que uma família ou um pequeno negócio levou anos a construir”, sublinhou Chapo.

Tecnologia Pode Reduzir Custos de Distribuição

A digitalização e a inovação constituem o segundo desafio apresentado pelo Presidente.

Num país onde grande parte da população vive distante das agências das seguradoras, a distribuição tradicional aumenta os custos de aquisição de clientes, cobrança de prémios e regularização dos sinistros.

Seguros móveis, plataformas digitais, inteligência artificial e parcerias com operadores de telecomunicações e instituições financeiras podem facilitar a contratação e o pagamento através do telefone.

“A tecnologia deve permitir que um cidadão que vive distante de uma agência possa aceder, através do seu telefone, a soluções de seguro adequadas às suas necessidades”, afirmou Daniel Chapo.

A simplificação dos produtos será igualmente necessária. Contratos complexos, exclusões pouco compreendidas e processos demorados de indemnização alimentam a desconfiança e afastam consumidores.

A digitalização poderá reduzir custos, mas precisará de ser acompanhada por transparência, protecção de dados, mecanismos acessíveis de reclamação e comunicação numa linguagem compreensível.

Risco Climático Amplia Necessidade de Protecção

O terceiro desafio decorre da exposição de Moçambique a ciclones, cheias, secas e outros eventos extremos.

O Presidente defendeu que a resposta aos riscos climáticos não pode começar apenas depois da ocorrência das calamidades.

“Sabemos que um ciclone, uma cheia ou uma seca podem, em pouco tempo, destruir aquilo que uma família, uma comunidade, um agricultor ou uma empresa levou anos a construir”, afirmou.

A ausência de seguros transfere grande parte dos custos das calamidades para as famílias, empresas e orçamento do Estado. Depois de um desastre, o Governo é chamado a financiar assistência, reconstrução de infra-estruturas e recuperação da actividade económica.

O desenvolvimento de seguros agrícolas, paramétricos, habitacionais e de infra-estruturas pode distribuir o risco entre segurados, companhias, resseguradoras e mercados internacionais.

Esta capacidade será cada vez mais relevante à medida que os eventos climáticos se tornem mais frequentes, dispendiosos e difíceis de absorver através dos orçamentos públicos.

“Em Moçambique, falar de seguros é também falar de resiliência”, declarou Chapo.

Confiança Determina a Expansão do Mercado

O quarto desafio apontado foi a confiança.

A decisão de contratar um seguro depende da convicção de que a companhia possui capacidade financeira e institucional para pagar quando ocorrer o sinistro.

Segundo o Presidente, crescimento, supervisão, boa governação, integridade, transparência e protecção do consumidor devem avançar em conjunto.

“Quem contrata um seguro precisa de acreditar que, quando ocorrer o sinistro, encontrará uma instituição solvente, transparente e preparada para cumprir as suas obrigações”, afirmou.

A expansão acelerada sem adequada supervisão poderá comprometer a estabilidade das empresas e prejudicar os segurados. Mas uma regulação excessivamente rígida também poderá travar inovação, entrada de novos operadores e desenvolvimento de produtos dirigidos às populações de menor rendimento.

O mercado terá de equilibrar solvência e inovação, assegurando que produtos mais acessíveis não oferecem uma protecção insuficiente ou difícil de accionar.

Capital Nacional Não Significa Economia Fechada

Daniel Chapo enquadrou a expansão do sector segurador numa estratégia mais ampla de fortalecimento das empresas e do capital nacionais.

“Uma economia sólida não pode depender apenas de empresas e capitais externos. Precisa igualmente de empresários nacionais fortes e de capital moçambicano capaz de investir e crescer”, declarou.

O Presidente esclareceu que esta orientação não corresponde ao encerramento da economia ao investimento estrangeiro. Moçambique continuará a procurar capital, tecnologia, conhecimento e parcerias internacionais.

O objectivo é aumentar a capacidade interna de participar no financiamento, na produção e na criação de riqueza, evitando que o desenvolvimento dependa exclusivamente de recursos mobilizados no exterior.

“Acarinhar as empresas nacionais não significa protegê-las da concorrência; significa criar condições para que possam competir e conquistar o seu espaço pela qualidade dos seus produtos e serviços”, afirmou.

O fortalecimento do capital moçambicano deverá ser acompanhado por maiores exigências de governação, transparência, integridade, responsabilidade fiscal e valorização dos trabalhadores.

“Ser uma empresa nacional não deve significar apenas ter capital ou accionistas moçambicanos. Deve significar criar valor em Moçambique e para Moçambique”, acrescentou.

Índico Seguros Assinala 15 Anos Com Nova Sede

O simpósio assinalou os 15 anos de actividade da Índico Seguros e coincidiu com a inauguração da nova sede da companhia, na Avenida yen Nyerere, em Maputo.

Chapo considerou a aquisição do imóvel uma decisão estratégica e um investimento de longo prazo, destinado a consolidar a presença da empresa no mercado.

“Não se trata apenas de uma mudança física de instalações. Possuir uma sede própria representa património, estabilidade e confiança”, declarou.

O Chefe do Estado apresentou o percurso da companhia como demonstração de que empresas privadas moçambicanas podem crescer, profissionalizar-se e competir com operadores nacionais e internacionais.

Para o conjunto do sector, deixou como prioridades a massificação, inovação e inclusão.

O desafio económico consiste em criar um círculo no qual mais cidadãos e empresas contratam seguros, o mercado acumula recursos de longo prazo, os riscos dos projectos diminuem e uma parcela maior da poupança é transformada em investimento produtivo.

Com uma penetração de apenas 1,6%, a capacidade actual do sector permanece limitada em relação à ambição presidencial. Mas a reduzida cobertura também representa espaço para crescimento.

Transformar essa oportunidade em financiamento para a economia exigirá produtos acessíveis, confiança dos consumidores, maior distribuição territorial e instrumentos capazes de canalizar os recursos das seguradoras para projectos viáveis sem colocar em risco os interesses dos segurados.

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