Dinheiro Móvel Alarga Inclusão Enquanto Rede Bancária Convencional Recua

0
57
  • Agentes das instituições de moeda electrónica cresceram 5,8% no segundo trimestre de 2026, enquanto agências bancárias, ATM e POS diminuíram. Expansão digital acelera o acesso, mas persistem diferenças entre homens e mulheres e entre zonas urbanas e rurais.
Questões-Chave:
  • Agentes das instituições de moeda electrónica cresceram 5,8% no segundo trimestre de 2026;
  • Contas de moeda electrónica aumentaram 4,1%, acima do crescimento de 1,3% das contas bancárias;
  • Agências bancárias diminuíram 0,4%, ATM recuaram 1,1% e POS reduziram 0,4%;
  • Agências bancárias continuam presentes em apenas 128 dos 154 distritos do País;
  • Mulheres possuem 21,8 contas bancárias por 100 adultas, contra 44,8 entre os homens;
  • Nas zonas rurais existem 16 contas bancárias por 100 adultos, comparativamente a 63,1 nas áreas urbanas;
  • Rácio dos depósitos sobre o PIB aumentou de 53% para 53,8%, enquanto o crédito permaneceu próximo de 19,4%;

A expansão dos serviços de moeda electrónica voltou a liderar o avanço da inclusão financeira em Moçambique no segundo trimestre de 2026, contrastando com a redução de parte da infra-estrutura bancária convencional.

Dados do Banco de Moçambique indicam que o número de agentes das instituições de moeda electrónica aumentou 5,8% entre o primeiro e o segundo trimestres, consolidando estes operadores como a principal rede de proximidade para a prestação de serviços financeiros.

No mesmo período, as contas de moeda electrónica cresceram 4,1%, enquanto as contas bancárias aumentaram 1,3%. O número de cartões bancários avançou 3,3%.

Em sentido contrário, as agências bancárias diminuíram 0,4%, as caixas automáticas — ATM — recuaram 1,1% e os terminais de pagamento — POS — reduziram 0,4%.

Os indicadores mostram que a inclusão financeira está a avançar sobretudo através do telefone móvel e das redes de agentes, ao mesmo tempo que o modelo assente em agências, equipamentos bancários e terminais físicos perde espaço relativo.

Moeda Electrónica Supera Rede Convencional

O número de contas das instituições de moeda electrónica passou de 125,8 por 100 adultos, no primeiro trimestre, para 130,9 no segundo trimestre de 2026.

O indicador superior a 100 não significa que toda a população adulta esteja abrangida. Uma mesma pessoa pode possuir mais de uma conta, incluindo registos em diferentes operadores, pelo que o número de contas não equivale ao número de utilizadores únicos.

Ainda assim, a evolução demonstra a escala alcançada pelo dinheiro móvel e a sua capacidade de chegar a áreas onde a instalação de uma agência bancária não apresenta viabilidade económica.

A densidade dos agentes de moeda electrónica aumentou de 2.329 para 2.465 por 100 mil adultos. Nas zonas rurais, passou de 1.975 para 2.021 agentes por 100 mil adultos, enquanto nas áreas urbanas subiu de 3.136 para 3.194.

A expansão permite realizar depósitos, levantamentos, transferências e pagamentos com menores custos de deslocação, especialmente em distritos onde a presença física dos bancos é limitada.

Agências Continuam Ausentes De 26 Distritos

A rede de agências bancárias manteve cobertura em 128 dos 154 distritos, correspondentes a 82,6% do território administrativo nacional. Isto significa que 26 distritos continuam sem uma agência bancária.

A densidade nacional diminuiu de 3,63 para 3,62 agências por 100 mil adultos. Nas zonas urbanas, o indicador passou de 6,41 para 6,16, enquanto nas áreas rurais recuou de 2,15 para 2,08.

A redução das agências não representa necessariamente uma diminuição proporcional do acesso, porque parte das operações está a migrar para canais digitais. Contudo, a presença física continua necessária para determinados serviços, incluindo financiamento empresarial, resolução de reclamações, operações de maior valor e apoio a clientes com reduzida literacia digital.

Os agentes bancários registaram um aumento trimestral, mas a sua densidade permanece baixa: 1,64 por 100 mil adultos, muito abaixo da rede de agentes das instituições de moeda electrónica.

ATM E POS Perdem Densidade

O número de ATM por 100 mil adultos diminuiu de 6,51 para 6,43. Nas áreas urbanas, o indicador recuou de 11,82 para 11,24, enquanto nas zonas rurais caiu de 3,66 para 3,50.

Os POS também registaram uma ligeira redução, passando de 156,57 para 155,99 por 100 mil adultos. A diferença territorial permanece elevada: as zonas urbanas possuem 338,9 terminais por 100 mil adultos, contra apenas 44,6 nas áreas rurais.

A menor disponibilidade de terminais nas zonas rurais limita a utilização directa dos meios electrónicos para pagar bens e serviços. Mesmo quando os consumidores recebem dinheiro através de carteiras móveis, a insuficiência de comerciantes equipados ou preparados para aceitar pagamentos digitais pode obrigá-los a levantar numerário.

Este circuito reduz os benefícios económicos da digitalização, aumenta os custos de transacção e mantém a dependência do dinheiro físico.

Diferença Bancária Entre Homens E Mulheres Persiste

O número de contas bancárias alcançou 33,8 por 100 adultos no segundo trimestre, comparativamente a 33,4 nos primeiros três meses do ano.

A distribuição por género mostra uma diferença significativa. Entre os homens, o indicador atingiu 44,8 contas por 100 adultos, enquanto entre as mulheres se situou em 21,8.

A taxa feminina equivale a menos de metade da registada entre os homens, evidenciando obstáculos relacionados com rendimento, emprego formal, posse de documentação, literacia financeira, propriedade de activos e acesso ao crédito.

Na moeda electrónica, a diferença é menor, embora permaneça relevante. Registaram-se 118,5 contas por 100 mulheres adultas, contra 144,7 por 100 homens.

Estes números confirmam que os serviços móveis reduzem parte das barreiras de entrada, mas não eliminam integralmente as desigualdades económicas que condicionam o acesso e a utilização dos serviços financeiros.

Meio Rural Mantém Baixo Acesso Bancário

Nas zonas urbanas, as contas bancárias representam 63,1% da população adulta, enquanto nas áreas rurais correspondem a apenas 16%.

A diferença é igualmente visível nos cartões bancários. Nas cidades, existem 33,6 cartões por 100 adultos, comparativamente a nove nas zonas rurais.

A moeda electrónica apresenta uma distribuição territorial mais ampla: 127,4 contas por 100 adultos nas zonas urbanas e 133 nas áreas rurais. Mais uma vez, os rácios superiores a 100 reflectem a possibilidade de um utilizador possuir várias contas e não uma taxa de cobertura integral.

O contraste demonstra que o dinheiro móvel conseguiu atravessar a barreira geográfica com maior eficácia do que o sistema bancário convencional. Porém, possuir uma conta móvel não significa necessariamente ter acesso a crédito, poupança remunerada, seguros ou financiamento empresarial.

Mais Depósitos, Mas Crédito Permanece Estagnado

O rácio dos depósitos sobre o PIB aumentou de 53% para 53,8%, uma subida de 0,8 pontos percentuais. O volume de depósitos por mil adultos cresceu cerca de 1,6%, de 39,8 milhões para 40,4 milhões de meticais.

A evolução indica uma maior mobilização de recursos pelo sistema financeiro, mas não foi acompanhada por uma expansão equivalente do crédito.

O rácio crédito/PIB permaneceu praticamente inalterado, passando de 19,45% para 19,41%. O crédito por mil adultos também registou uma ligeira redução, de 14,61 milhões para 14,58 milhões de meticais.

A diferença entre depósitos e crédito sugere que o crescimento das contas e dos recursos captados ainda não está a traduzir-se numa maior intermediação financeira a favor das famílias e empresas.

Inclusão Precisa De Evoluir Do Acesso Para O Uso Produtivo

Os indicadores do segundo trimestre confirmam que Moçambique está a construir uma inclusão financeira predominantemente digital. A rede de agentes e as contas de moeda electrónica crescem rapidamente, enquanto a infra-estrutura bancária convencional se mantém estável ou diminui.

Esta transformação reduz distâncias e custos, mas o alcance económico da inclusão não deve ser medido apenas pelo número de contas abertas ou agentes disponíveis.

Uma inclusão mais profunda exige utilização regular dos serviços, protecção dos consumidores, interoperabilidade, segurança das transacções e acesso a poupança, crédito, seguros e meios de pagamento aceites pelas empresas.

A diferença entre a rápida expansão das contas de moeda electrónica e a estagnação do crédito mostra que a próxima etapa deverá ligar os canais digitais ao financiamento da produção, do comércio, da agricultura e das micro, pequenas e médias empresas.

O.ECONÓMICO
Informação em tempo real
Fique a par.
Esteja à frente.
Acompanhe as principais actualidades nacionais e internacionais e tenha a informação certa para tomar melhores decisões.
CONECTE-SE AO NOSSO WHATSAPP
Informação que faz a diferença.
O.ECONÓMICO • Informação para decidir melhor