Moçambique Conquista Prémio Internacional de Conservação Após Recuperação de Fauna no Delta do Zambeze

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  • O projecto Zambeze Delta Safaris, liderado por Mark Haldane, recebeu o Prémio Markhor 2026 durante a COP17, na Arménia, pelo trabalho de recuperação da biodiversidade e apoio às comunidades na Coutada 11, em Sofala. A população de búfalos terá passado de cerca de 2.300 para 30 mil animais, enquanto a reintrodução de leões permitiu recuperar uma espécie que tinha desaparecido da região. A distinção dá visibilidade internacional a um modelo de conservação financiado parcialmente pela utilização regulamentada dos recursos faunísticos, mas também levanta questões sobre a sustentabilidade económica, a repartição dos benefícios e o futuro do turismo de natureza em Moçambique.
QUESTÕES-CHAVE
  • Prémio Internacional: Zambeze Delta Safaris recebeu o Prémio Markhor 2026, anunciado a 22 de Outubro, durante a COP17, em Yerevan;
  • Presença Histórica: Projecto desenvolve actividades de conservação na Coutada 11, integrada no Complexo de Marromeu, há mais de três décadas;
  • Recuperação da Fauna: População de búfalos terá aumentado para cerca de 30 mil animais, enquanto a reintrodução de leões permitiu recuperar uma população estimada em cerca de 100 exemplares;
  • Impacto Social Directo: Iniciativa emprega aproximadamente 150 pessoas das comunidades locais e distribui anualmente cerca de 55 toneladas de carne obtida de forma sustentável;
  • Modelo Operacional: Modelo combina conservação, caça regulamentada, fiscalização, recuperação de habitats e actividades económicas comunitárias;
  • Valorização da Biodiversidade: Distinção introduz uma referência para o debate africano sobre financiamento da biodiversidade e valorização económica sustentável das áreas protegidas.

Moçambique conquistou uma distinção internacional na área da conservação da biodiversidade, com a atribuição do Prémio Markhor 2026 ao projecto Zambeze Delta Safaris, liderado pelo conservacionista Mark Haldane, numa cerimónia realizada a 22 de Outubro, à margem da 17.ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Diversidade Biológica (COP17), em Yerevan, na Arménia. O reconhecimento resulta de mais de três décadas de intervenções na recuperação da fauna selvagem da Coutada 11, no Complexo de Marromeu, província de Sofala, onde populações animais severamente afectadas pela guerra civil registaram uma recuperação significativa. O projecto combina fiscalização, reintrodução de espécies e actividades económicas ligadas à utilização regulamentada da fauna, assegurando também emprego e apoio às comunidades. A distinção ocorre num momento em que os países reunidos na COP17 discutem os progressos e os mecanismos de financiamento necessários para cumprir as metas globais de biodiversidade até 2030, conferindo à experiência moçambicana uma dimensão que ultrapassa o reconhecimento ambiental e alcança o debate sobre a economia da conservação. 

Prémio Markhor Reconhece Três Décadas de Recuperação Ambiental

A distinção atribuída a Mark Haldane foi anunciada durante uma conferência de imprensa realizada a 22 de Outubro, na capital arménia, reunindo representantes das instituições internacionais ligadas à conservação da biodiversidade.

Criado em 2008 pelo Conselho Internacional para a Conservação da Caça e da Vida Selvagem (CIC), o Prémio Markhor distingue iniciativas que apresentam resultados na recuperação e conservação da biodiversidade através da utilização sustentável dos recursos naturais.

Desde 2024, a distinção é promovida conjuntamente pelo CIC e pela Wild Sheep Foundation, sendo atribuída a projectos que conciliem a conservação com benefícios para as comunidades e meios de subsistência locais.

Na edição de 2026, Haldane foi seleccionado entre três finalistas provenientes de Moçambique, África do Sul e Mongólia.

O projecto distinguido opera na Coutada Oficial n.º 11, integrada no Complexo de Marromeu, uma das mais importantes paisagens de conservação do Delta do Zambeze.

A intervenção teve início em 1994, quando a região ainda enfrentava os efeitos da guerra civil, que provocara uma forte redução das populações animais e comprometera a capacidade de gestão e fiscalização da fauna.

Ao longo das décadas seguintes, foram desenvolvidas operações de combate à caça furtiva, protecção de habitats, recuperação de populações animais e iniciativas de apoio às comunidades.

A Secretária Executiva da Convenção sobre a Diversidade Biológica, Astrid Schomaker, considerou que o Prémio Markhor constitui uma oportunidade para apresentar experiências em que a conservação da biodiversidade também contribui para o bem-estar humano e o desenvolvimento sustentável das comunidades. 

Búfalos Recuperam Para Cerca de 30 Mil e Leões Voltam ao Delta

Os indicadores apresentados pelo projecto evidenciam uma recuperação expressiva de populações de animais selvagens.

Segundo Tamar Kendon, bióloga de conservação da Zambeze Delta Safaris, a população de búfalos passou de aproximadamente 2.300 para cerca de 30 mil exemplares ao longo do período de intervenção.

Um levantamento aéreo recente terá identificado ainda cerca de 117 mil antílopes na área abrangida pelo projecto.

No caso dos leões, a iniciativa promoveu a reintrodução de 24 animais provenientes da África do Sul, dando origem a uma população actualmente estimada em cerca de 100 exemplares.

O programa permitiu restabelecer a presença destes grandes carnívoros numa paisagem de quase um milhão de hectares, contribuindo para a recuperação das relações ecológicas entre predadores, presas e habitats.

Os resultados indicam uma transformação substancial da paisagem faunística do Delta do Zambeze, embora as diferenças entre as estimativas divulgadas por diferentes fontes aconselhem prudência na comparação dos efectivos animais.

Uma reportagem da Mongabay, por exemplo, apresenta números de cerca de 35 mil búfalos e 120 leões, com base na candidatura submetida ao prémio, ressalvando que não foi possível verificar independentemente todos os indicadores.

A existência de levantamentos aéreos e programas de monitoria constitui, por isso, uma componente importante para acompanhar a evolução real das populações e avaliar a sustentabilidade ecológica da recuperação.

Conservação Gera Emprego e Apoia Actividades Económicas das Comunidades

A recuperação da fauna é acompanhada por iniciativas de desenvolvimento comunitário que procuram assegurar benefícios económicos e sociais para as populações residentes nas áreas envolventes.

Segundo a informação divulgada pelo projecto, a Zambeze Delta Safaris emprega aproximadamente 150 pessoas das comunidades locais, criando oportunidades de rendimento numa região caracterizada por limitações de acesso a infra-estruturas e serviços.

O programa contempla igualmente a distribuição anual de cerca de 55 toneladas de carne proveniente de operações de utilização sustentável da fauna.

Entre as restantes intervenções encontram-se a construção de poços de água, apoio à agricultura, desenvolvimento da pesca sustentável e apicultura, além de assistência a uma escola, uma pré-escola e uma unidade sanitária.

Estas actividades procuram associar a conservação à melhoria das condições de vida, criando incentivos para a participação das comunidades na protecção dos recursos naturais.

A componente económica ganha relevância perante os custos permanentes de gestão das áreas de conservação, incluindo fiscalização, manutenção de infra-estruturas, monitoria da fauna e contratação de pessoal.

Contudo, os números divulgados não permitem quantificar o rendimento agregado gerado pelo projecto, as receitas provenientes das actividades turísticas ou a parcela efectivamente transferida para as comunidades.

A avaliação desses elementos seria importante para compreender a distribuição económica dos benefícios e a capacidade de financiamento do modelo.

Caça Regulamentada Financia Parte da Conservação, Mas Modelo Exige Fiscalização

Uma das particularidades da experiência distinguida no Delta do Zambeze é a utilização da caça turística regulamentada como instrumento de financiamento da conservação.

Segundo a Zambeze Delta Safaris, as receitas provenientes destas actividades contribuem para sustentar operações de fiscalização, protecção de habitats, acompanhamento das populações animais e programas comunitários.

Tamar Kendon destacou que esta componente tem sido particularmente importante numa região onde as cheias sazonais dificultam o acesso e limitam a expansão de modalidades convencionais de ecoturismo.

O modelo apresenta uma abordagem económica baseada na criação de receitas associadas à conservação de espécies e habitats, procurando assegurar que a manutenção da biodiversidade tenha benefícios para as populações e para os operadores.

Contudo, a utilização comercial da fauna, incluindo a caça de troféus, continua a ser objecto de debate internacional.

Os defensores deste modelo argumentam que, quando existe regulamentação eficaz, quotas sustentáveis e participação das comunidades, as receitas podem contribuir para financiar áreas naturais que enfrentam dificuldades de obtenção de recursos.

Em contrapartida, críticos da caça turística questionam os seus efeitos sobre determinadas populações animais, a distribuição dos rendimentos e a capacidade de fiscalização, particularmente em territórios com limitações institucionais.

O reconhecimento atribuído pelo Prémio Markhor distingue os resultados apresentados pelo projecto, mas não elimina a necessidade de monitoria científica, transparência financeira e avaliação independente dos impactos ambientais e sociais.

Delta do Zambeze Integra Uma das Principais Paisagens de Conservação do País

A Coutada 11 encontra-se integrada no Complexo de Marromeu, que inclui a Reserva Nacional de Marromeu e outras coutadas oficiais da região.

O complexo possui importância ecológica internacional, abrangendo extensas zonas húmidas, planícies de inundação e habitats fundamentais para numerosas espécies de fauna selvagem.

Em 2003, o Complexo de Marromeu tornou-se a primeira zona húmida moçambicana reconhecida como sítio de importância internacional ao abrigo da Convenção de Ramsar.

A recuperação da fauna nesta paisagem constitui, por isso, um desenvolvimento relevante para a conservação nacional e para os compromissos internacionais de protecção dos ecossistemas. 

O reconhecimento internacional poderá contribuir para valorizar a imagem de Moçambique como destino de turismo de natureza e área de interesse para iniciativas de investigação e financiamento ambiental.

Essa valorização não equivale, contudo, à existência de novas receitas ou investimentos directamente resultantes do prémio, que ainda não foram quantificados.

Distinção na COP17 Projecta Debate Sobre Economia da Biodiversidade

A atribuição do Prémio Markhor ocorre durante a COP17, realizada entre 19 e 30 de Outubro, em Yerevan, onde governos e organizações internacionais analisam a implementação do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal.

A conferência inclui a primeira avaliação global dos progressos colectivos realizados desde a adopção daquele quadro, em 2022.

Entre as principais questões em discussão encontram-se a mobilização de financiamento, a recuperação dos ecossistemas, a utilização sustentável dos recursos naturais e a participação das comunidades nos benefícios da conservação. 

A experiência moçambicana distingue-se precisamente por associar indicadores de recuperação da fauna a actividades económicas e programas comunitários.

Para as economias africanas, particularmente aquelas que dispõem de extensas áreas de biodiversidade e enfrentam limitações de financiamento público, este debate apresenta uma dimensão estratégica.

A protecção dos ecossistemas exige recursos financeiros regulares, capacidade institucional e mecanismos que permitam conciliar conservação com desenvolvimento local.

A dependência exclusiva de financiamento externo pode dificultar a continuidade dos programas quando os projectos ou subvenções chegam ao fim.

Neste contexto, modelos capazes de combinar receitas próprias, financiamento público, investimento privado e cooperação internacional poderão contribuir para diversificar as fontes de sustentabilidade financeira das áreas protegidas.

A experiência de Marromeu constitui uma referência concreta para analisar essas possibilidades, embora a sua aplicação noutras regiões exija considerar as características ecológicas, económicas e sociais de cada território.

Reconhecimento Internacional Acrescenta Visibilidade à Conservação Moçambicana

A distinção atribuída à Zambeze Delta Safaris acrescenta visibilidade internacional aos esforços de recuperação da biodiversidade realizados em Moçambique.

O prémio reconhece um percurso desenvolvido durante mais de três décadas, assente em actividades de gestão da fauna, fiscalização, reintrodução de espécies e apoio comunitário.

A recuperação reportada das populações de búfalos e leões constitui o elemento ambiental mais expressivo, enquanto o emprego local e os programas de apoio às comunidades evidenciam a dimensão socioeconómica da intervenção.

A atribuição do prémio durante a COP17 confere particular projecção internacional ao projecto, num momento em que a comunidade global procura identificar mecanismos de financiamento capazes de assegurar a conservação de longo prazo.

A experiência também introduz questões relevantes para a política nacional de conservação, especialmente sobre a integração de operadores privados, a fiscalização das actividades económicas e a repartição dos benefícios com as comunidades locais.

O reconhecimento alcançado pelo projecto do Delta do Zambeze demonstra que a recuperação de ecossistemas degradados pode ocorrer em paralelo com actividades económicas e benefícios comunitários. A sustentabilidade deste modelo, contudo, exige que os resultados ecológicos continuem a ser documentados e que a utilização económica dos recursos permaneça compatível com a conservação das espécies.

Para Moçambique, o prémio constitui uma oportunidade de dar maior visibilidade à experiência de gestão da fauna no Complexo de Marromeu e ao contributo das parcerias desenvolvidas na região.

O significado económico da distinção encontra-se na possibilidade de aprofundar o debate sobre modelos de financiamento capazes de assegurar a continuidade da conservação, a participação das comunidades e a valorização sustentável de um património natural de importância internacional.