Chapo Defende em Moscovo Industrialização do Gás e Projecta Exportações Superiores a 35 Milhões de Toneladas Por Ano

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O Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu nesta terça-feira, 27 de Outubro, em Moscovo, que a expansão da indústria de gás natural em África deve ser acompanhada por maior transformação industrial, transferência de tecnologia e acesso das populações à energia, numa intervenção perante a VIII Cimeira de Chefes de Estado e de Governo do Fórum dos Países Exportadores de Gás (GECF). Ao apresentar a estratégia moçambicana, o Chefe do Estado anunciou a perspectiva de uma capacidade de exportação superior a 35 milhões de toneladas anuais de gás natural liquefeito (GNL), quando os empreendimentos actualmente em desenvolvimento na Bacia do Rovuma estiverem plenamente operacionais. Chapo defendeu igualmente uma maior concertação internacional para assegurar a estabilidade dos mercados energéticos, mas associou o posicionamento de Moçambique como futuro grande exportador à necessidade de utilizar o gás na produção de fertilizantes, geração de electricidade, industrialização e criação de oportunidades económicas para as empresas nacionais.

QUESTÕES-CHAVE
  • Capacidade Exportadora: Moçambique poderá alcançar capacidade de exportação superior a 35 milhões de toneladas de GNL por ano, quando os novos projectos estiverem plenamente operacionais;
  • Estabilidade Global: Daniel Chapo defendeu mercados internacionais estáveis, fornecedores fiáveis e maior cooperação entre produtores e consumidores;
  • Paradoxo Africano: O Presidente alertou para o contraste entre o potencial energético africano e os milhões de habitantes sem acesso à electricidade e a soluções modernas de cozinha;
  • Uso Doméstico: O Governo pretende ampliar a utilização doméstica do gás na produção de fertilizantes, geração de electricidade e desenvolvimento industrial;
  • Exemplo de Temane: Temane foi apresentado como referência para o aproveitamento nacional do gás, incluindo uma central de geração eléctrica de 450 megawatts;
  • Prioridades ao GECF: Moçambique propôs quatro prioridades ao Fórum: estabilidade dos mercados, transferência de tecnologia, transformação local e transição energética justa.

Moçambique Apresenta Ambição de Superar 35 Milhões de Toneladas de GNL

Perante dirigentes de alguns dos principais países produtores de gás natural, Daniel Chapo apresentou Moçambique como um actor emergente no mercado internacional de energia, destacando a evolução registada desde a adesão ao GECF, em 2022, na qualidade de observador. Na altura, o País preparava o início das exportações de GNL da Bacia do Rovuma, uma actividade que se tornou realidade com a entrada em produção do Coral Sul.

Actualmente, a expansão da indústria assenta no desenvolvimento de novos projectos estruturantes, que poderão elevar substancialmente a capacidade de exportação. “Quando estes empreendimentos estiverem plenamente operacionais nos próximos anos, Moçambique poderá alcançar uma capacidade de exportação superior a 35 milhões de toneladas de gás natural liquefeito por ano”, afirmou o Presidente.

A projecção presidencial constitui uma referência para a ambição energética nacional, embora esteja condicionada à entrada em funcionamento dos diferentes empreendimentos, ao cumprimento dos calendários de construção e à concretização das decisões de investimento ainda pendentes. Entre os principais projectos encontram-se o Coral Sul, actualmente em produção, o Coral Norte, o Mozambique LNG e o Rovuma LNG.

A escala destes investimentos poderá alterar significativamente o peso do gás nas exportações moçambicanas, ampliando simultaneamente a importância do País na oferta internacional de GNL. As perspectivas de expansão também aumentam a relevância da gestão das receitas futuras, do financiamento da participação nacional e da criação de ligações entre os grandes empreendimentos e os restantes sectores da economia.

Segurança Energética Exige Cooperação Entre Produtores e Consumidores

A intervenção presidencial ocorreu num momento de elevada sensibilidade dos mercados energéticos internacionais, caracterizado por tensões geopolíticas, perturbações das cadeias de abastecimento e incerteza sobre as perspectivas de investimento. A VIII Cimeira do GECF, realizada sob o tema «Situação Actual no Mercado do Gás», reuniu representantes de países que concentram uma parcela expressiva das reservas, da produção e das exportações mundiais de gás natural.

Indicadores da Estratégia de Gás e Energia de Moçambique

  • Capacidade Alvo de Exportação de GNL: >35 Milhões de Toneladas Por Ano (MTPA)
  • Representatividade Global do GECF: ~70% das reservas provadas e ~42% das exportações globais
  • Capacidade da Central Térmica de Temane: 450 Megawatts (MW)
  • Evolução do Acesso à Electricidade: 30% (2018) para 70% (2026) | Meta: 100% até 2030
  • Histórico de Fornecimento Regional: +20 anos de exportação de gás por gasoduto para a África do Sul

Fonte: Discurso Presidencial na VIII Cimeira do GECF / Presidência da República (Outubro de 2026).

Segundo dados apresentados no contexto da organização, os seus membros representam aproximadamente 70% das reservas mundiais comprovadas de gás e cerca de 42% das exportações globais do combustível. Neste enquadramento, Chapo defendeu a necessidade de reforçar os mecanismos de confiança e cooperação internacional. “Nenhum país pode construir a sua segurança energética isoladamente”, afirmou, acrescentando que os produtores necessitam de mercados estáveis, enquanto os consumidores precisam de fornecedores fiáveis. O Presidente sustentou ainda que “a soberania energética de uns não pode ser construída à custa da insegurança energética de outros”.

A posição assume relevância para um país como Moçambique, cujos grandes investimentos de GNL exigem compromissos comerciais de longo prazo, financiamento internacional e estabilidade nas condições de acesso aos mercados. A segurança da procura, a previsibilidade dos preços e a continuidade das relações comerciais constituem elementos particularmente importantes para projectos intensivos em capital e com períodos prolongados de recuperação do investimento.

África Exporta Energia, Mas Milhões de Habitantes Continuam Sem Electricidade

Uma das passagens mais significativas da intervenção incidiu sobre o contraste entre a abundância de recursos energéticos africanos e as limitações de acesso à energia no próprio continente. Chapo observou que África está a ampliar a sua participação no abastecimento mundial de gás natural, mas continua a enfrentar dificuldades estruturais na electrificação e na disponibilização de soluções modernas de cozinha.

“África não pode continuar a ser um continente que ilumina outras partes do mundo enquanto milhões dos seus próprios cidadãos permanecem na escuridão”, declarou. A mensagem introduz uma dimensão económica e social na discussão sobre o posicionamento internacional dos produtores africanos.

O aumento das exportações de gás pode gerar receitas cambiais, impostos, dividendos e investimentos de grande escala. Contudo, esses fluxos não se traduzem automaticamente em maior acesso à electricidade ou em custos energéticos mais competitivos para as famílias e empresas. A transformação deste potencial em benefícios domésticos exige investimentos em infra-estruturas energéticas, redes de transporte e distribuição, capacidade industrial e mecanismos de fornecimento ao mercado nacional.

Transformação Local do Gás Assume Prioridade na Estratégia Económica

O Chefe do Estado dedicou parte substancial da intervenção à necessidade de utilizar os recursos energéticos como base para o desenvolvimento de novas capacidades produtivas. Defendeu a passagem de uma estrutura económica assente predominantemente na extracção e exportação de recursos naturais para outra em que estes contribuam directamente para a industrialização. O objectivo, afirmou, é desenvolver “uma economia que transforma esses recursos em valor acrescentado, industrialização e soberania económica”.

Esta orientação coloca a utilização doméstica do gás entre as componentes mais relevantes da estratégia económica nacional. O Presidente mencionou a produção de fertilizantes, a geração de electricidade e o abastecimento de unidades industriais como actividades que poderão beneficiar do desenvolvimento do sector. A produção de fertilizantes apresenta particular importância para a agricultura, considerando a necessidade de aumentar a produtividade e reduzir os custos dos factores de produção.

Chapo associou igualmente a expansão da indústria à participação das empresas moçambicanas nas cadeias de fornecimento, à formação de técnicos e engenheiros nacionais e à criação de empregos qualificados. “O conteúdo local deve traduzir-se em empresas mais fortes, empregos qualificados e oportunidades para os nossos jovens”, afirmou.

Temane Apresentado Como Exemplo de Aproveitamento Doméstico

Para ilustrar as possibilidades de utilização interna dos recursos energéticos, Daniel Chapo destacou a experiência de Temane, na província de Inhambane. O Presidente referiu o aproveitamento do gás natural para a produção de gás de cozinha e outros derivados, bem como a construção de uma central de geração eléctrica de 450 megawatts.

O projecto energético de Temane constitui uma referência para a articulação entre recursos de gás e produção de electricidade, podendo contribuir para ampliar a disponibilidade de energia destinada ao consumo doméstico e à actividade económica. Chapo sublinhou igualmente que o desenvolvimento da indústria deve contribuir para a segurança alimentar, através da produção de fertilizantes e de melhores condições energéticas para a agricultura e a agro-indústria.

No domínio da electrificação, o Presidente afirmou que o acesso à electricidade passou de 30%, em 2018, para 70%, reiterando o compromisso governamental de alcançar o acesso universal até 2030. A intervenção destacou também o papel já desempenhado por Moçambique no abastecimento de gás natural à região da África Austral, fornecendo gás à África do Sul há mais de duas décadas.

Fundo Soberano e As Quatro Prioridades Apresentadas ao GECF

A utilização das receitas provenientes do gás para financiar o desenvolvimento de longo prazo constituiu outra prioridade apresentada pelo Presidente, referindo o Fundo Soberano como instrumento para assegurar benefícios intergeracionais. Defendeu o aproveitamento dessas receitas para apoiar a diversificação económica na agricultura, turismo, pecuária, industrialização, digitalização, energia, economia azul e cadeias de valor.

“A riqueza que hoje extraímos do nosso subsolo deve ajudar a construir um futuro que não depende do gás para a presente e para as futuras gerações”, afirmou.

Na parte final da intervenção, Daniel Chapo apresentou quatro prioridades para o aprofundamento da cooperação no GECF:

  • Estabilidade de Mercado: Promoção de um mercado internacional do gás mais estável e previsível;
  • Capacitação Técnica: Transferência de tecnologia e formação de quadros para aprofundar competências nacionais;
  • Transformação Local: Investimentos orientados para a industrialização interna e geração de emprego;
  • Transição Justa: Defesa de uma transição energética justa que concilie metas ambientais com o desenvolvimento económico.

Chapo sustentou que os mecanismos internacionais de financiamento devem reconhecer as diferentes realidades económicas dos países, permitindo o aproveitamento responsável do gás natural em complementaridade com as energias renováveis. Em Moscovo, Daniel Chapo apresentou Moçambique como um futuro fornecedor de GNL de grande escala, associando essa ambição a um imperativo de desenvolvimento: assegurar que o crescimento das exportações sustentará uma economia nacional mais competitiva e industrializada.