Filas Regressam aos Postos Apesar de Governo Garantir Stocks de Combustíveis

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MIREME atribui constrangimentos em Maputo a falhas logísticas, reforça operações no Terminal da Matola e espera 8.000 toneladas de gasolina, enquanto episódios recorrentes de abastecimento voltam a colocar a capacidade de distribuição e financiamento do sector sob atenção.

Questões-Chave:

  • MIREME garante que não existe ruptura de stocks e atribui as filas registadas em Maputo a constrangimentos logísticos durante o fim-de-semana prolongado;
  • Terminal da Matola carregou 1,176 milhões de litros de gasolina em 29 de Setembro, próximo da média diária de 1,2 milhões;
  • Novo carregamento de 8.000 toneladas de gasolina estava previsto chegar ao País em 1 de Outubro;
  • Governo anuncia extensão dos horários dos terminais e abertura das operações de carregamento aos sábados;
  • Relatos recolhidos pelo O País apontaram postos encerrados e longas filas em Maputo e Matola, enquanto foram também reportados constrangimentos em Chimoio, Tete, Nampula e Pemba;
  • Sector atravessa um ano marcado por pressão dos preços internacionais, custos logísticos e dificuldades no financiamento das importações;
  • Combustíveis representaram US$ 236,4 milhões em importações no primeiro trimestre de 2026.

As longas filas regressaram aos postos de abastecimento de Maputo e Matola no final de Setembro, poucos meses depois de o País ter enfrentado fortes constrangimentos no fornecimento de combustíveis, colocando novamente sob atenção a capacidade da cadeia nacional de assegurar que os stocks existentes chegam regularmente à rede de retalho.

O Ministério dos Recursos Minerais e Energia (MIREME) garante que o episódio não resulta de uma ruptura de stocks. Segundo a instituição, constrangimentos logísticos durante o fim-de-semana prolongado afectaram o ciclo regular de carregamento e distribuição, impedindo que alguns postos recebessem gasolina dentro dos períodos habituais de reposição.

A explicação oficial surge perante uma realidade perceptível para os consumidores. Automobilistas permaneceram durante horas em filas em Maputo e Matola, enquanto uma verificação realizada pelo O País encontrou postos encerrados e outros com longas filas devido à disponibilidade limitada do produto.

O episódio evidencia uma distinção relevante para a análise do mercado: existência de combustível nos terminais e disponibilidade efectiva nos postos de abastecimento representam momentos diferentes da cadeia. Uma falha na distribuição pode produzir escassez localizada no retalho mesmo quando existem stocks agregados suficientes.

Terminal Da Matola Carrega 1,176 Milhões De Litros Num Dia

Para normalizar a distribuição, o MIREME mobilizou equipas operacionais no Terminal da Matola e reforçou o carregamento de camiões-cisterna destinados aos postos.

Em 29 de Setembro foram carregados 1,176 milhões de litros de gasolina, um volume muito próximo da média diária de aproximadamente 1,2 milhões de litros, segundo os dados divulgados pelo Ministério.

O Governo considera esse volume uma indicação de que as operações retomaram o ritmo normal e afirma que os stocks disponíveis são suficientes para abastecer a Cidade de Maputo até à chegada do próximo navio.

A reposição estava prevista para 1 de Outubro, com 8.000 toneladas de gasolina.

A sequência dos acontecimentos coloca, contudo, a logística no centro da discussão. Se o produto existe nos terminais mas determinados postos deixam temporariamente de o disponibilizar, a continuidade do abastecimento passa também pela capacidade de carregamento, transporte e reposição da rede comercial.

Governo Vai Abrir Carregamentos Aos Sábados

As próprias medidas anunciadas pelo MIREME reconhecem a necessidade de reforçar esta componente da cadeia.

O Ministério decidiu aumentar a coordenação entre os diferentes intervenientes, estender os horários de carregamento nos terminais sempre que necessário e permitir operações aos sábados, particularmente durante fins-de-semana prolongados e períodos de maior consumo.

Estas alterações procuram reduzir a vulnerabilidade da distribuição a interrupções do calendário normal de funcionamento.

A questão assume maior dimensão porque os relatos não ficaram circunscritos à capital. O material consultado pelo O.Económico refere também filas em Chimoio, Tete, Nampula e Pemba, situações sobre as quais o comunicado do MIREME reproduzido pela imprensa não apresentou uma explicação específica.

A abrangência territorial destes relatos reforça a necessidade de distinguir a explicação imediata para Maputo das condições gerais da cadeia nacional de abastecimento.

Financiamento Das Importações Continua A Ser Uma Vulnerabilidade

O episódio de Setembro não deve, porém, ser automaticamente atribuído à escassez de divisas.

O MIREME identifica constrangimentos logísticos como causa das filas actualmente registadas em Maputo. Não existe, na informação divulgada sobre este episódio, indicação oficial de que a falta de divisas tenha provocado a interrupção da distribuição.

O contexto mais amplo do sector revela, contudo, uma vulnerabilidade financeira que permanece relevante.

Em Maio, o próprio MIREME informou que o Governo estava a implementar medidas excepcionais para assegurar o abastecimento num ambiente caracterizado por dificuldades na cadeia internacional e por desafios associados ao financiamento das importações. O Ministério anunciou então uma facilidade financeira que permitiu libertar volumes adicionais de combustíveis através da Petromoc.

Um mês antes, a instituição já tinha alertado que a subida dos preços internacionais estava a elevar a factura das importações para níveis superiores à capacidade financeira gerada pela venda de combustíveis no mercado doméstico. O custo de transporte, segundo o MIREME, tinha passado de aproximadamente US$ 5 por barril em Janeiro para US$ 13,78 por barril no contexto das tensões no Médio Oriente.

O sistema enfrenta, portanto, riscos diferentes que podem produzir consequências semelhantes para o consumidor: disponibilidade internacional do produto, capacidade de financiar as importações e eficiência logística da distribuição doméstica.

Combustíveis Custaram US$ 236,4 Milhões No Primeiro Trimestre

A dimensão financeira da cadeia torna-se mais clara quando observada através da factura de importação.

Dados do Banco de Moçambique indicam que o País gastou US$ 236,4 milhões na importação de combustíveis no primeiro trimestre de 2026, uma redução de 1,4% relativamente aos US$ 239,6 milhões registados no mesmo período de 2025.

O gasóleo representou US$ 164,9 milhões, a gasolina US$ 56,4 milhões e o combustível de aviação US$ 15,2 milhões. Os combustíveis absorveram quase metade dos US$ 517 milhões gastos na importação de bens intermédios durante o trimestre.

A dependência das importações torna o abastecimento particularmente sensível às condições internacionais do petróleo e dos fretes, ao financiamento das compras externas e à disponibilidade de divisas para efectuar os pagamentos.

Essa relação ganha relevância num período em que o mercado cambial moçambicano continua a apresentar dificuldades de acesso a divisas.

O FMI identificou atrasos no acesso e utilização de divisas para determinadas transacções internacionais e referiu a priorização de operações consideradas essenciais, entre elas importações de combustíveis, alimentos e medicamentos. Na sua avaliação, as restrições existentes contribuem para agravar a escassez de divisas.

Stocks Nos Terminais Não Eliminam Risco De Falhas No Retalho

O episódio actual evidencia, sobretudo, a importância de avaliar a segurança do abastecimento ao longo de toda a cadeia.

O MIREME sustenta que existe produto suficiente e que não ocorreu ruptura de stocks. Os dados de carregamento no Terminal da Matola mostram, por sua vez, volumes próximos da média diária e a chegada de mais 8.000 toneladas de gasolina acrescenta capacidade de reposição.

Mas a experiência dos consumidores mostra que segurança de stock e disponibilidade no posto não são necessariamente coincidentes.

Quando a distribuição sofre interrupções, mesmo temporárias, o efeito económico aparece rapidamente: filas, tempo perdido, perturbações na mobilidade e dificuldades operacionais para empresas dependentes de transporte.

As medidas agora anunciadas — horários mais extensos, carregamentos aos sábados e maior coordenação entre operadores — deslocam parte da atenção para a robustez logística da cadeia.

A evolução do abastecimento depois da chegada da nova carga e a normalização dos postos permitirão perceber se o episódio ficou efectivamente circunscrito à logística do fim-de-semana prolongado. Num sector que atravessou sucessivas pressões ao longo de 2026, a regularidade da distribuição, a capacidade de financiar importações e a disponibilidade de divisas permanecem três variáveis distintas, mas interligadas, para a segurança do abastecimento nacional.