Ciclone Gezani Afasta-Se, Mas Reforça Alerta Sobre Fragilidade Estrutural E Custos Económicos Dos Eventos Extremos

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Quatro mortos, milhares de consumidores sem energia e mais de mil habitações danificadas expõem vulnerabilidades persistentes numa economia ainda sob pressão climática.

Questões-Chave:
  • INAM confirma que o ciclone deixou de constituir perigo para Moçambique;
  • Quatro óbitos e cerca de 500 pessoas afectadas na província de Inhambane;
  • 253 casas danificadas e impactos relevantes nos sectores da educação e saúde;
  • 17 mil clientes continuam sem energia após danos em infra-estruturas eléctricas;
  • Presidente enaltece comportamento preventivo das populações como factor mitigador.

O ciclone tropical intenso Gezani já não constitui perigo para Moçambique, após ter passado paralelamente à costa da província de Inhambane e regressado ao Oceano Índico, informou o Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) . O sistema não chegou a penetrar no continente, o que reduziu significativamente a intensidade dos ventos projectados e, consequentemente, a magnitude dos danos directos.

Ainda assim, o episódio deixou um rasto humano e material que reacende o debate sobre a resiliência estrutural do país perante fenómenos climáticos extremos.

Segundo dados preliminares avançados pelas autoridades, registaram-se quatro óbitos na província de Inhambane, além de um ferido grave e cerca de 500 pessoas afectadas . Parte das mortes resultou da queda de um coqueiro sobre uma residência e de descargas atmosféricas, o que demonstra como, mesmo quando o epicentro de um fenómeno não atinge directamente o território, os seus efeitos periféricos continuam a ser potencialmente letais.

Foram igualmente danificadas pelo menos 1.253 casas, afectadas dezenas de estabelecimentos de ensino e unidades sanitárias, além de infra-estruturas públicas e sistemas de abastecimento de água . Embora os números ainda estejam em actualização, o impacto evidencia a vulnerabilidade do edificado, sobretudo em zonas costeiras e periurbanas.

Energia: Infra-estruturas Expostas E Pressão Sobre Serviços Essenciais

A Eletricidade de Moçambique (EDM) reportou que 132 mil clientes foram inicialmente afectados pelo ciclone, tendo sido restabelecido o fornecimento a 115 mil consumidores. Permanecem, contudo, 17 mil clientes sem corrente eléctrica . O fenómeno derrubou 61 postes de energia, dos quais apenas parte foi já reposta, mantendo equipas técnicas mobilizadas no terreno.

A interrupção no fornecimento eléctrico não é apenas um inconveniente doméstico. Representa perdas económicas directas para pequenos negócios, constrangimentos para unidades sanitárias, pressão sobre sistemas de abastecimento de água e impactos na cadeia logística local. Em regiões cuja actividade económica assenta fortemente no comércio informal, pesca artesanal e serviços, a disrupção energética tem efeito multiplicador.

Comportamento Preventivo E Gestão Do Risco

Num contexto marcado por recorrentes eventos extremos, o Presidente da República, Daniel Chapo, destacou o que classificou como comportamento exemplar das populações das zonas de risco, sublinhando que o cumprimento atempado dos avisos das autoridades contribuiu para atenuar o impacto humano do ciclone .

Segundo o Chefe de Estado, a retirada preventiva de comunidades vulneráveis e o reforço de algumas infra-estruturas reduziram significativamente o potencial número de vítimas . O reconhecimento político desta postura evidencia um aspecto crucial da gestão de desastres: a eficácia das medidas de prevenção depende não apenas da prontidão institucional, mas também da adesão comunitária.

Ainda assim, o Presidente reiterou que o país permanece na época ciclónica, que se estende até Março, apelando à observância contínua das medidas de segurança .

O Custo Económico Invisível Dos Choques Climáticos

Mesmo tendo-se afastado da costa sem impacto directo devastador, o Gezani surge num momento particularmente sensível para a economia moçambicana. O país ainda recupera das cheias de Janeiro, que afectaram quase 725 mil pessoas, e desde Outubro contabiliza mais de 853 mil cidadãos afectados por eventos extremos, segundo dados do INGD.

Cada episódio climático traduz-se em múltiplas camadas de custo. Há o custo imediato da reposição de infra-estruturas, da assistência humanitária e da mobilização logística. Há o custo fiscal, associado à necessidade de reprogramação orçamental ou de recurso a financiamento externo. E há o custo reputacional, que influencia a percepção de risco por parte de investidores, seguradoras e financiadores internacionais.

Num país com ambições de consolidação de grandes projectos energéticos e de infra-estruturas estratégicas, a integração do risco climático no planeamento macroeconómico deixa de ser opção para se tornar imperativo. A frequência crescente de fenómenos extremos obriga a uma reavaliação de padrões de construção, ordenamento territorial, sistemas de drenagem urbana e robustez das redes eléctricas.

Entre Resiliência E Transformação Estrutural

O ciclone Gezani não foi o mais devastador a atingir Moçambique. Contudo, a sua passagem confirma uma tendência estrutural: a intensificação de eventos climáticos exige respostas que vão além da gestão reactiva.

A consolidação de infra-estruturas resilientes, a expansão de mecanismos de seguro climático, o reforço da protecção social adaptativa e a mobilização de financiamento verde para mitigação e adaptação passam a integrar a agenda económica nacional.

O fenómeno pode ter-se dissipado no Índico, mas a sua mensagem é clara. Num contexto de vulnerabilidade climática crescente, a resiliência deixou de ser apenas uma questão humanitária. É, cada vez mais, uma variável determinante para a estabilidade macroeconómica e para a trajectória de desenvolvimento do país.

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