
Comércio Global da Biodiversidade Atinge US$ 3,8 Biliões, Mas África Capta Apenas 3% das Exportações
- A ONU Comércio e Desenvolvimento revela que a Europa concentra 49% das exportações mundiais de produtos associados à biodiversidade, enquanto África, apesar da sua riqueza biológica, participa com apenas US$ 97 mil milhões. O relatório identifica a transformação industrial, o financiamento, a certificação e o acesso aos mercados como factores determinantes para aumentar a participação das economias em desenvolvimento nas cadeias internacionais de valor.
Questões-Chave:
- Comércio Mundial: Exportações de produtos baseados na biodiversidade atingiram aproximadamente US$ 3,8 biliões em 2024;
- Participação Africana: África representou apenas 3% das exportações globais, equivalentes a US$ 97 mil milhões, enquanto a Europa concentrou 49%;
- Desigualdade Estrutural: África e América Latina e Caraíbas concentram conjuntamente cerca de dois terços da biodiversidade mundial, mas representam apenas 14% das exportações;
- BioTrade: Vendas de empresas e organizações associadas ao comércio sustentável da biodiversidade atingiram US$ 50,5 mil milhões em 2024;
- Barreiras Comerciais: Tarifas, exigências de certificação e dificuldades de financiamento limitam a participação de pequenos produtores nos mercados de maior valor;
- Oportunidades Para Moçambique: Agro-indústria, recursos florestais, pesca e economia circular apresentam potencial de diversificação produtiva e desenvolvimento de exportações com maior valor acrescentado.
O comércio internacional de produtos associados à biodiversidade atingiu aproximadamente US$ 3,8 biliões em 2024, consolidando-se como uma componente importante das trocas comerciais mundiais. Contudo, os benefícios económicos deste mercado permanecem fortemente concentrados nas economias com maior capacidade industrial, tecnológica e financeira, enquanto os países detentores de uma parcela significativa dos recursos biológicos globais continuam a ocupar posições relativamente modestas nas cadeias internacionais de valor.
África, um dos continentes mais ricos em biodiversidade, respondeu por apenas 3% das exportações mundiais destes produtos, equivalentes a aproximadamente US$ 97 mil milhões. Em contrapartida, a Europa concentrou 49% do mercado, com exportações avaliadas em US$ 1,88 biliões.
Os dados constam da edição de Outubro de 2026 do Global Trade Update, da ONU Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), que analisa a capacidade das economias em desenvolvimento para transformar os recursos biológicos em oportunidades de comércio, industrialização e crescimento económico sustentável.
O relatório evidencia uma assimetria estrutural: África e América Latina e Caraíbas concentram, conjuntamente, cerca de dois terços da biodiversidade mundial, mas representam apenas 14% do valor das exportações globais de produtos associados a estes recursos.
A diferença resulta de factores relacionados com a capacidade produtiva, o processamento industrial, o acesso ao financiamento, o cumprimento de normas internacionais e o posicionamento das empresas nas cadeias globais de abastecimento.
Para as economias africanas, a questão central consiste em ampliar a capacidade de transformar a disponibilidade de recursos naturais em actividades produtivas de maior valor acrescentado, geradoras de emprego, rendimento e receitas de exportação.
Europa Concentra Quase Metade das Exportações Globais
A distribuição regional do comércio de produtos associados à biodiversidade demonstra a predominância das economias industrializadas e a importância crescente da Ásia.
Segundo a UNCTAD, a Europa liderou as exportações mundiais em 2024, com aproximadamente US$ 1,879 biliões, correspondentes a 49% do total.
A Ásia ocupou a segunda posição, com US$ 900 mil milhões e uma participação de 24%, seguida da América do Norte, com US$ 433 mil milhões, e da América Latina e Caraíbas, com US$ 402 mil milhões, ambas com aproximadamente 11%.
África registou exportações de US$ 97 mil milhões, enquanto a Oceânia contribuiu com US$ 87 mil milhões.
Exportações de Produtos Baseados na Biodiversidade — 2024
Fonte: UNCTAD, Global Trade Update, Outubro de 2026. Participações arredondadas.
A dimensão da desigualdade torna-se particularmente expressiva quando se compara a participação europeia com a africana. O valor das exportações da Europa foi aproximadamente 19 vezes superior ao de África.
Apesar desta diferença, os produtos associados à biodiversidade possuem uma importância significativa na estrutura comercial do continente africano.
Segundo o relatório, representam quase um quinto das exportações africanas de mercadorias, enquanto na América Latina e Caraíbas correspondem a mais de um quarto.
Estes indicadores demonstram que a biodiversidade já constitui uma componente relevante da base exportadora destas regiões, embora a sua capacidade de participação no comércio mundial permaneça relativamente reduzida.
Recursos Naturais Abundantes, Capacidade Limitada de Transformação
A UNCTAD identifica a capacidade de transformação produtiva como um dos principais factores que explicam a distribuição desigual dos benefícios comerciais da biodiversidade.
A existência de recursos agrícolas, florestais, marinhos e genéticos proporciona uma base de desenvolvimento económico, mas o valor obtido com a sua exploração depende das actividades de processamento, desenvolvimento tecnológico, certificação e comercialização.
As economias especializadas na exportação de matérias-primas tendem a participar predominantemente nas etapas iniciais das cadeias de valor, enquanto as actividades industriais e comerciais posteriores oferecem oportunidades adicionais de geração de rendimento.
O processamento de produtos agrícolas, a produção de ingredientes industriais, o desenvolvimento de cosméticos naturais, a transformação de fibras vegetais e a comercialização de produtos alimentares especializados constituem exemplos de actividades que podem ampliar o valor económico associado aos recursos biológicos.
A transformação industrial permite igualmente diversificar a estrutura empresarial, desenvolver competências técnicas e estabelecer relações entre produtores primários, unidades industriais e operadores comerciais.
O relatório sublinha que a riqueza biológica, isoladamente, não assegura uma posição competitiva nos mercados internacionais.
A capacidade de investimento, as condições de financiamento, a qualidade das infra-estruturas e o acesso à tecnologia influenciam a possibilidade de desenvolver actividades de maior valor acrescentado.
Nas economias africanas, estas condições tornam-se particularmente relevantes perante a predominância de pequenas unidades produtivas, muitas das quais enfrentam dificuldades para investir em equipamentos, assegurar padrões de qualidade e aceder directamente aos compradores internacionais.
Tarifas e Certificação Penalizam Produtos Sustentáveis
O acesso aos mercados internacionais constitui outro factor determinante na distribuição do valor comercial associado à biodiversidade.
A UNCTAD identifica barreiras tarifárias e não tarifárias que limitam a competitividade dos produtos naturais, incluindo aqueles que apresentam potencial para substituir materiais de origem fóssil.
O relatório destaca que determinados produtos fabricados a partir de algodão, juta, cânhamo e papel podem enfrentar tarifas médias de importação que atingem 16,1%.
Em alguns casos, estas tarifas são semelhantes ou superiores às aplicadas a produtos plásticos concorrentes, reduzindo os incentivos comerciais à utilização de alternativas naturais.
As normas técnicas e ambientais também representam custos importantes para as empresas que pretendem alcançar mercados especializados.
A certificação de sustentabilidade pode exigir investimentos em sistemas de rastreabilidade, controlo da produção, auditorias e procedimentos administrativos.
Segundo a análise apresentada pela UNCTAD, os produtores suportavam exclusivamente os custos de implementação em 51 das 87 normas voluntárias de sustentabilidade examinadas.
Relativamente aos custos de certificação, 45 das 89 normas analisadas atribuíam integralmente esses encargos aos produtores.
A concentração destes custos nas unidades produtivas afecta particularmente as pequenas empresas, limitando a sua capacidade de competir em segmentos que exigem certificações internacionais.
O problema assume relevância nas economias africanas, onde muitos produtores operam com reduzida capacidade financeira e enfrentam dificuldades de acesso ao crédito.
O relatório defende maior assistência técnica, mecanismos de certificação acessíveis e financiamento adequado para permitir uma participação mais ampla dos países em desenvolvimento nos segmentos de maior valor.
BioTrade Atinge US$ 50,5 Mil Milhões e Amplia Oportunidades Comerciais
O crescimento do BioTrade constitui um dos desenvolvimentos destacados pela UNCTAD.
O conceito abrange actividades económicas associadas à utilização sustentável da biodiversidade, orientadas por princípios de conservação, sustentabilidade económica e social e repartição justa dos benefícios.
As vendas de empresas e organizações que aplicam os princípios e critérios de BioTrade, ou mecanismos relacionados, atingiram aproximadamente US$ 50,5 mil milhões em 2024, comparativamente a US$ 40 milhões em 2003.
A expansão demonstra o desenvolvimento comercial de actividades que articulam a utilização dos recursos biológicos com práticas de sustentabilidade.
Importa distinguir este indicador do valor global das exportações de produtos baseados na biodiversidade. Os US$ 50,5 mil milhões correspondem a vendas internas e externas das empresas e organizações abrangidas pelos mecanismos de BioTrade, enquanto os US$ 3,8 biliões representam um universo comercial consideravelmente mais amplo.
O crescimento do BioTrade acompanha a expansão de mercados especializados em ingredientes naturais, produtos alimentares, cosméticos, fibras vegetais e outras mercadorias associadas à utilização sustentável dos recursos biológicos.
Para os países em desenvolvimento, estes mercados podem oferecer oportunidades de diferenciação comercial e melhoria dos preços obtidos pelos produtores.
A participação nestes segmentos exige, contudo, capacidade de assegurar qualidade, regularidade no fornecimento, rastreabilidade e cumprimento das exigências comerciais e ambientais dos mercados de destino.
Economia Circular Cria Novas Fontes de Rendimento
A valorização económica de resíduos agrícolas e subprodutos biológicos constitui uma das oportunidades identificadas pela UNCTAD para ampliar a utilização produtiva dos recursos naturais.
O relatório apresenta uma experiência desenvolvida no Quénia, onde mais de 3.300 toneladas de folhas de ananás foram transformadas em mais de 100 toneladas de fibra destinada à indústria têxtil e aproximadamente 800 toneladas de composto orgânico.
A iniciativa demonstra a possibilidade de converter materiais anteriormente considerados resíduos em produtos com aplicações comerciais.
A utilização industrial de subprodutos agrícolas permite diversificar fontes de rendimento, reduzir desperdícios e melhorar o aproveitamento das matérias-primas.
Estas actividades enquadram-se nos princípios da economia circular, que privilegia a utilização eficiente dos recursos e a reintegração de materiais nos processos produtivos.
Em economias predominantemente agrícolas, a valorização de resíduos pode contribuir para o desenvolvimento de pequenas unidades industriais e para a criação de oportunidades empresariais em actividades complementares à produção primária.
O potencial económico dependerá da disponibilidade de tecnologia, da organização das cadeias de abastecimento e da existência de mercados capazes de absorver os produtos resultantes da transformação.
Moçambique Pode Ampliar Valor Económico dos Recursos Biológicos
As conclusões da UNCTAD apresentam implicações para Moçambique, considerando a disponibilidade de recursos agrícolas, florestais, marinhos e outros activos biológicos com potencial de aproveitamento económico.
A agricultura, a pesca, a agro-indústria e a transformação de produtos florestais constituem áreas nas quais o desenvolvimento de capacidades industriais poderá contribuir para diversificar a estrutura produtiva e ampliar o valor acrescentado nacional.
No sector agrícola, culturas como o caju, o coco e diferentes frutos tropicais oferecem possibilidades de desenvolvimento de produtos transformados, ingredientes alimentares e subprodutos industriais.
A expansão destas actividades poderá contribuir para aumentar o rendimento dos produtores, desenvolver empresas de transformação e melhorar a integração das pequenas unidades produtivas nos mercados.
Na área dos recursos florestais, a utilização sustentável de produtos não madeireiros, plantas aromáticas e outras matérias-primas biológicas poderá abrir oportunidades em segmentos comerciais especializados, desde que acompanhada por mecanismos adequados de gestão, rastreabilidade e conservação.
O aproveitamento de resíduos agrícolas e agro-industriais apresenta igualmente possibilidades de desenvolvimento de actividades associadas à economia circular.
No sector das pescas, a melhoria das capacidades de conservação, processamento e certificação poderá contribuir para ampliar a participação nacional nas etapas de maior valor das cadeias comerciais.
Estas oportunidades estão relacionadas com a necessidade de diversificação das exportações, industrialização e criação de emprego, particularmente em actividades produtivas com potencial de integração de pequenas e médias empresas.
O aproveitamento económico da biodiversidade exige, porém, condições de financiamento, infra-estruturas adequadas, formação profissional e capacidade de cumprimento das normas exigidas pelos mercados internacionais.
O desenvolvimento de sistemas de certificação e rastreabilidade poderá desempenhar um papel importante na melhoria da competitividade dos produtos moçambicanos, sobretudo nos segmentos associados à sustentabilidade ambiental.
A integração comercial africana, incluindo as possibilidades oferecidas pela Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA), poderá proporcionar mercados adicionais para produtos biológicos transformados, criando oportunidades de expansão para empresas com capacidade produtiva e comercial.
A existência destas possibilidades não elimina a necessidade de melhorar a competitividade, reduzir custos logísticos e desenvolver estratégias empresariais orientadas para produtos e mercados específicos.
Conferência da Biodiversidade de 2026 Coloca Comércio na Agenda Ambiental
A publicação do relatório da UNCTAD coincide com a preparação da Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade de 2026, durante a qual os países deverão avaliar os progressos realizados na implementação do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal.
O encontro constitui uma oportunidade para aprofundar a articulação entre políticas comerciais, conservação ambiental e desenvolvimento económico.
Segundo a UNCTAD, o comércio internacional pode contribuir para a utilização sustentável da biodiversidade, desde que as actividades produtivas respeitem princípios de conservação e assegurem uma distribuição mais equilibrada dos benefícios económicos.
O relatório recomenda o fortalecimento da capacidade produtiva, a melhoria do acesso aos mercados, a expansão das actividades de processamento e a disponibilização de mecanismos de financiamento mais acessíveis.
A rastreabilidade e a certificação são igualmente identificadas como instrumentos importantes para assegurar a origem dos produtos e o cumprimento de requisitos ambientais e comerciais.
A UNCTAD chama ainda a atenção para a necessidade de repartição justa dos custos e benefícios ao longo das cadeias de abastecimento, envolvendo produtores, empresas compradoras, investidores e parceiros de desenvolvimento.
A aplicação destes princípios poderá contribuir para melhorar as condições de participação das economias em desenvolvimento, particularmente nos sectores em que a riqueza biológica oferece oportunidades de diversificação produtiva.
Industrialização Será Determinante Para Maior Participação Africana
A participação africana de apenas 3% num mercado global de US$ 3,8 biliões evidencia a dimensão das oportunidades económicas ainda pouco aproveitadas pelo continente.
A expansão da produção primária poderá contribuir para aumentar os volumes comercializados, mas a melhoria da posição africana nas cadeias internacionais de valor exige maior incorporação de tecnologia, processamento industrial e desenvolvimento empresarial.
O fortalecimento da capacidade produtiva poderá permitir que uma parcela superior do valor gerado pelos recursos naturais permaneça nas economias de origem, através de salários, rendimentos empresariais, investimento e receitas públicas.
O financiamento de longo prazo, a investigação aplicada, a certificação e a integração comercial regional constituem componentes importantes deste processo.
A articulação entre industrialização e conservação ambiental será igualmente necessária para assegurar que o crescimento das actividades económicas não comprometa a continuidade dos recursos biológicos de que dependem.
O relatório da UNCTAD evidencia, assim, uma dimensão relevante da transformação estrutural das economias africanas: a capacidade de converter recursos naturais em produtos competitivos, ampliar a participação nas cadeias internacionais de valor e desenvolver actividades económicas sustentáveis.
Moçambique reúne condições naturais para participar neste processo, mas o desenvolvimento de uma bioeconomia competitiva exigirá investimentos produtivos, transformação industrial, acesso a financiamento e uma inserção comercial orientada para mercados de maior valor acrescentado.
A evolução do comércio mundial da biodiversidade mostra que a distribuição dos benefícios económicos é fortemente influenciada pela capacidade tecnológica, financeira e empresarial dos diferentes países. A expansão da participação africana passará, em grande medida, pelo desenvolvimento destas capacidades e pela criação de condições para que os recursos biológicos sustentem actividades industriais, emprego e exportações de maior valor.
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