
COP29: A revolução das finanças climáticas e o despertar dos mercados de carbono
Um momento de definição
A 29ª Cimeira do Clima da ONU, realizada em Baku, ficou marcada como a “COP das Finanças”, reflectindo a crescente urgência de alinhar recursos financeiros com as acções climáticas. Esta edição aconteceu num contexto de crise climática agravada, com emissões globais a atingirem máximos históricos em 2023. Norma Franco, EY Partner | Climate Change and Sustainability, que participou na cimeira, num exclusivo com o Semanário Económico, considerou a COP29 um marco importante nas negociações globais, mas sublinhou que “os compromissos assumidos são apenas o início. O verdadeiro desafio é a implementação”.
Financiamento climático: Um compromisso ambicioso, mas insuficiente
Um dos principais destaques da COP29 foi o compromisso de triplicar o financiamento climático para países em desenvolvimento, passando de 100 mil milhões para 300 mil milhões de dólares anuais até 2035. Norma Franco classificou este avanço como “significativo, mas claramente inadequado” face às necessidades reais. “Os países em desenvolvimento enfrentam perdas e danos que já ultrapassam os valores prometidos, o que gera descontentamento e desconfiança nas negociações”, afirmou, sublinhando que, de facto, o montante é “manifestamente insuficiente”.
Franco destacou ainda a importância de mobilizar recursos privados para complementar o financiamento público. Segundo ela, “os bancos multilaterais de desenvolvimento precisam de adoptar um papel mais activo, simplificando processos de financiamento e promovendo parcerias público-privadas que possam alavancar investimentos”.
Apesar do progresso, a especialista alertou para a necessidade de maior transparência na alocação dos fundos. “Sem garantias de que os recursos chegam efectivamente às comunidades mais afectadas, corremos o risco de perpetuar desigualdades e desacreditar o sistema”, afirmou.
Mercados de Carbono: avanços no Artigo 6 e o futuro da mitigação
Outro ponto alto da COP29 foi o progresso no artigo 6, que regula os mercados globais de carbono. Para Norma Franco, este avanço representa uma oportunidade transformadora, mas também um desafio. “Os mercados de carbono são essenciais para financiar a transição climática, mas dependem de credibilidade e integridade para funcionarem”, disse.
Franco elogiou a inclusão de salvaguardas obrigatórias para proteger o ambiente e os direitos humanos, classificando-as como “um passo vital para assegurar a transparência e atrair investidores internacionais”. Contudo, a especialista sublinhou que a implementação prática destes mecanismos ainda enfrenta obstáculos significativos. “Sem uma infraestrutura robusta para rastrear transações de créditos de carbono, corremos o risco de criar um sistema vulnerável a fraudes”, alertou.
Adaptação e perdas e danos: uma área negligenciada
Embora a mitigação receba a maior parte da atenção nas negociações climáticas, Norma Franco destacou que a adaptação é igualmente crucial. “Os países mais vulneráveis enfrentam os impactos mais severos das alterações climáticas e precisam de apoio urgente para proteger as suas comunidades”, afirmou. Segundo ela, a falta de progresso significativo nesta área é uma das principais falhas da COP29.
A janela de oportunidade está a fechar-se
Norma Franco concluiu que a COP29 trouxe avanços importantes, mas também deixou lacunas a serem preenchidas. “Estamos numa corrida contra o tempo. Precisamos de passar das promessas à acção, garantindo que os compromissos assumidos se traduzam em resultados tangíveis”, afirmou. Para a especialista, a colaboração global será essencial para enfrentar os desafios que se avizinham.
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12 de Março, 2026
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