
“Dos Pobres Para Os Pobres”: Tânia Matsinhe Defende Investimento Nas Pessoas Como Chave Para A Independência Económica
Livro questiona centralidade dos megaprojectos e aponta sector informal como verdadeiro motor da economia nacional
- Sector informal representa cerca de 60% do PIB e constitui base real da economia;
- Pobreza monetária ronda 65% e pobreza multidimensional cerca de 51%;
- Modelo económico centrado em recursos naturais tem impacto limitado na maioria da população;
- Investimento em capital humano surge como alternativa estratégica para transformação estrutural;
- Combate à pobreza exige instrumentos de inclusão económica e não apenas assistência social;
Uma Obra Que Questiona O Núcleo Do Modelo Económico
O lançamento do livro “Dos Pobres para os Pobres”, da escritora e empresária Tânia Matsinhe, trouxe para o centro do debate económico nacional uma questão estrutural: até que ponto o actual modelo de desenvolvimento de Moçambique tem sido eficaz na transformação das condições de vida da maioria da população.
A obra surge num contexto marcado por uma forte aposta em megaprojectos e na exploração de recursos naturais — gás, carvão e alumínio — contrastando com níveis persistentes de pobreza. Segundo dados referidos no evento, a pobreza monetária situa-se em cerca de 65%, enquanto a pobreza multidimensional atinge aproximadamente 51%, evidenciando limitações no acesso a serviços básicos e oportunidades económicas .
Sector Informal Como Pilar Invisível Da Economia
Um dos pontos centrais da obra é a revalorização do sector informal, que, segundo a autora, representa cerca de 60% do Produto Interno Bruto.
Esta constatação desafia a narrativa dominante sobre os motores da economia nacional, colocando os cidadãos — particularmente os mais vulneráveis — no centro da criação de riqueza.
Tânia Matsinhe defende que o país tem privilegiado um modelo intensivo em capital, com impacto limitado na base da pirâmide social, e propõe uma inversão estratégica:
“Se nós preparássemos as pessoas com a mesma intensidade com que investimos nos recursos naturais, poderíamos exportar talento e gerar emprego em larga escala. Os pobres são, na realidade, os principais produtores de riqueza do país, ainda que invisibilizados nas estatísticas formais”.
Do Assistencialismo À Capacitação Económica
A obra propõe uma ruptura com abordagens assistencialistas, defendendo que o combate à pobreza deve assentar na criação de capacidades e oportunidades.
Durante o lançamento, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, reforçou esta visão, sublinhando que a dignidade económica deve ser construída com base em instrumentos concretos de inclusão:
“Muitos dos pobres moçambicanos não precisam de esmola, precisam de oportunidade e instrumentos para trabalhar com dignidade”.
O governante destacou ainda iniciativas em curso, incluindo programas de empoderamento económico e fundos de desenvolvimento local, reconhecendo, contudo, que os desafios permanecem significativos.
Pobreza Como Fenómeno Multidimensional
A reflexão proposta no livro vai além da dimensão económica da pobreza, incorporando factores psicológicos e sociais.
Para a psicóloga Mónica Macamo, a obra desafia a sociedade a repensar a própria forma como encara o desenvolvimento:
“A pobreza não é apenas falta de recursos físicos, é ausência de pensamento e de visão sobre o futuro” .
Esta perspectiva reforça a necessidade de investir não apenas em competências técnicas, mas também em mentalidades, liderança e visão estratégica.
Um Debate Sobre O Futuro Do Modelo De Desenvolvimento
Outros intervenientes, como o escritor e consultor de Gestao de Pessoas, Vicente Sitoe e o economista Cristóvão Coelho, destacaram que o livro levanta uma questão crítica sobre o desempenho do modelo económico adoptado nas últimas décadas.
“Houve evolução, mas ficou aquém do esperado. É necessário repensar o modelo de desenvolvimento e a formação de quadros. Sem partilha de oportunidades e recursos, não será possível eliminar a pobreza de forma sustentável”.
Este posicionamento aponta para a necessidade de uma abordagem mais inclusiva, baseada na redistribuição de oportunidades e na valorização do capital humano.
Entre Recursos Naturais E Capital Humano: Uma Escolha Estratégica
A obra de Tânia Matsinhe coloca em evidência um dilema central para Moçambique: continuar a apostar predominantemente nos recursos naturais ou reequilibrar a estratégia, colocando as pessoas no centro do desenvolvimento.
Num contexto em que o país ambiciona alcançar a independência económica, o investimento no capital humano surge como um vector estruturante — não apenas complementar, mas determinante.
Um Manifesto Para Recentrar O Desenvolvimento Nas Pessoas
Mais do que um livro, “Dos Pobres para os Pobres” afirma-se como um manifesto económico e social, convocando decisores políticos, sector privado e sociedade civil para uma reflexão profunda sobre o futuro do país.
A mensagem é clara: sem investir nas pessoas, qualquer estratégia de desenvolvimento estará incompleta — e a promessa de transformação económica continuará por cumprir.





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