
Economia Mundial Enfrenta “Momento Decisivo”, Alerta Banco de Pagamentos Internacionais
Questões-Chave:
- BIS alerta para riscos sistémicos no actual cenário de incerteza e fragmentação geopolítica;
- Níveis elevados de dívida pública e aumento do proteccionismo agravam vulnerabilidades estruturais;
- Confiança nas instituições, incluindo bancos centrais, está sob pressão;
- Dólar caiu 10% no primeiro semestre de 2025, sem indícios ainda de uma fuga generalizada dos activos norte-americanos;
- Banco central dos bancos centrais reporta lucros recorde e reforça solvência institucional.
O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS, na sigla inglesa) alertou que a economia mundial atravessa um “momento decisivo”, caracterizado por incerteza persistente, tensões comerciais e um enfraquecimento da confiança nas instituições. A entidade, que congrega os principais bancos centrais do mundo, aponta para riscos crescentes no sistema financeiro global.
No seu mais recente relatório anual, publicado a pouco mais de uma semana do prazo estabelecido pelos Estados Unidos para novas tarifas comerciais (9 de Julho), o BIS traça um retrato preocupante da conjuntura económica global, marcada por fragmentação, incerteza e pressão sobre as políticas monetárias.
Agustín Carstens, governador cessante da instituição, afirmou que o sistema económico internacional está a entrar numa “nova era de incerteza acentuada”, alimentada pela guerra comercial impulsionada pelos Estados Unidos e pela deterioração das relações geopolíticas. “Esta tendência está a pôr à prova a confiança do público nas instituições, incluindo nos próprios bancos centrais”, declarou.
O relatório adverte que o aumento do proteccionismo e a fragmentação do comércio global têm exacerbado o declínio de décadas na produtividade e no crescimento económico. Paralelamente, fenómenos como o envelhecimento populacional, alterações climáticas, disrupções nas cadeias de abastecimento e choques geopolíticos estão a reduzir a resiliência da economia mundial.
Em termos monetários, o BIS destaca o impacto duradouro da inflação pós-COVID, que alterou as percepções públicas em relação à estabilidade dos preços, dificultando a gestão das expectativas. A este quadro soma-se a escalada da dívida pública, que, segundo Carstens, ameaça a capacidade dos governos de responder a futuras crises. “Esta trajectória não pode continuar. O aumento da despesa militar poderá agravar ainda mais a pressão sobre a dívida”, alertou.
Do lado cambial, Hyun Song Shin, economista-chefe do BIS, assinalou a desvalorização de 10% do dólar desde o início do ano, a maior queda semestral desde o início da era das taxas de câmbio flutuantes, nos anos 1970. Embora tenha descartado, por agora, a tese de uma “grande rotação” dos activos norte-americanos, reconheceu que os fluxos de investimento soberano e de bancos centrais são lentos e cautelosos.
No plano interno, o BIS registou resultados financeiros robustos: um lucro líquido equivalente a 1,2 mil milhões de dólares (em SDR – Direitos Especiais de Saque) e um rendimento total de 5,3 mil milhões, o mais elevado da sua história. “É essencial que o BIS mantenha o mais elevado nível de solvência e credibilidade”, sublinhou Carstens.
Este alerta do BIS surge num contexto de crescente fricção entre líderes políticos e bancos centrais. Donald Trump tem atacado publicamente o presidente da Reserva Federal, Jerome Powell, chegando a qualificá-lo como “estúpido” e manifestando o desejo de o substituir por um perfil mais favorável ao corte de juros. O BIS, contudo, considera natural alguma tensão entre governos e bancos centrais: “É quase parte do desenho institucional”, disse Carstens.
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