
Eduardo Sengo: “Moçambique Precisa de Reformar Para Crescer, Não Apenas de Crescer Para Reformar”
O economista defende que o país deve alinhar as políticas monetária, fiscal e industrial para construir um modelo de crescimento sustentado, centrado na produtividade interna e na transformação estrutural. A estabilidade monetária é um ponto de partida — mas não um destino.
- Eduardo Sengo defende uma nova geração de reformas estruturais que assegurem coordenação entre políticas públicas;
- A estabilidade conquistada pela política monetária precisa de ser acompanhada por reformas produtivas e fiscais;
- O economista alerta para a dependência de sectores de enclave, como o gás e o carvão, e a ausência de um modelo de crescimento inclusivo;
- Defende a aposta em cadeias de valor locais, investimento em produtividade e reformas de governação económica;
- “O crescimento nominal é ilusório se não for acompanhado de transformação real”, adverte Sengo.
Após quase uma década de instabilidade macroeconómica e aperto fiscal, Moçambique entrou em 2025 com um quadro de maior equilíbrio monetário e perspectivas optimistas de crescimento. Mas para Eduardo Sengo, este é o momento de maior risco: o de confundir estabilidade com progresso. “A estabilidade é um ponto de partida, não de chegada. Precisamos de reformar para crescer, e não apenas de crescer para reformar”, defende o economista.
Sengo reconhece os méritos da actual política monetária e a disciplina do Banco de Moçambique. “O país atingiu um nível de previsibilidade e confiança que há alguns anos parecia distante. Mas o desafio agora é transformar essa estabilidade em investimento, emprego e produtividade.”
Para o economista, as reformas estruturais precisam de ser retomadas com pragmatismo, sobretudo nas áreas de governação económica, eficiência fiscal e ambiente de negócios.
“Moçambique tem feito progressos em estabilidade, mas não em eficiência. A despesa pública continua pesada e o investimento, concentrado em sectores de retorno lento. Falta-nos uma política industrial clara que ligue o sistema financeiro ao sistema produtivo.”
Sengo critica a falta de coordenação efectiva entre políticas. “Temos uma política monetária que olha para a inflação, uma fiscal que olha para o défice, e uma política económica que olha para o imediato. Nenhuma fala com a outra. O resultado é uma economia que reage, mas não planeia.”
“A política monetária pode baixar juros, mas se a fiscal continuar a consumir liquidez e a industrial não gerar produtividade, o crescimento continuará nominal e não real.”
O economista considera ainda que o país precisa “olhar para dentro” e reconhecer as distorções estruturais que travam o desenvolvimento. “A economia moçambicana continua excessivamente dependente de sectores de enclave — energia, carvão, gás, megaprojectos. São sectores com forte contribuição para o PIB, mas fraca contribuição para o emprego e para o tecido produtivo interno.”
Transformar a Estrutura Produtiva:
Sengo propõe uma abordagem centrada em cadeias de valor locais, que reforce a integração entre agricultura, indústria e serviços.
“Temos de deixar de ser exportadores de matérias-primas e importadores de valor. O país precisa de um plano sério de transformação industrial e de políticas de conteúdo local consequentes. A produtividade é o novo petróleo de Moçambique.”
O economista defende igualmente reformas na governação económica, com foco em resultados e desempenho. “A administração pública ainda não funciona como um sistema de gestão por objectivos. O Estado precisa de medir, comparar e corrigir. É assim que se melhora a eficiência e se combate a corrupção de forma estrutural, e não apenas moral.”
Crescimento Inclusivo e Visão de Futuro:
Para Sengo, o desafio central não é apenas crescer, mas crescer bem. “O crescimento nominal não é sinónimo de desenvolvimento. Podemos crescer 5% ao ano e continuar pobres, se não houver transformação produtiva.”
Ele defende uma visão de médio prazo, centrada em três eixos: eficiência fiscal, investimento produtivo e capital humano.
“Precisamos de um Estado que gaste melhor, de um sector privado que invista com visão e de um sistema educativo que forme para o trabalho e para o empreendedorismo.”
O economista resume a sua visão num ponto essencial: Moçambique precisa de reformar o seu modelo de crescimento antes que o crescimento o reforme por si mesmo.
“Se esperarmos que o crescimento resolva as nossas fragilidades, vamos perder outra década. É hora de reformar para crescer — com disciplina, visão e coragem.”
A estabilidade monetária, conclui, é um feito institucional importante, mas não pode ser confundida com transformação económica. “O Banco Central fez a sua parte; agora é a vez das políticas económicas e fiscais fazerem a delas.”
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