Futuro Demográfico Depende de Dar Opções Reais aos Jovens

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  • O Dia Mundial da População de 2026 coloca as esperanças e aspirações da juventude no centro do debate. Um inquérito global do UNFPA mostra que os jovens continuam a desejar relações estáveis e filhos, mas o emprego precário, a falta de habitação, os custos de vida e a insegurança limitam as suas escolhas. Em Moçambique, onde 44% da população tem menos de 15 anos, transformar esta pressão demográfica num dividendo dependerá da qualidade da educação, saúde, emprego e participação oferecida à nova geração.

Questões-Chave

  • Mais de 108 mil jovens adultos, entre 18 e 39 anos, foram auscultados pelo UNFPA em 73 países.
  • Mais de dois terços desejam casar ou viver com um parceiro, contrariando a ideia de que as novas gerações abandonaram a família.
  • Segurança financeira, emprego estável e habitação surgem entre as principais condições para formar uma relação e ter filhos.
  • Moçambique tinha uma população estimada em 35,6 milhões em 2025, sendo 44% constituída por crianças com menos de 15 anos.
  • O dividendo demográfico não resulta apenas de uma população jovem: exige educação de qualidade, saúde sexual e reprodutiva, emprego produtivo, igualdade de género e instituições capazes de planificar.
  • A ENDE 2025–2044 e o PQG 2025–2029 incorporam estas prioridades, mas o resultado dependerá da escala e consistência da sua execução.

O mundo assinala, neste sábado, 11 de Julho, o Dia Mundial da População, sob o lema “Realizar as esperanças e aspirações dos jovens — hoje e no futuro”.

A escolha do tema desloca o debate demográfico de uma preocupação limitada ao número de nascimentos, dimensão das populações ou taxas de fecundidade para uma questão mais ampla: que condições económicas, sociais e institucionais permitem aos jovens construir a vida, as relações e as famílias que desejam?

A efeméride é enquadrada pelo novo relatório do Fundo das Nações Unidas para a População, baseado num inquérito realizado junto de mais de 108 mil pessoas com acesso à Internet, com idades entre 18 e 39 anos, em 73 países.

O estudo mostra que os jovens não abandonaram necessariamente o casamento, a vida em parceria ou a parentalidade. O que muitos perderam foi a confiança de que conseguirão reunir as condições materiais e emocionais necessárias para concretizar essas aspirações.

Jovens Continuam a Querer Relações e Filhos

Mais de dois terços dos participantes no inquérito afirmaram desejar casar ou viver com um parceiro. Em cinco das sete regiões analisadas, dois filhos constituíram o tamanho ideal de família mais frequentemente mencionado.

A segurança financeira foi considerada importante por 81% dos inquiridos para iniciar uma relação e por 88% para avançar para a parentalidade. Um emprego estável foi apontado por 87% como condição relevante para ter filhos, enquanto 85% destacaram a preparação emocional.

As limitações económicas e habitacionais constituíram os obstáculos mais frequentemente mencionados para o estabelecimento de uma relação. Apesar destas preocupações, cerca de dois terços dos participantes declararam manter uma visão positiva sobre o futuro. 

Os resultados contrariam uma explicação simplista segundo a qual a redução da fecundidade em muitas regiões resultaria apenas de uma mudança voluntária de valores entre as novas gerações.

Em muitos casos, não se trata de rejeição da família, mas da percepção de que os salários, os empregos, a habitação, os serviços de saúde, os sistemas de protecção social e as condições de segurança não permitem construir o futuro pretendido.

A Directora Executiva do UNFPA, Diene Keita, sintetiza esta diferença ao defender que a incerteza, e não necessariamente a falta de vontade, leva muitos jovens a duvidarem da possibilidade de formar as famílias que desejam.

Políticas Demográficas Não Podem Impor Escolhas

Os resultados possuem implicações importantes para a formulação de políticas públicas.

Em países onde a população envelhece e os nascimentos diminuem, os governos têm adoptado incentivos financeiros, subsídios, licenças parentais ou apoio habitacional para estimular a fecundidade.

Noutras regiões, onde o crescimento populacional continua elevado, as políticas concentram-se no acesso ao planeamento familiar, redução da gravidez precoce, saúde materna e expansão dos serviços básicos.

Os dois contextos são diferentes, mas partilham um princípio fundamental: as políticas não devem pressionar as pessoas a terem mais ou menos filhos. Devem criar as condições para que façam escolhas informadas, livres e sustentáveis.

O próprio relatório do UNFPA alerta que os resultados do inquérito não são estatisticamente representativos da população de cada país, porque a amostra se concentrou em utilizadores da Internet. O estudo deve ser interpretado como uma comparação das aspirações e constrangimentos de jovens conectados, e não como uma estimativa universal do comportamento demográfico.

Esta precaução metodológica é particularmente relevante para países onde grande parte da juventude vive em áreas rurais, possui acesso limitado à Internet e enfrenta condições diferentes das populações urbanas entrevistadas.

Ainda assim, a mensagem de fundo permanece válida: decisões sobre casamento, filhos e futuro não são tomadas num vazio. São influenciadas pelo emprego, rendimento, acesso à habitação, educação, saúde, segurança e confiança nas instituições.

Moçambique Está no Centro da Transição Demográfica Africana

Em Moçambique, a discussão assume uma dimensão diferente da observada nas economias envelhecidas.

O País tinha uma população estimada em 35,6 milhões de habitantes em 2025. Cerca de 44% tinham menos de 15 anos, revelando uma das estruturas etárias mais jovens do mundo. Mantido o actual ritmo de crescimento, a população demoraria aproximadamente 25 anos a duplicar. 

A Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044 estima que a população tenha crescido cerca de 2,5% por ano, sendo aproximadamente 34% constituída por jovens entre 15 e 35 anos. Entre 2017 e 2023, esta faixa etária terá crescido a um ritmo anual de 3,6%, mais rapidamente do que a população total.

O crescimento representa uma oportunidade histórica, mas também uma forte pressão sobre escolas, hospitais, habitação, transportes, abastecimento de água, saneamento e mercado de trabalho.

Todos os anos, uma nova geração entra na idade escolar. Poucos anos depois, essa mesma geração procura formação profissional, ensino superior, emprego, habitação e condições para constituir família.

Quando o investimento público e a economia não acompanham esta velocidade, o resultado pode ser o aumento das turmas, deterioração da qualidade do ensino, desemprego, trabalho informal, baixos salários e adiamento das aspirações pessoais.

Dividendo Demográfico Não É Automático

Uma população jovem pode gerar um dividendo demográfico quando a proporção de pessoas em idade produtiva aumenta relativamente ao número de dependentes e quando essa força de trabalho encontra educação, saúde e empregos capazes de elevar a produtividade.

Mas a juventude, por si só, não constitui um dividendo.

Sem empregos suficientes, uma grande população jovem pode ampliar o desemprego, a informalidade, a migração forçada e a insatisfação social. Sem educação de qualidade, o crescimento da força de trabalho não se converte em produtividade. Sem acesso à saúde sexual e reprodutiva, a fecundidade permanece elevada e a razão de dependência demora mais tempo a diminuir.

A ENDE calcula uma razão de dependência de 103,2% em Moçambique, significando que existe aproximadamente uma pessoa dependente por cada pessoa em idade potencialmente activa. Nas áreas rurais, o indicador aumenta para 115,6%.

O Banco Mundial projecta que o número de pessoas entre 15 e 49 anos poderá passar de 16,2 milhões, em 2023, para 33,7 milhões em 2050. Este crescimento exigirá uma expansão sem precedentes da capacidade produtiva, dos serviços públicos e das oportunidades de emprego. 

O dividendo demográfico será alcançado apenas se os jovens que entram neste grupo etário forem mais saudáveis, mais qualificados e mais produtivos do que as gerações anteriores.

Educação Precisa de Produzir Competências

O primeiro requisito é a educação.

Moçambique conseguiu aumentar o acesso à escola, mas continua a enfrentar desafios relacionados com qualidade, retenção, infra-estruturas, formação de professores, materiais escolares e ligação entre ensino e mercado de trabalho.

O crescimento demográfico significa que a expansão da rede educativa precisa de ocorrer continuamente apenas para manter os actuais níveis de cobertura. Para melhorar a qualidade, o investimento terá de crescer mais rapidamente do que a população escolar.

O desafio não é apenas matricular mais crianças, mas assegurar que aprendem a ler, interpretar informação, resolver problemas, utilizar tecnologias e adquirir competências técnicas relevantes.

A ENDE coloca a educação vocacional, profissional e nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática entre as prioridades da transformação social e económica. Também reconhece a necessidade de integrar o sector informal nas políticas de desenvolvimento, com particular atenção ao emprego juvenil.

O Programa Quinquenal do Governo 2025–2029 prevê investimento em educação técnica, saúde, infra-estruturas básicas, agricultura, industrialização e transformação digital, procurando fazer a ligação entre formação, produção e criação de emprego.

A questão decisiva será a correspondência entre as competências ensinadas e as oportunidades efectivamente criadas pela economia.

Emprego É a Ponte Entre Demografia e Desenvolvimento

O emprego constitui o principal mecanismo através do qual uma população jovem pode tornar-se uma fonte de crescimento económico.

Quando os jovens trabalham em actividades produtivas, geram rendimento, consomem, poupam, pagam impostos e sustentam os sistemas de protecção social. Quando permanecem desempregados, subempregados ou presos a actividades de sobrevivência, o potencial demográfico não é aproveitado.

Em Moçambique, o problema não se resume ao desemprego aberto. Uma grande proporção da juventude trabalha na agricultura familiar, no comércio informal, em serviços de baixa produtividade ou em ocupações ocasionais sem protecção social.

O Banco Mundial observa que cerca de 20% dos jovens nas áreas urbanas estão desempregados, enquanto muitos dos que vivem em zonas rurais se concentram na agricultura ou em trabalhos familiares não remunerados.

Isso significa que a criação de emprego precisa de ser acompanhada por aumento da produtividade e melhoria da qualidade do trabalho.

A agricultura comercial e agro-industrial, construção, turismo, logística, indústria transformadora, economia digital e serviços podem absorver mão-de-obra em maior escala. Mas exigem investimento, infra-estruturas, financiamento empresarial e um ambiente de negócios que permita às empresas crescer.

Saúde Reprodutiva É Também Política Económica

A capacidade dos jovens, sobretudo das mulheres, de decidir sobre a maternidade e o espaçamento dos nascimentos possui efeitos directos sobre educação, emprego, rendimento e crescimento económico.

Uma gravidez precoce pode interromper a trajectória escolar, reduzir o acesso ao emprego e perpetuar ciclos de pobreza. A falta de serviços de planeamento familiar pode levar famílias a terem mais filhos do que conseguem sustentar ou educar adequadamente.

O novo programa do UNFPA para Moçambique considera que a transição demográfica continuará lenta e que grandes grupos de jovens permanecerão na estrutura populacional durante pelo menos mais 20 a 30 anos.

A instituição pretende apoiar o aumento da proporção de mulheres cujas necessidades de planeamento familiar são satisfeitas por métodos modernos, de 55% em 2025 para 60% em 2030.

Este investimento não deve ser visto apenas como intervenção sanitária. Possui efeitos sobre a mortalidade materna, permanência das raparigas na escola, participação das mulheres no mercado de trabalho, rendimento das famílias e dimensão futura da população dependente.

A autonomia reprodutiva permite que as famílias ajustem o número e o momento dos nascimentos às suas condições económicas e às suas aspirações.

Raparigas Determinam a Velocidade da Transição

A forma como Moçambique investe nas adolescentes será particularmente determinante.

Quando as raparigas permanecem na escola, adiam o casamento e a primeira gravidez, desenvolvem competências e entram no mercado de trabalho, os benefícios estendem-se à família e à economia.

Mulheres com maior escolaridade tendem a possuir maior autonomia, utilizar mais os serviços de saúde, investir mais na educação dos filhos e participar de forma mais produtiva na economia.

Por outro lado, o casamento prematuro, a gravidez na adolescência, a violência baseada no género e o abandono escolar limitam as escolhas individuais e atrasam a transição demográfica.

A igualdade de género não é, assim, uma dimensão paralela ao dividendo demográfico. É uma das suas principais condições.

Sem a participação económica e social das mulheres, o País procura crescer utilizando apenas uma parte do seu potencial humano.

Habitação e Custo de Vida Também Moldam a População

O inquérito global do UNFPA mostra que as decisões familiares estão profundamente associadas à habitação e à segurança económica.

Esta conclusão também se aplica a Moçambique, sobretudo nos principais centros urbanos.

Maputo, Matola, Nampula, Beira, Tete, Pemba e outras cidades recebem anualmente novos residentes, mas a oferta de habitação formal, transportes, água, saneamento e emprego não cresce ao mesmo ritmo.

Os elevados custos dos terrenos, materiais de construção e crédito habitacional impedem muitos jovens de alcançar autonomia residencial. Uma parte permanece durante mais tempo no agregado familiar de origem ou estabelece novas famílias em áreas sem infra-estruturas adequadas.

A política populacional precisa, por isso, de dialogar com o ordenamento territorial, urbanização, transportes e habitação. Não basta analisar fecundidade e mortalidade separadamente das condições concretas em que as famílias vivem.

A ENDE reconhece esta interdependência ao organizar a estratégia em pilares que incluem transformação social e demográfica, infra-estruturas, ordenamento territorial, economia, governação e sustentabilidade ambiental.

Participação Juvenil Deve Ultrapassar a Consulta Simbólica

A mensagem do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, destaca que os jovens estão a herdar um mundo marcado por conflitos, desigualdade, crise climática e tecnologias disruptivas, mas continuam a responder com inovação e liderança.

Segundo o Secretário-Geral, esta determinação deve ser acompanhada por maior investimento em educação, saúde sexual e reprodutiva, trabalho digno e participação efectiva nas decisões.

A participação efectiva pressupõe mais do que convidar representantes juvenis para cerimónias ou sessões de consulta.

Os jovens devem intervir na definição das políticas de educação, emprego, empreendedorismo, habitação, ambiente e transformação digital. Também precisam de acompanhar a implementação e avaliar se os programas produzem resultados.

Numa sociedade em que a maioria da população é jovem, políticas concebidas sem a participação desta maioria terão menor capacidade de responder às suas necessidades.

A juventude não deve ser tratada apenas como beneficiária futura do desenvolvimento, mas como participante presente na construção das soluções.

Dados Precisam de Antecipar as Necessidades

A planificação demográfica exige informação actualizada e suficientemente detalhada por província, distrito, idade, sexo e condição socioeconómica.

Moçambique prepara o Recenseamento Geral da População e Habitação de 2027, que deverá produzir uma nova base para avaliar a distribuição, estrutura e mobilidade da população.

Este exercício será decisivo para calcular quantas escolas, unidades sanitárias, habitações, postos de trabalho e sistemas de abastecimento serão necessários nos próximos anos.

O UNFPA alerta, no seu novo programa de cooperação, que a utilização de dados desagregados pelos decisores ainda representa um desafio, particularmente ao nível provincial. A instituição defende o reforço da inteligência demográfica, dos sistemas de dados e da capacidade de antecipação dos riscos.

O problema não é apenas recolher dados. É assegurar que sejam utilizados na definição dos orçamentos, localização das infra-estruturas e avaliação das políticas.

ENDE e PQG Transformam Demografia em Prioridade Formal

A Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044 reconhece explicitamente a transformação social e demográfica como um dos cinco pilares do desenvolvimento nacional.

O documento associa a estrutura jovem da população à necessidade de expandir educação, saúde, emprego, habitação e protecção social. Também procura articular o potencial humano com industrialização, agricultura, turismo, inovação e desenvolvimento empresarial.

O Programa Quinquenal do Governo 2025–2029 constitui o primeiro instrumento de operacionalização desta visão. Prevê crescimento económico inclusivo, diversificação produtiva, criação de emprego, educação técnica, saúde, habitação, saneamento e protecção social.

Esta articulação representa um avanço na planificação.

Contudo, a experiência das estratégias anteriores mostra que a incorporação formal de uma prioridade num documento não garante a sua materialização.

O dividendo demográfico terá de ser traduzido em metas anuais: número de jovens formados, taxa de conclusão escolar, empregos criados, empresas juvenis financiadas, redução da gravidez precoce, cobertura de planeamento familiar e acesso à habitação.

Uma Oportunidade Com Prazo

O Dia Mundial da População lembra que a demografia não é destino, mas também não espera indefinidamente pelas políticas.

A actual estrutura jovem de Moçambique poderá gerar benefícios durante várias décadas. Mas essa janela pode ser desperdiçada se o País não investir atempadamente na geração que está agora nas escolas, nas comunidades e a entrar no mercado de trabalho.

O desafio não consiste em controlar a dimensão da população como um objectivo isolado. Consiste em garantir que cada pessoa tenha saúde, conhecimento, autonomia e oportunidade para contribuir para o desenvolvimento.

A investigação do UNFPA mostra que, em diferentes partes do mundo, os jovens continuam a desejar relações, filhos, estabilidade e futuro. O que falta, frequentemente, não é aspiração, mas condições.

Em Moçambique, realizar essas aspirações significa transformar uma população jovem numa sociedade mais qualificada, produtiva e livre para fazer escolhas.

O dividendo demográfico não será medido apenas pelo número de pessoas em idade activa. Será medido pela capacidade de essas pessoas encontrarem educação, emprego, saúde, habitação e confiança suficientes para construírem a vida que desejam — e, através dela, o futuro do País.