África precisa de uma abordagem pragmática, para realizar o seu vasto potencial e beneficiar dos investimentos lucrativos do sector do Gás Natural

  • É necessário e um enfoque na competitividade para atrair os milhares de milhões de dólares que serão injectados nos projectos de LNG nesta década.
  • Africa com impacto muito discreto nas emissões globais de CO2, que variará de 3% para 3,5% até 2050

As conclusões constam da mais recente publicação da International Gas Union (IGU) que faz uma analise estruturada sobre a realidade e perspectivas do sector do LNG no continente e propõe medidas a tomar visando a realização efectiva do potencial africano neste recurso.

A IGU, constata que em termos do impacto das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) a curto e médio prazo, a adopção do gás natural em África terá um impacto muito discreto nas emissões globais, dado o seu minúsculo ponto de partida. A Agencia Internacional de Energia (AIE) estima que o uso de um adicional de 90 Bcm (biliões de metros cúbicos de gás natural) por ano de gás africano até 2030 para as indústrias de fertilizantes, aço, cimento e dessalinização de água geraria emissões cumulativas de CO2 de 10 Gt7, o que levaria a participação de África nas emissões globais de apenas 3% hoje para 3,5% até 2050.

África pode usar melhor sua indústria de exportação para desenvolver mercados locais, contribuindo ainda mais para alimentar a transição energética global e aumentar a segurança energética.

A IGUE considera que a tendência geral de crescimento da demanda global de LNG na última década permitiu que os países africanos monetizassem o gás em mercados de exportação lucrativos e deu origem a vários terminais de exportação de LNG no continente. Ainda assim, a capacidade de exportação da África permaneceu relativamente pequena em comparação com seu potencial. Com os actuais fundamentos do mercado sinalizando a forte necessidade de investimentos no novo fornecimento de LNG, o continente tem uma nova janela de oportunidade para se posicionar como um hub estratégico e confiável de fornecimento global de gás. No entanto, esta janela não é exclusiva de África, nem ficará aberta para sempre.

A IGU projecta que até 2025, a capacidade de exportação de GNL da África já terá aumentado de 77,6 mtpa (milhões de toneladas por ano) hoje para 83 mtpa com novos países se juntando ao clube dos exportadores africanos de gás, como Senegal, Mauritânia ou Congo.

“Existe muito mais potencial com base nos projectos actualmente sendo propostos, com um pipeline total de projectos propostos totalizando mais de 55 mtpa”, refere o estudo da IGU,  “Gas for Africa –  Assessing the Potential for Energising Africa (Gás para África – Avaliando o Potencial para a Energização de África).

De acordo com o estudo da IGU, para realizar o seu vasto potencial e beneficiar dos investimentos lucrativos do sector, o continente precisa adoptar uma abordagem pragmática, um sentido de urgência e um enfoque na competitividade para atrair os milhares de milhões de dólares que serão injectados nos projectos de LNG nesta década.

Igualmente importante, afirma a IGU, o futuro desenvolvimento de projectos de exportação precisa de se traduzir num melhor valor para as economias locais.

O relatório considera a oportunidade de utilizar as infra-estruturas de exportação para ancorar projectos domésticos de gás (Moçambique, Mauritânia, Senegal, Marrocos, Nigéria) e o papel dos terminais de exportação de GNL em aumento do abastecimento doméstico de líquidos de gás.

Para maximizar o seu potencial de gás e promover o desenvolvimento económico sustentável, as partes interessadas africanas devem procurar resolver vários obstáculos.

Em primeiro lugar, o financiamento de projectos de energia de capital intensivo em África enfrenta dois grandes desafios, segundo a IGU: o crescente endividamento dos estados africanos e o desinvestimento dos gestores de activos globais de todos os hidrocarbonetos.

É por isso que garantir capital para empreendimentos de gás é cada vez mais desafiador, pois, é cada vez mais necessário, e exige (1) projectos à prova de futuro para tranquilizar os investidores globais sobre sustentabilidade e valor climático e (2) desbloquear fontes adicionais de capital, especialmente no mercado interno.

A segunda barreira, apontada pela IGU, é a falta de infra-estrutura para processamento, armazenamento e distribuição de gás natural. Investir em infra-estrutura de gás na África continua sendo visto como arriscado e antieconómico, especialmente considerando os centros de demanda pequenos e dispersos na África Subsaariana. Para aumentar a penetração do gás, o relatório sugere a exploração de vários caminhos, incluindo o desenvolvimento de grupos industriais, a reforma dos mercados de electricidade, a promoção da regionalização e o incentivo à adopção de tecnologias de pequena escala.

Finalmente, segundo a IGU, há um desafio premente para desenvolver um ambiente propício e diminuir os riscos associados ao investimento em África. A certeza política e a segurança física são imperativas em África para proporcionar um ambiente positivo e aumentar as cadeias de valor do gás.

À luz das incertezas da demanda global de longo prazo e da intensificação da concorrência dentro da transição energética mais ampla, é importante abordar essas barreiras com um senso de urgência, antes que a janela de oportunidade do continente comece a fechar.

Princípios-chave para impulsionar o desenvolvimento dos mercados de gás de África

1. Panenamento à prova de futuro

Alinhamento dos planos futuros de desenvolvimento do gás com a transição energética justa; garantias de sustentabilidade ambiental e compatibilidade com os objectivos do Acordo de Paris.

2. Inovação Financeira

Olhar para dentro e promover mecanismos de financiamento interno que possam explorar vastas reservas de dinheiro institucional, especialmente para projectos domésticos.

3. Bom Clima de Negócios

Um clima de investimento seguro e estável será fundamental para garantir que o continente seja globalmente competitivo.

4. Regionalização

As redes sub-regionais e regionais de gás e energia podem apoiar economias de escala e investimentos em infra-estrutura.

5. Investimento em Aglomerados e Ecossistemas

Os planos de industrialização podem se concentrar na criação de grupos de manufactura localizados próximos a campos de gás para se beneficiar de uma fonte barata de electricidade e energia.

6. Escalonamento gradual

Projectos de pequena escala provaram ser uma estratégia vencedora para pré-desenvolver mercados de gás e desbloquear a demanda reprimida.

7. Construir Mercados de Electricidade

São necessárias reformas para reestruturar os mercados de electricidade e aumentar a liquidez, melhorando ao mesmo tempo a eficiência operacional.

8. Emissões de preços

A externalização do custo das emissões é uma forma eficaz de investir em projetos de redução de emissões e incentivar a troca do carvão e petróleo pelo gás natural.

 Dinâmicas regionais: – 4 África Austral está à beira da transformação

O estudo da IGU, analisa as dinâmicas regionais e nesse capítulo, considera que a África Austral permaneceu uma fronteira de gás muito limitada, até agora.

Angola costumava ser o principal mercado de gás com o desenvolvimento de uma indústria de exportação de LNG puramente dependente do gás associado. Mas a actividade de exploração abriu novas reservas em Moçambique e na África do Sul, redesenhando as cartas do cenário de segurança energética da região. A cooperação regional já está a prosperar e pode crescer ainda mais com o gás, especialmente se novas descobertas forem confirmadas na Namíbia e no Zimbabwe.

Perspectivas

Para a IGU, a África Austral está à beira de profundas transformações que irão moldar o seu futuro energético. Há muito tempo dominada por Angola como um importante país produtor e exportador de gás, a região está a assistir a entrada de vários novos intervenientes locais e regionais de gás.

A IGU observa que Moçambique, que tem sido um importante fornecedor de gás para a África do Sul há duas décadas, tornou-se exportador de LNG em 2022 e espera aumentar significativamente a sua capacidade de exportação de LNG até 2030.

Enquanto as instalações de exportação estão sendo desenvolvidas no norte, a capital do País no sul também pode abrigar um centro de importação de LNG que atenda à sub-região.

“Mas Moçambique também está a apostar na sua economia doméstica, com vários projectos gas-to-power actualmente em desenvolvimento, juntamente com o crescimento do seu fornecimento doméstico de LPG”. Anota a IGU.

Sobre a África do Sul, o estudo nota que o gás tornou-se a alternativa natural para se afastar do carvão e o País está actualmente a planear terminais de importação de LNG em sua costa para trocar vários gigawatts de capacidade de geração de energia baseada em carvão. Descobertas recentes em terra e no mar também estão a fornecr a base para o crescimento da cadeia de valor do gás e para atender às indústrias de manufactura e transporte já bem estabelecidas.

A IGU constata, através do seu estudo, que a Africa do Sul tornou-se um pequeno produtor de LNG em 2022 e buscará desenvolver ainda mais suas reservas internas para abastecer instalações industriais e descarbonizar seu sector de transporte.

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