Num mundo em constante evolução, as preocupações globais sobre a sustentabilidade de uso de recursos do planeta são exponenciais e reflectem-se em diversas dimensões das nossas vidas, presentes e futuras. 

O sector financeiro encontra-se no seu centro pela sua interação e ligação com múltiplos sectores, bem como pela sua capacidade de poder promover e reforçar o uso de modelos sustentáveis em escala e amplitude. Paralelamente, cresce a preocupação global sobre a saúde e sustentabilidade no uso dos recursos do nosso planeta com eventos, compromissos e iniciativas que buscam soluções para contrapor práticas, métodos e hábitos há muito enraizados.

É neste contexto que emerge o conceito de Green Banking que altera o funcionamento das instituições financeiras que o adoptam. Desde a sua oferta de serviços financeiros, a forma como são prestados, as prioridades, directrizes e os modelos de gestão. E este conceito vai muito para além da banca comercial e do sector privado.

Mas então onde inicia o conceito de Green Banking?

Green Banking é um conceito dinâmico pelo que a sua definição tem variado ao longo do tempo, no entanto, e em termos gerais, cobre instituições do sector financeiro que procuram actuar e funcionar de forma sustentável.

Esta definição focaliza-se na componente ecológica e de responsabilidade ambiental que pelas dinâmicas de interação e evolução, tem aumentado o seu raio de actuação cobrindo o trinómio ‘ambiente, social e governação’ integrando o conceito ESG (na sigla inglesa, Environment, Social e Governance).

O conceito é abrangente também na diversidade de entidades que envolve, pois, integra entidades financeiras do sector público, bancos comerciais ou privados e outras instituições centradas na missão de acelerar a transição para energias renováveis e de combate às alterações climáticas.

Green Banking por todo o lado? Como assim?

Tal como o trinómio ESG, também temos três tipos de entidades envolvidas que se encontram na liderança desta jornada, ora vejamos.

Em primeiro lugar, temos entidades financeiras do sector público com foco em projectos de infraestruturas de energias limpas ou de implementação de prácticas sustentáveis de grande escala em sectores críticos sejam estruturais ou estratégicos. 

Estes projectos dado o seu caracter transformador e por vezes transfronteiriço, envolvem o acesso atempado ao conhecimento global especializado, implicam uma gestão de riscos financeiros consideráveis e a realização de investimentos elevados com retorno a longo prazo.

O sector público encontra-se melhor posicionado para os liderar e agregar valor por diversos motivos. Tem ao seu dispôr uma rede global de ligações e conhecimento especializado, acesso a soluções de financiamento em escala e a fundos supra-nacionais bem como detém elevada e comprovada experiência na gestão de infraestruturas críticas e funcionais.

De seguida, temos bancos comerciais ou de capitais privados com foco em práticas sustentáveis na sua forma de gerir e actuar. Esta orientação é evidente na oferta de produtos com versões verdes dos

produtos tradicionais (por exemplo contas correntes e cartões), nos serviços que prestam (financiamentos a projectos verdes em energias limpas, construção ecológica, agricultura sustentável, entre outros) e na forma como envolvem os clientes informando-os de prácticas sustentáveis (via eventos, seminários ou newsletters). 

E finalmente, temos entidades não financeiras com foco na disseminação de conhecimento e modelos de Green Banking. Esta partilha é efectuada pela distribuição de estudos especializados, modelos de implementação e uso de práticas de Green Banking. O objectivo é de acelerar a sua transformação verde, fortalecer os seus modelos de negócio e aumentar o seu contributo na transição para modelos de negócio estáveis e sustentáveis.

E que desafios este conceito procura resolver?

O Fundo Monetário Internacional no seu estudo publicado em Agosto de 2023 partilhou conclusões inesperadas sobre o impacto das mudanças climáticas que interliga com as práticas de Green Banking.

Por um lado, indicou que os países afectados por eventos climáticos extremos têm elevados e prolongados custos macroeconómicos, especificamente atingem até 4% do Produto Interno Bruto (PIB) durante 3 anos após a ocorrência do evento (ie secas, cheias, ciclones). Por outro lado, afirmou que os estados considerados frágeis (a maioria em África) são os mais afectados e pelo actual ritmo em 2040 estima-se que a sua temperatura média chegue a ser 4 vezes superior à de outros países. 

Para agravar esta conclusão apontou ainda que estas economias dependem de chuva para a sua agricultura, sector que representa um quarto da sua produção económica (ie PIB).

E modelos para aplicação prática, existem?

Sendo o continente africano o mais afectado por mudanças climáticas é natural que tenha tomado a iniciativa de dar passos significativos no conceito de Green Banking.

Na conferência de mudanças climáticas no Egipto (COP27), em Novembro de 2022, o African Development Bank (ADB) avançou com a iniciativa African Green Bank para apoiar a implementação do plano de adaptação climática e transição energética.  Com este âmbito, o ADB avançou com um estudo a 6 países africanos (Gana, Moçambique, Tunísia, Uganda e Zâmbia) que incluíu o potencial do modelo

Green Banking e apoiou directamente na criação e lançamento deste conceito em 4 países (Marrocos, Egipto, Benim e Costa do Marfim).

Para o arranque a iniciativa contou com USD100 milhões da Africa Green Finance Facility Fund que por sua vez alocou USD1,5 biliões para esta iniciativa. O ADB estima que as necessidades de financiamento desta natureza para esta região sejam de USD2,8 triliões até 2030.

Outro modelo de aplicação surge do International Finance Corporation (IFC) que apoia diversos bancos na América Latina e Caraíbas com a sua iniciativa Green Banking Academy que tem mais de 20 anos de existência e experiência acumulada na área de gestão e adaptação climática.

Através desta iniciativa o IFC dá apoio directo especializado e formação para acelerar a sua transformação verde que já cobriu mais de 80 instituições financeiras concedendo acima de USD1,8 biliões em financiamentos de transição climática. O IFC estima que as necessidades de financiamento desta natureza para esta região sejam de USD2,6 triliões até 2030.

Em termos de banca comercial temos um conceito interessante nos Estados Unidos onde surgiram os primeiros Green Banks em 2011 e hoje são já 23 instituições presentes em 17 estados americanos.  O Governo Norte Americano criou um Green Bank nacional (o Greenhouse Gas Reduction Fund) responsável pela gestão de um fundo verde de USD27 biliões que coordena esforços de financiamento com os Green Banks comerciais para impacto, escala e presença a nível nacional. 

O referido Green Bank nacional procura a redução de emissões de gases com efeito estufa e apoiar as comunidades desfavorecidas ou de rendimentos reduzidos. O sucesso do conceito foi evidente pois no seu lançamento em Agosto de 2022, contava já com um backlog de projectos de USD21 biliões e pelo ritmo da adesão calculou que os pedidos podem chegar ao valor de USD234 biliões em 2030.

Com estes números, que esperamos no futuro?

Pela dimensão, volume envolvido e interesse crescente das comunidades e sociedades preocupadas na saúde do planeta, os bancos centrais estão a ter um papel activo e um envolvimento directo neste conceito. 

Um exemplo é o Banco Central Europeu que viu os riscos que as mudanças climaticas têm no sistema financeiro e nas economias, a urgência em canalizar fundos e partilhar conhecimento para a transformação verde e reforçar mudanças verdes nos bancos comerciais. Naturalmente o seu primeiro passo cobriu a legislação e a imposição de novas regras de reporte e requisitos reforçados para coordenação do sector financeiro em matérias climáticas. 

Este envolvimento será naturalmente acompanhado de acções de acompanhamento e de supervisão para assegurar o cumprimento das medidas regulamentares e alinhamento no funcionamento das instituiçõoes financeiras nestas matérias.

Conclusão

O Green Banking representa uma mudança significativa na forma como as instituições financeiras operam o seu negócio para liderar a gestão do desafio climático que nos afecta a todos.

Reza o ditado popular que para grandes males, grandes remédios ou neste caso grandes soluções. E os números certamente o demonstram, mas mais do que o problema em si é a oportunidade de promover a sustentabilidade pela simples mudança de funcionamento no sector financeiro que por sua vez tem o efeito cascata em todos os sectores económicos.

E no final todos ganham, comunidades mais fortes e resilientes, economias mais robustas e sustentáveis, um ambiente mais limpo e saudável. E todos temos um papel a desempenhar para proteger e cuidar do planeta que é o nosso lar partilhado, avançando um passo e um sector de cada vez. 

Malik é um especialista independente do sector financeiro onde conta mais de 21 anos de experiência na banca local e internacional. O seu feedback sobre este artigo e partilha de topicos de interesse é bem vindo. Escreva-nos em malik@bl-serv.com*

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