Guerra No Médio Oriente Impulsiona Maior Escalada Dos Preços Da Energia Em Quatro Anos

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Banco Mundial projeta aumento de 24% nos preços energéticos e alerta para impacto em cadeia sobre inflação, crescimento e segurança alimentar global

Questões-Chave:
  • Preços da energia deverão subir 24% em 2026, atingindo máximos desde 2022;
  • Aumento geral das commodities estimado em 16%, com forte pressão sobre fertilizantes e metais;
  • Inflação nas economias em desenvolvimento poderá atingir 5,1%, com impacto no custo da dívida;
  • Crescimento económico global revisto em baixa, com economias vulneráveis mais expostas;
  • Risco de agravamento caso o conflito se prolongue ou intensifique.

Choque energético reconfigura o equilíbrio dos mercados globais

A intensificação do conflito no Médio Oriente está a desencadear um dos mais severos choques energéticos dos últimos anos, com efeitos sistémicos sobre a economia global. De acordo com o mais recente relatório Commodity Markets Outlook do Banco Mundial, os preços da energia deverão aumentar 24% em 2026, atingindo o nível mais elevado desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 .

Este movimento insere-se num aumento mais amplo dos preços das commodities, que deverão crescer 16% este ano, impulsionados não apenas pela energia, mas também por fertilizantes e metais estratégicos. O impacto não é meramente conjuntural: trata-se de um choque com capacidade de alterar trajectórias de crescimento, inflação e desenvolvimento, sobretudo nas economias mais vulneráveis.

Estreito de Ormuz no epicentro da disrupção

No centro desta escalada está a disrupção nas cadeias globais de abastecimento energético, em particular no Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 35% do comércio marítimo global de petróleo. Ataques a infra-estruturas energéticas e interrupções logísticas provocaram uma redução inicial da oferta global de cerca de 10 milhões de barris por dia.

Mesmo com alguma moderação recente, os preços do Brent permaneciam, em meados de Abril, mais de 50% acima dos níveis registados no início do ano. O Banco Mundial projecta que o Brent atinja uma média de 86 dólares por barril em 2026, face aos 69 dólares em 2025, assumindo uma normalização gradual do transporte marítimo até ao final do ano.

Efeito dominó: energia, alimentos e inflação

O impacto deste choque não se limita ao sector energético. Conforme sublinhou o economista-chefe do Banco Mundial, Indermit Gill, “a guerra está a atingir a economia global em ondas cumulativas: primeiro através dos preços da energia, depois dos alimentos e, finalmente, da inflação”, acrescentando que este processo conduzirá ao aumento das taxas de juro e ao agravamento dos custos da dívida.

O aumento dos preços dos fertilizantes — estimado em 31%, com destaque para uma subida de 60% na ureia — deverá reduzir a acessibilidade para os agricultores, pressionar os rendimentos e comprometer a produção agrícola futura. Num cenário de prolongamento do conflito, até 45 milhões de pessoas adicionais poderão cair em situação de insegurança alimentar aguda.

Inflação e crescimento sob pressão acrescida

A pressão inflacionista emerge como uma das principais consequências macroeconómicas deste choque. Nas economias em desenvolvimento, a inflação deverá atingir uma média de 5,1% em 2026, acima dos 4,7% registados no ano anterior e significativamente acima das previsões anteriores ao conflito.

Simultaneamente, o crescimento económico deverá desacelerar para 3,6%, representando uma revisão em baixa de 0,4 pontos percentuais face às projecções de Janeiro. O impacto será transversal, afectando tanto importadores como exportadores de commodities, com mais de 70% dos primeiros e 60% dos segundos a enfrentarem revisões negativas no crescimento.

Cenário de risco: petróleo pode atingir 115 dólares

O relatório alerta ainda para um cenário de agravamento significativo caso o conflito escale ou as disrupções persistam. Nesse contexto, o preço médio do Brent poderá atingir 115 dólares por barril em 2026, amplificando os efeitos inflacionistas e elevando a inflação nas economias em desenvolvimento para 5,8% — níveis apenas superados durante o pico inflacionista de 2022 .

Além disso, os efeitos de contágio entre mercados são particularmente relevantes em contextos geopolíticos. Uma redução de apenas 1% na produção petrolífera pode elevar os preços em 11,5%, com impactos que se propagam para o gás natural e fertilizantes, reforçando os riscos para a segurança alimentar e a redução da pobreza.

Espaço fiscal reduzido limita resposta dos governos

Num contexto já marcado por sucessivos choques na última década, a capacidade de resposta dos governos encontra-se condicionada. Como destacou Ayhan Kose, o espaço fiscal disponível foi significativamente reduzido, exigindo uma abordagem mais criteriosa por parte das autoridades.

“O foco deve estar em medidas de apoio rápidas, temporárias e direccionadas às populações mais vulneráveis”, advertiu, desencorajando políticas fiscais generalizadas que possam distorcer mercados e fragilizar ainda mais as finanças públicas.

Guerra como travão ao desenvolvimento

A leitura estrutural do relatório é clara: os efeitos deste choque vão muito além de uma flutuação cíclica de preços. A guerra está a actuar como um travão ao desenvolvimento, revertendo progressos e ampliando vulnerabilidades, especialmente em economias já pressionadas por elevados níveis de endividamento.

Num contexto global marcado por incerteza geopolítica crescente, os mercados de commodities voltam a assumir um papel central na definição das trajectórias económicas, com implicações profundas para políticas públicas, estabilidade financeira e inclusão económica.

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