Inteligência Artificial Concentra 68% do Valor Acrescentado em Lucros e Deixa Trabalhadores Com Menos de 15%

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Estudo da UNCTAD revela que a expansão das cadeias globais de inteligência artificial distribui a produção por vários países, mas concentra os ganhos económicos nas empresas que controlam a tecnologia, o conhecimento e o desenho dos semicondutores. Economias fornecedoras de matérias-primas continuam a captar uma parcela marginal da riqueza gerada.

Questões-Chave:

  • Lucros concentram 68% do valor acrescentado analisado num sistema avançado de inteligência artificial, enquanto os trabalhadores recebem apenas 14,2%;
  • Quatro grupos de fornecedores captam 82% do valor criado, evidenciando a concentração económica numa cadeia de produção global;
  • Matérias-primas como cobre, silício e estanho representam apenas cerca de 0,2% do preço final do equipamento analisado;
  • Produtos tecnológicos e associados à IA contribuíram com 42% do crescimento em valor do comércio mundial de mercadorias em 2025;
  • Economias africanas enfrentam o risco de permanecer na base das cadeias tecnológicas, exportando recursos naturais e importando produtos e serviços de elevado valor acrescentado.

A expansão da inteligência artificial está a transformar o comércio internacional, a organização da produção industrial e a distribuição da riqueza na economia mundial. Contudo, uma nova análise da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), divulgada a 13 de Outubro de 2026, revela uma assimetria estrutural: embora a produção de equipamentos avançados envolva empresas, trabalhadores e recursos de diferentes continentes, a maior parcela dos ganhos económicos permanece concentrada num número reduzido de empresas tecnológicas.

O estudo, intitulado AI Spreads the Work but Concentrates the Profit, examina a cadeia de valor do sistema NVIDIA GB200 NVL72, uma infra-estrutura de computação de elevado desempenho utilizada em centros de dados para executar aplicações de inteligência artificial.

Os resultados mostram que 68% do valor acrescentado identificado na produção do equipamento corresponde a lucros líquidos depois de impostos, enquanto a remuneração dos trabalhadores envolvidos directamente na produção e nas restantes funções representa apenas 14,2%.

A análise constitui uma demonstração das desigualdades na distribuição do rendimento numa das indústrias que mais rapidamente se expandem no mundo, introduzindo uma questão central para as políticas de desenvolvimento: a participação nas cadeias globais de produção não assegura, por si só, uma participação proporcional nos benefícios económicos gerados.

Um Equipamento de US$ 3,3 Milhões Revela a Distribuição da Riqueza Tecnológica

Para compreender como se distribui o valor económico na indústria da inteligência artificial, a UNCTAD analisou um sistema de servidores NVIDIA GB200 NVL72, avaliado em aproximadamente US$ 3,3 milhões.

A investigação conseguiu identificar a distribuição de mais de 87% do valor acrescentado total associado ao equipamento, permitindo distinguir os rendimentos atribuídos ao trabalho, ao capital, aos impostos empresariais e aos lucros líquidos.

Distribuição do Valor Acrescentado Identificado — Sistema NVIDIA GB200 NVL72

Componente Parcela do valor acrescentado rastreado
Lucros líquidos depois de impostos68%
Remuneração do trabalho14,2%
Capital e impostos empresariais (restante)17,8%

Percentagens relativas ao valor acrescentado rastreado, não ao preço de venda.

Fonte: UNCTAD, com base em Heydemann e Maystre (2026). As parcelas somam 100% do valor acrescentado rastreado, estimado em cerca de US$ 2,92 milhões.

A maior fatia dos lucros é captada pela NVIDIA, responsável pelo desenho dos processadores e pela arquitectura tecnológica do sistema, embora grande parte da produção física seja realizada por outras empresas.

Este modelo evidencia uma característica fundamental das cadeias tecnológicas contemporâneas: as empresas que controlam os activos intangíveis, incluindo patentes, propriedade intelectual, investigação, desenvolvimento e desenho de semicondutores, encontram-se numa posição privilegiada para capturar o valor económico.

Em contrapartida, actividades como montagem industrial, fornecimento de matérias-primas e determinados segmentos da produção apresentam margens relativamente mais reduzidas.

A Produção É Global, Mas os Lucros Permanecem Concentrados

A cadeia de produção dos equipamentos avançados de inteligência artificial constitui um exemplo da crescente fragmentação internacional dos processos industriais.

O cobre pode ser extraído em países como o Chile e o Peru, enquanto os semicondutores e componentes de memória são fabricados em economias asiáticas altamente especializadas, particularmente Taiwan e Coreia do Sul. A montagem e integração dos equipamentos envolve instalações industriais localizadas na Malásia, no México, nos Estados Unidos e em Taiwan.

A articulação destas actividades permite produzir sistemas computacionais de elevada complexidade, mas o rendimento económico obtido pelos diferentes participantes varia consideravelmente.

Segundo a UNCTAD, quatro grupos de fornecedores concentram aproximadamente 82% do valor acrescentado identificado na cadeia analisada.

Esta concentração reflecte uma estrutura produtiva em que a distribuição geográfica das actividades industriais não corresponde necessariamente à distribuição dos ganhos financeiros.

Na prática, países com elevada participação na produção podem continuar relativamente afastados dos segmentos mais rentáveis, enquanto empresas que detêm a tecnologia e coordenam as cadeias globais beneficiam de maior capacidade de apropriação dos resultados económicos.

Matérias-Primas Representam Apenas 0,2% do Preço Final

Uma das conclusões mais relevantes do estudo diz respeito à participação das matérias-primas no valor económico dos equipamentos de inteligência artificial.

Embora minerais como cobre, silício e estanho sejam indispensáveis ao funcionamento dos sistemas computacionais, o seu peso conjunto representa aproximadamente 0,2% do preço final do equipamento analisado.

A diferença entre a importância física destes recursos e a sua contribuição para o valor comercial final demonstra que a disponibilidade de matérias-primas não garante uma posição economicamente favorável nas cadeias globais.

Esta configuração tem implicações especialmente relevantes para economias dependentes das exportações de recursos naturais.

O aumento da procura internacional de minerais utilizados em tecnologias digitais pode estimular a produção, as exportações e o investimento extractivo.

Contudo, sem transformação industrial, desenvolvimento tecnológico e especialização empresarial, a maior parcela do valor continuará a ser gerada e captada nos segmentos posteriores da cadeia.

É neste contexto que a discussão sobre industrialização e diversificação económica ganha uma dimensão adicional: a capacidade de produzir e exportar recursos naturais deve ser acompanhada pela criação de competências que permitam participar em actividades com maior intensidade tecnológica.

Inteligência Artificial Representa 42% do Crescimento do Comércio Mundial de Mercadorias

A concentração dos benefícios económicos torna-se particularmente significativa quando considerada a dimensão da expansão comercial associada à inteligência artificial.

De acordo com dados da Organização Mundial do Comércio citados pela UNCTAD, os produtos tecnológicos e os bens que viabilizam a inteligência artificial, incluindo semicondutores e servidores, representaram aproximadamente um sexto do comércio mundial de mercadorias em 2025.

Mais expressivo ainda, estes produtos contribuíram com 42% do crescimento em valor do comércio mundial de bens naquele ano.

Peso dos Produtos Tecnológicos e Associados à IA no Comércio Mundial de Bens — 2025

Indicador Valor
Participação no comércio mundial de bens~16,7%
Contributo para o crescimento em valor do comércio de mercadorias42%

Fonte: Organização Mundial do Comércio, citada pela UNCTAD.

Estes indicadores confirmam o papel crescente da inteligência artificial enquanto factor de dinamização do comércio internacional, numa conjuntura em que vários sectores tradicionais enfrentam dificuldades de expansão.

O Trade and Development Report 2026, publicado pela UNCTAD a 9 de Outubro, enquadra esta transformação num cenário de crescente competição geoeconómica, em que tecnologia, financiamento, políticas industriais e relações estratégicas influenciam o acesso aos mercados e às oportunidades de investimento.

A organização estima que a economia mundial cresça 2,6% em 2026, abaixo dos 2,9% registados em 2025, enquanto as economias em desenvolvimento deverão desacelerar de 4,7% para 4%.

O dinamismo tecnológico contrasta, assim, com uma trajectória de crescimento global moderado e com persistentes dificuldades de convergência económica entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

África Enfrenta o Risco de Reproduzir a Dependência das Matérias-Primas

A configuração das cadeias de valor da inteligência artificial apresenta implicações particulares para o continente africano, cujo posicionamento na economia internacional continua fortemente associado à exploração e exportação de matérias-primas.

A disponibilidade de recursos minerais estratégicos pode favorecer o investimento, mas a experiência analisada pela UNCTAD demonstra que a localização dos recursos representa apenas uma das etapas necessárias para capturar os benefícios económicos da industrialização tecnológica.

As economias que conseguem desenvolver fornecedores especializados, competências de engenharia, capacidade industrial, investigação aplicada e serviços tecnológicos encontram-se em melhores condições para participar nos segmentos de maior valor acrescentado.

No caso de Moçambique, esta reflexão assume relevância perante a necessidade de transformar a riqueza mineral e energética em capacidades produtivas mais diversificadas.

O país dispõe de recursos naturais e de um potencial energético que podem sustentar actividades industriais e digitais, incluindo infra-estruturas de processamento de dados, serviços tecnológicos e fornecimento de energia a instalações industriais intensivas em electricidade.

Todavia, a criação destas actividades exige condições de competitividade, investimento em capital humano, infra-estruturas adequadas e maior integração entre empresas nacionais, instituições de formação e investidores internacionais.

A ligação entre recursos naturais, industrialização e economia digital constitui, deste modo, uma possibilidade de ampliar a participação nacional nas cadeias de valor, embora a passagem para segmentos avançados de semicondutores permaneça particularmente exigente em termos tecnológicos e financeiros.

A Qualificação Tecnológica Define o Acesso aos Segmentos Mais Rentáveis

A UNCTAD considera que a atracção de investimento estrangeiro deve ser acompanhada por políticas destinadas ao desenvolvimento de fornecedores nacionais e à criação de competências técnicas.

A transformação das cadeias globais de valor exige estratégias de especialização progressiva, através das quais as economias possam avançar de actividades de menor complexidade para segmentos industriais e de serviços mais sofisticados.

Esta abordagem tem correspondência com o conceito económico de upgrading nas cadeias globais de valor, que descreve a capacidade das empresas e dos países de melhorar processos produtivos, desenvolver produtos mais complexos e assumir funções de maior valor económico.

A experiência internacional demonstra que a inserção inicial numa cadeia industrial pode proporcionar aprendizagem, emprego e oportunidades de investimento. Porém, a evolução para funções como engenharia, desenho de produtos, desenvolvimento de software, gestão tecnológica e investigação tende a criar condições mais favoráveis de apropriação do rendimento.

Para economias em desenvolvimento, o problema central consiste em construir as capacidades institucionais, financeiras e empresariais necessárias a essa progressão.

A concentração dos ganhos na indústria da inteligência artificial mostra, por conseguinte, que a expansão do comércio tecnológico pode coexistir com uma distribuição profundamente desigual dos seus benefícios.

O exemplo do sistema NVIDIA GB200 NVL72 sintetiza esta realidade: recursos extraídos em diferentes países, componentes produzidos em várias economias e trabalho distribuído por múltiplas unidades industriais convergem num produto de elevado valor, mas a maior parcela do rendimento permanece associada ao controlo da tecnologia e dos activos intangíveis.

Num contexto de aceleração do investimento mundial em inteligência artificial, a posição das economias nas cadeias de valor será determinante para a sua capacidade de transformar oportunidades comerciais em emprego qualificado, produtividade, rendimento e desenvolvimento industrial.