
Linha Moçambique–Malawi Prepara Entrada Em Operação Comercial Ainda Este Mês
- A interligação de 154 milhões de dólares encontra-se em fase de testes e deverá permitir a exportação de energia moçambicana para o Malawi, integrar este país no mercado eléctrico da África Austral e criar uma nova fonte de receitas para a EDM. O vandalismo de torres atrasou a conclusão da infra-estrutura e elevou os custos de implementação.
- A linha de interligação eléctrica entre Moçambique e Malawi deverá entrar em operação comercial ainda em Agosto;
- A infra-estrutura encontra-se energizada e os testes técnicos deverão prosseguir durante aproximadamente duas semanas;
- O projecto está avaliado em 154 milhões de dólares e foi financiado pelo Banco Mundial, KfW e União Europeia;
- A linha possui 218 quilómetros, dos quais 142 estão em Moçambique e 76 no Malawi;
- A interligação poderá adicionar até 120 megawatts à rede eléctrica do Malawi;
- Numa primeira fase, o Malawi deverá adquirir aproximadamente 50 megawatts de electricidade a Moçambique;
- A comercialização de energia cria uma nova fonte de receitas para a EDM e amplia a participação de Moçambique no mercado regional;
- A vandalização de torres de transmissão atrasou as obras e obrigou os empreiteiros a substituir equipamentos;
- O projecto liga o Malawi ao Southern African Power Pool, reduzindo o isolamento do seu sistema eléctrico;
A linha de transporte de energia entre Moçambique e Malawi poderá entrar em operação comercial ainda durante o mês de Agosto, depois da conclusão dos principais trabalhos de construção e do início dos testes técnicos necessários para assegurar o funcionamento regular da infra-estrutura.
A informação foi avançada ao jornal Notícias pelo presidente do Conselho de Administração da Electricidade de Moçambique, Joaquim Henriques Ou-Chim, à margem de um encontro que reuniu os principais intervenientes dos sectores energético e de hidrocarbonetos.
“A linha já foi energizada, está agora no período de testes e contamos que ainda este mês poderá ocorrer a entrada em operação comercial”, afirmou o responsável, citado pelo Notícias.
Os testes deverão decorrer durante cerca de duas semanas e poderão ser prolongados caso sejam identificadas anomalias. A fase de operação comercial corresponde ao momento em que a infra-estrutura passa a transportar electricidade de forma contínua e a suportar transacções regulares entre os sistemas eléctricos dos dois países.
A entrada em funcionamento representa a concretização de um projecto de integração regional concebido para permitir a exportação de electricidade moçambicana, melhorar a segurança do abastecimento no Malawi e ligar este país ao Southern African Power Pool.
Investimento De US$154 Milhões Liga Duas Redes
O projecto está avaliado em aproximadamente 154 milhões de dólares e foi financiado pelo Banco Mundial, pela Cooperação Financeira Alemã, através do KfW, e pela União Europeia.
A linha liga a subestação de Matambo, no distrito de Changara, província de Tete, à subestação de Phombeya, no distrito de Balaka, na região Sul do Malawi.
A infra-estrutura possui uma extensão total de aproximadamente 218 quilómetros. No lado moçambicano, foram construídos cerca de 142 quilómetros de linha de transmissão, atravessando os distritos de Changara e Moatize, além da cidade de Tete. Os restantes 76 quilómetros encontram-se em território malawiano.
O projecto incluiu a ampliação da subestação de Matambo para 400 quilovolts, a construção de estradas de acesso e manutenção e a instalação de sistemas de comunicação necessários ao controlo e protecção da rede.
Segundo o jornal Notícias, a secção moçambicana compreende 337 torres de transmissão.
A linha foi construída para uma tensão de 400 quilovolts, embora possa operar inicialmente a uma capacidade inferior, de acordo com as necessidades técnicas e comerciais dos dois sistemas.
Moçambique Ganha Novo Mercado Para A Electricidade
A entrada em operação comercial abre um novo mercado para a electricidade produzida em Moçambique.
O Malawi deverá importar inicialmente cerca de 50 megawatts, num acordo que poderá ser ampliado à medida que a procura e a capacidade das redes o permitirem. A infra-estrutura possui potencial para adicionar até 120 megawatts ao sistema eléctrico malawiano.
A venda de energia cria uma fonte adicional de receitas para a EDM e permite aumentar a utilização económica da capacidade de produção disponível em Moçambique.
Estimativas anteriormente divulgadas apontam para receitas mensais que poderão alcançar 4,5 milhões de dólares com a exportação inicial de 50 megawatts. O valor efectivo será determinado pelos volumes comercializados, pelo preço contratual da energia e pela regularidade do fornecimento.
Para a EDM, a importância comercial reside igualmente na diversificação dos compradores. Uma empresa de electricidade excessivamente dependente de um número reduzido de grandes clientes ou mercados fica mais exposta a variações na procura e a riscos de pagamento.
A inclusão do Malawi amplia o portefólio regional da empresa e cria experiência adicional na gestão de contratos de fornecimento transfronteiriço.
Malawi Passa A Integrar O Mercado Regional
A interligação permitirá que o Malawi se conecte, pela primeira vez, ao Southern African Power Pool, o mercado regional de electricidade que reúne as empresas e os sistemas eléctricos dos países da SADC.
A integração oferece ao Malawi a possibilidade de adquirir energia de Moçambique e de outros participantes do mercado regional, reduzindo a dependência exclusiva da produção interna.
O sistema eléctrico malawiano possui uma elevada exposição à produção hidroeléctrica, particularmente às centrais instaladas no rio Shire. Secas, cheias, avarias e limitações na capacidade de geração têm provocado défices de abastecimento e interrupções frequentes.
O acesso ao mercado regional melhora a capacidade de responder a períodos de escassez e permite combinar diferentes fontes e horários de produção.
Para as empresas malawianas, um fornecimento mais regular poderá reduzir os custos associados à utilização de geradores, perdas de produção, manutenção de sistemas alternativos e interrupções das actividades.
A melhoria da disponibilidade de energia também aumenta a capacidade do Malawi para atrair investimento nos sectores industrial, mineiro, agrícola e de serviços.
Exportação Reforça A Posição Energética De Moçambique
A linha Matambo–Phombeya possui importância estratégica para a afirmação de Moçambique como fornecedor regional de energia.
O País dispõe de uma base de produção assente na Hidroeléctrica de Cahora Bassa e em diferentes projectos de geração existentes ou em desenvolvimento. A expansão das interligações permite transformar esta capacidade em receitas de exportação e aumentar a relevância de Moçambique no mercado energético da África Austral.
A electricidade constitui uma exportação com características diferentes das mercadorias físicas. Depois de construída a infra-estrutura, pode ser comercializada continuamente, sem os mesmos custos de transporte rodoviário, ferroviário ou marítimo.
A actividade também pode gerar receitas em moeda externa, melhorar a posição financeira da EDM e apoiar novos investimentos na expansão e manutenção da rede nacional.
A interligação com o Malawi complementa as ligações existentes com a África do Sul, Essuatíni, Zimbabwe e outros sistemas da região.
Quanto maior for o número de interligações, maior será a capacidade de Moçambique vender energia em diferentes mercados, adquirir electricidade em momentos de necessidade e participar nas transacções do Southern African Power Pool.
Integração Aumenta A Resiliência Dos Sistemas
As redes eléctricas interligadas apresentam maior capacidade de resposta a choques do que sistemas nacionais isolados.
Quando um país enfrenta uma redução temporária da produção, pode importar electricidade de outro sistema com capacidade disponível. Quando possui excedentes, pode exportá-los em vez de limitar a produção.
A partilha de reservas também reduz a necessidade de cada país manter, individualmente, toda a capacidade necessária para responder aos picos de procura ou às avarias.
Esta complementaridade pode diminuir os custos de operação e melhorar a fiabilidade do fornecimento em toda a região.
Para Moçambique, a linha também contribui para o desenvolvimento da rede em Tete e cria uma infra-estrutura que poderá sustentar futuras ligações ao Norte do País e a outros mercados.
O projecto inclui cabos de fibra óptica, que podem apoiar sistemas de controlo da rede e criar capacidade adicional para serviços digitais e de telecomunicações.
Vandalismo Atrasou A Conclusão
O vandalismo de infra-estruturas eléctricas constituiu um dos principais constrangimentos à implementação do projecto.
Joaquim Ou-Chim explicou ao Notícias que as ocorrências se concentraram nas torres de transmissão e aumentaram depois das manifestações pós-eleitorais registadas no final de 2024 e início de 2025.
A retirada ou destruição de componentes comprometeu a estabilidade das estruturas e obrigou à reposição de materiais pelos empreiteiros.
“Durante a construção da linha, teve de ser feita a reposição através dos empreiteiros. Devo dizer que corresponde a um valor significativo”, afirmou o presidente da EDM, sem especificar os prejuízos.
O coordenador do projecto, João Catine, também declarou ao Notícias que o aumento dos roubos perturbou o cumprimento do calendário, anteriormente estabelecido para Dezembro de 2025.
As obras do lado malawiano estavam concluídas desde o ano anterior, mas os danos no troço moçambicano impediram a entrada em funcionamento de toda a interligação.
A EDM envolveu a Polícia e as comunidades na fiscalização das infra-estruturas, procurando reduzir os roubos e evitar novos atrasos.
Vandalismo Transforma-Se Em Custo Económico
O furto de componentes de uma linha de energia não representa apenas o valor do material retirado.
Cada ocorrência pode exigir inspecções, aquisição de novas peças, mobilização de equipas, interrupção de trabalhos e reprogramação dos testes. Quando afecta uma infra-estrutura transfronteiriça, o prejuízo inclui também as receitas de energia que deixam de ser obtidas durante o atraso.
No caso da ligação Moçambique–Malawi, o adiamento da operação comercial significou que a EDM permaneceu sem receber as receitas previstas com a venda de electricidade, enquanto o Malawi continuou sem acesso à nova capacidade de importação.
O vandalismo também aumenta a percepção de risco dos financiadores e investidores. Projectos futuros podem precisar de incorporar custos superiores de vigilância, segurança, reposição e seguros.
A protecção das 337 torres em território moçambicano exige uma articulação contínua entre a EDM, autoridades locais, Polícia e comunidades atravessadas pela linha.
A sensibilização das populações deverá ser acompanhada por mecanismos de denúncia, fiscalização do comércio de materiais furtados e responsabilização dos compradores de componentes das infra-estruturas públicas.
Operação Comercial Converte Investimento Em Receitas
A energização e os testes representam a passagem da fase de construção para a geração efectiva dos benefícios económicos que justificaram o investimento.
A linha só começa a produzir retorno quando transporta electricidade, assegura a cobrança das vendas e melhora a fiabilidade dos sistemas interligados.
Para Moçambique, o início da operação comercial significa novas receitas de exportação e maior utilização das suas vantagens energéticas. Para o Malawi, representa acesso a mais 120 megawatts e a entrada no mercado regional de electricidade.
O projecto também demonstra o papel das interligações na transformação dos recursos energéticos moçambicanos em instrumentos de integração e desenvolvimento regional.
Depois dos atrasos provocados pelo vandalismo, a prioridade passa pela conclusão segura dos testes, protecção permanente da infra-estrutura e estabelecimento de um fornecimento comercial regular.
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