Mandioca Procura Salto de Produtividade Com Aposta na Mecanização e Mercado Chinês

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Parceria entre entidades moçambicanas e chinesas prevê elevar rendimentos dos actuais 10–12 para cerca de 35 toneladas por hectare, introduzir novas variedades, mecanizar a produção e instalar processamento local; dimensão do mercado chinês abre oportunidade, mas escala, financiamento, logística e capacidade industrial determinarão a viabilidade da nova cadeia

Questões-Chave:

  • Memorandos assinados em Maputo juntam entidades empresariais e associativas de Moçambique e China numa iniciativa destinada a desenvolver a cadeia da mandioca;
  • Projecto aponta para aumento da produtividade dos actuais 10–12 para cerca de 35 toneladas por hectare através de novas variedades, insumos e mecanização;
  • Longrun pretende trabalhar com cooperativas e associações de produtores e anunciou como meta adquirir até um milhão de unidades de produção nos próximos cinco anos;
  • China importou cerca de 3,83 milhões de toneladas de amido de mandioca em 2024, avaliadas em aproximadamente US$ 1,92 mil milhões;
  • Processamento em Moçambique integra o modelo proposto, embora investimento, localização, capacidade industrial e calendário das unidades permaneçam por definir;
  • Organização dos produtores, financiamento, armazenamento, logística, padrões de qualidade e produtividade serão determinantes para converter o memorando numa cadeia comercial de escala.

A mandioca poderá ganhar uma nova dimensão económica em Moçambique se uma iniciativa empresarial lançada esta semana conseguir elevar significativamente a produtividade, organizar pequenos produtores, introduzir mecanização e processamento e estabelecer uma ligação comercial regular com o mercado chinês 

O ponto de partida é ambicioso: aumentar os rendimentos actualmente estimados pelos promotores entre 10 e 12 toneladas por hectare para cerca de 35 toneladas, aproximando a cultura de uma lógica de produção comercial de maior escala.

A iniciativa resulta de memorandos de entendimento assinados, a 1 de Outubro, em Maputo, entre a Câmara de Comércio de Moçambique (CCM), Cooperativa de Inclusão e Desenvolvimento Económico, Associação do Movimento para o Desenvolvimento Participativo Social, Associação Empresarial para o Desenvolvimento de Zavala, Associação de Agentes Económicos da Província de Hunan e o grupo chinês Longrun.

Os acordos colocam a mecanização, introdução de variedades de maior rendimento, fornecimento de insumos, acesso a equipamentos, organização dos produtores, armazenamento, processamento e logística entre os componentes previstos para a construção da cadeia.

A aposta procura responder a um problema estrutural da agricultura moçambicana: produzir maior quantidade e valor a partir da mesma superfície cultivada, criando simultaneamente um mercado capaz de absorver o aumento da oferta.

É neste ponto que a China assume importância estratégica.

China Importou US$ 1,92 Mil Milhões de Amido de Mandioca  

A dimensão do mercado chinês fornece escala à ambição do projecto.

Dados do comércio internacional compilados pelo Banco Mundial mostram que a China importou, em 2024, cerca de 3,83 milhões de toneladas de amido de mandioca, no valor aproximado de US$ 1,92 mil milhões, figurando como o maior importador mundial deste produto.

Tailândia e Vietname dominaram largamente o abastecimento. A Tailândia forneceu cerca de 1,82 milhões de toneladas e o Vietname aproximadamente 1,56 milhões, seguindo-se Laos e Camboja.

A estrutura das importações mostra simultaneamente a dimensão da procura e o nível de competição que um eventual fornecedor moçambicano terá de enfrentar.

O acesso ao mercado chinês exigirá capacidade para produzir volumes regulares, cumprir especificações, assegurar qualidade, processar o produto quando necessário e manter custos logísticos competitivos perante fornecedores asiáticos geograficamente mais próximos e com cadeias industriais já consolidadas.

A Longrun pretende utilizar o seu conhecimento do mercado chinês e experiência de produção para apoiar a criação da cadeia em Moçambique. 

 

A CEO da empresa, Jasmine Lin, defendeu que a oportunidade deve incorporar também desenvolvimento produtivo local.

“Não é apenas comida para a nossa família, mas também é um negócio, é uma oportunidade para o crescimento económico local”, afirmou.

Produtividade Determinará a Economia do Projecto

O salto de 10–12 para 35 toneladas por hectare constitui uma das metas centrais da iniciativa.

A diferença é economicamente relevante. Tomando como referência 10 toneladas por hectare, atingir 35 toneladas representaria uma produção 3,5 vezes superior na mesma área cultivada. Mesmo partindo das 12 toneladas indicadas pelos promotores, o rendimento aproximar-se-ia do triplo.

A FAO identifica há vários anos a baixa produtividade como uma das limitações da mandioca em Moçambique e em outras economias da África Oriental e Austral.

Isto significa que a expansão da cadeia pode seguir dois caminhos distintos: aumentar a produção através da incorporação contínua de novas áreas ou conseguir uma parcela importante desse crescimento através de ganhos de rendimento por hectare.

A segunda via oferece implicações económicas importantes. Maior produtividade pode reduzir o custo unitário, aumentar o excedente comercializável do agricultor e tornar mais viável o abastecimento regular de unidades de processamento.

Mas atingir 35 toneladas por hectare exigirá que as condições observadas em campos ou variedades de elevado rendimento sejam reproduzidas de forma consistente entre produtores, localidades e ciclos agrícolas.

É neste ponto que variedades, assistência técnica, mecanização, disponibilidade de material de propagação, práticas agronómicas e organização da produção assumem importância.

Mercado Previsível Pode Alterar Incentivos do Produtor

Para a Câmara de Comércio de Moçambique, a existência de compradores identificados pode alterar os incentivos económicos enfrentados pelos pequenos agricultores.

O presidente da CCM, Lucas Chachine, considera que a dificuldade de acesso ao mercado condiciona a decisão sobre quanto produzir.

“Os pequenos produtores, quando não têm um mercado, limitam-se a trabalhar para áreas de consumo, autoconsumo na família”, afirmou.

A lógica económica é relevante.

Um produtor aumenta a produção comercial quando possui perspectivas razoáveis de vender o excedente a um preço capaz de remunerar trabalho, insumos e capital. A ausência de compradores previsíveis reduz o incentivo para investir em produtividade e expandir a área.

Um contrato ou canal comercial estruturado pode alterar essa relação ao aproximar produção e procura.

Chachine enquadrou também a iniciativa na discussão sobre substituição de importações e expansão da produção nacional.

“Não podemos só limitar as importações se, por outro lado, não estamos a estimular a produção.”

A estratégia coloca, portanto, o mercado como parte do processo produtivo: aumentar a oferta requer simultaneamente capacidade de absorção dessa produção.

Um Milhão de Unidades Integra Meta Para Cinco Anos

A Longrun anunciou como meta a aquisição de até um milhão de unidades de produção de mandioca nos próximos cinco anos, segundo a informação apresentada durante a assinatura dos memorandos.

A expressão “unidades de produção”, utilizada pelos promotores, precisará de ser convertida em volumes físicos padronizados à medida que o projecto avance, para permitir avaliar com precisão a dimensão comercial e logística pretendida.

Na primeira fase, a empresa prevê trabalhar com cooperativas e associações, seleccionar variedades adequadas à produção industrial e introduzi-las através dos canais oficiais.

A estratégia contempla igualmente a identificação de jovens líderes agrícolas que poderão actuar junto das comunidades produtoras e posteriormente beneficiar de formação na China.

Esta componente procura criar capacidade local para disseminar técnicas de produção e organizar agricultores em torno da nova cadeia.

Processamento Local Pode Determinar Quanto Valor Fica em Moçambique

Uma das decisões mais importantes será a forma como o produto chegará ao mercado externo.

A mandioca possui diferentes utilizações industriais e pode originar produtos com distintos níveis de transformação. O amido constitui uma das cadeias comerciais mais relevantes e os dados chineses demonstram a dimensão desse mercado.

A criação de unidades de processamento em Moçambique poderá permitir que uma parcela superior do valor seja gerada antes da exportação.

A própria Longrun indicou que a estratégia inclui estruturas de armazenamento e unidades de processamento no País.

A empresa ainda não apresentou, contudo, o valor do investimento necessário.

Jasmine Lin explicou que a dimensão financeira estará relacionada com a localização das unidades, escala alcançada pela produção e eventual necessidade de instalar fábricas em diferentes pontos do território.

A primeira fase deverá concentrar-se na organização da base produtiva, selecção das variedades, mobilização dos agricultores e criação da estrutura logística. A configuração industrial será definida posteriormente.

Esta sequência contém uma lógica económica: uma fábrica de processamento precisa de matéria-prima suficiente e regular para utilizar a capacidade instalada de forma eficiente. Construir capacidade industrial antes de consolidar a oferta agrícola pode aumentar custos e deixar activos subutilizados.

Cadeia Terá de Ligar Campo, Fábrica, Porto e Comprador

A logística constitui outra variável decisiva.

A mandioca produzida por agricultores dispersos precisa de ser agregada, armazenada ou processada e transportada até às unidades industriais e, posteriormente, aos mercados de destino.

Cada etapa acrescenta custos.

Para competir no mercado internacional, a produtividade obtida no campo terá de compensar, juntamente com o processamento, os custos de recolha, armazenamento, transporte terrestre, operação industrial, movimentação portuária e frete marítimo.

Esta questão ganha especial relevância quando os principais concorrentes estão localizados no Sudeste Asiático e possuem relações comerciais consolidadas com a China.

A competitividade da cadeia moçambicana será, portanto, determinada pelo custo entregue ao comprador, qualidade do produto e capacidade de garantir fornecimento regular.

Moçambique Ainda Importa Amido de Mandioca

Existe também uma dimensão doméstica que merece atenção.

Dados de comércio internacional mostram que Moçambique importou em 2024 cerca de 104 toneladas de amido de mandioca, no valor aproximado de US$ 93 mil, quase integralmente provenientes da Zâmbia.

O montante é pequeno perante a dimensão do mercado chinês, mas revela que existe procura interna por um derivado que poderia, em determinadas condições de qualidade e custo, integrar a futura produção nacional.

Uma cadeia industrial da mandioca pode, assim, encontrar aplicações tanto no mercado externo como na substituição selectiva de produtos actualmente importados.

A viabilidade de cada segmento terá de ser determinada por custos, especificações técnicas e escala.

Capital Chinês Será Ligado a Produtores e Instituições

A CCM Investimentos deverá desempenhar um papel de facilitação entre investidores, produtores e instituições públicas.

O Presidente do Conselho de Administração da entidade, Thani Cabir, descreveu o memorando como uma ponte para aproximar capital chinês da capacidade produtiva moçambicana.

A organização compromete-se a apoiar a entrada do investimento, facilitar o relacionamento com produtores e contribuir para a resolução de constrangimentos administrativos.

Cabir sintetizou a ambição da parceria:

“Não queremos apenas investimento. Queremos transferência de conhecimento, criação de empregos para jovens moçambicanos e produção local.”

A concretização deste objectivo será particularmente relevante para determinar o efeito económico da iniciativa.

Uma cadeia baseada essencialmente na exportação de matéria-prima produz um determinado nível de rendimento. A incorporação de processamento, logística, serviços, manutenção, competências técnicas e fornecedores nacionais amplia as actividades económicas associadas ao mesmo produto agrícola.

Memorando Abre Caminho, Execução Definirá a Escala

A assinatura dos acordos constitui o início de um processo cuja dimensão económica ainda não pode ser quantificada.

O investimento total permanece por definir. As unidades industriais ainda não têm localização e capacidade estabelecidas. As variedades terão de ser seleccionadas e multiplicadas, os produtores organizados, o financiamento mobilizado e a estrutura de armazenamento e logística construída.

A própria meta de produtividade terá de ser demonstrada em escala comercial.

O mercado, porém, existe.

A China absorve milhões de toneladas de derivados de mandioca e movimenta perto de US$ 2 mil milhões anuais apenas nas importações de amido, embora actualmente dependa fortemente de cadeias asiáticas consolidadas.

Para Moçambique, a oportunidade económica estará na capacidade de articular produtividade agrícola, mecanização, organização dos produtores, processamento, logística e acesso comercial.

Se esta articulação produzir escala e custos competitivos, a mandioca poderá ganhar maior peso na agro-indústria, criar novas fontes de rendimento rural e acrescentar produtos agrícolas à pauta exportadora.

O indicador decisivo, a partir daqui, será a passagem das metas anunciadas para resultados mensuráveis: hectares efectivamente integrados, rendimento por hectare, produtores contratados, capacidade de processamento instalada, investimento realizado e volumes comercializados.

É nesses números que se poderá observar se o mercado chinês e o salto de produtividade conseguem transformar a mandioca numa cadeia agro-industrial de maior escala em Moçambique.