Minerais Críticos Estão A Redesenhar O Comércio Mundial E A Criar Nova Corrida Geoeconómica

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  • Procura por lítio, grafite, níquel, cobre e terras raras dispara com a transição energética, enquanto países procuram garantir acesso a recursos estratégicos e capturar maior valor industrial.
Questões-Chave:
  • Procura mundial por minerais críticos deverá crescer fortemente até 2040;
  • Lítio poderá registar aumento de procura superior a 350%;
  • Cadeias globais de fornecimento continuam altamente concentradas;
  • China domina o processamento e refinação de vários minerais estratégicos;
  • Quase 100 medidas restritivas de exportação foram introduzidas desde 2020;
  • Acordos internacionais sobre minerais críticos multiplicaram-se desde 2022;
  • Países em desenvolvimento enfrentam simultaneamente oportunidades e riscos.

Uma nova disputa económica global está a ganhar forma. À medida que o mundo acelera a transição energética, expande a mobilidade eléctrica, investe em energias renováveis e reforça a digitalização da economia, os minerais críticos tornaram-se um dos activos mais estratégicos do século XXI.

Segundo a edição de Junho de 2026 do Global Trade Update da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o comércio internacional destes recursos está a transformar profundamente os padrões globais de investimento, produção industrial e relações geoeconómicas.

Lítio, grafite, níquel, cobre, cobalto e terras raras estão no centro desta transformação, por constituírem componentes essenciais para baterias, veículos eléctricos, painéis solares, turbinas eólicas, semicondutores, centros de dados e outras tecnologias que sustentam a economia do futuro.

A Procura Está Apenas A Começar

As projecções apresentadas pela UNCTAD mostram que a procura por minerais críticos deverá crescer de forma expressiva até 2040.

O caso mais impressionante é o do lítio, cuja procura poderá aumentar cerca de 353% relativamente aos níveis actuais. A grafite poderá crescer 131%, enquanto o níquel, as terras raras magnéticas e o cobalto deverão registar aumentos entre 49% e 69%.

O crescimento está directamente associado à expansão das tecnologias limpas.

Segundo a UNCTAD, até 2040 cerca de 87% da procura global de lítio será proveniente de tecnologias ligadas à transição energética, contra 62% actualmente. No caso da grafite, essa participação poderá atingir 52%, reforçando o papel destes recursos na transformação dos sistemas energéticos globais.

A corrida aos minerais críticos tornou-se, assim, inseparável da corrida à descarbonização.

O Problema Não É Apenas A Procura

A principal preocupação dos mercados não reside apenas no crescimento da procura, mas também na elevada concentração da oferta.

Segundo o relatório, a República Democrática do Congo respondeu por 74% da produção mundial de cobalto em 2025. A China produziu 78% da grafite natural global e, juntamente com Austrália e Chile, concentrou mais de 70% da produção mundial de lítio.

A concentração é ainda maior nas actividades de refinação e processamento, onde é capturada grande parte do valor económico.

A China mantém uma posição dominante em várias cadeias de processamento de minerais críticos, enquanto a Indonésia já representa 43% da capacidade mundial de refinação de níquel.

Esta realidade está a gerar preocupações crescentes entre governos e empresas quanto à segurança de abastecimento.

Do Comércio À Geopolítica

O relatório da UNCTAD sublinha que os minerais críticos deixaram de ser apenas uma questão de recursos naturais.

Transformaram-se numa questão de política industrial, comércio internacional e segurança económica.

À medida que os riscos de abastecimento aumentam, diversos países passaram a utilizar instrumentos de política comercial para proteger cadeias de valor estratégicas e estimular o processamento interno.

Desde 2020 foram introduzidas quase 100 novas medidas relacionadas com exportações de minerais críticos, incluindo impostos à exportação, licenças obrigatórias, quotas e proibições de venda para determinados mercados.

República Democrática do Congo, China e Indonésia destacam-se entre os países que mais recorreram a este tipo de instrumentos.

A tendência reflecte uma crescente competição global pelo controlo de recursos considerados essenciais para a próxima revolução tecnológica.

Uma Oportunidade Para Países Como Moçambique

Para os países em desenvolvimento, o novo ciclo de procura por minerais críticos representa uma oportunidade rara de transformação económica.

Contudo, a UNCTAD alerta que os benefícios não são automáticos.

Historicamente, muitas economias ricas em recursos naturais permaneceram concentradas na exportação de matérias-primas, enquanto as actividades de maior valor acrescentado — processamento, manufactura e desenvolvimento tecnológico — foram realizadas noutros mercados.

A instituição defende que a verdadeira oportunidade está em utilizar os recursos minerais como plataforma para industrialização, transferência de tecnologia, desenvolvimento de competências e criação de cadeias de valor locais.

Para países africanos com importantes reservas minerais, esta questão poderá determinar a diferença entre uma nova fase de desenvolvimento industrial ou a repetição dos modelos tradicionais de exportação de recursos em estado bruto.

Parcerias Multiplicam-Se Em Todo O Mundo

Outro fenómeno identificado pela UNCTAD é a rápida expansão das parcerias internacionais em torno dos minerais críticos.

O relatório contabiliza 73 acordos e instrumentos de cooperação celebrados desde 2007, dos quais 58 foram assinados apenas após 2022.

Estas parcerias abrangem cada vez mais toda a cadeia de valor, desde a prospecção e extracção até à refinação, manufactura e reciclagem.

O movimento demonstra que os minerais críticos passaram a ocupar um papel semelhante ao que o petróleo desempenhou durante grande parte do século XX.

O Desafio Da Próxima Década

A UNCTAD considera que os próximos anos serão decisivos.

À medida que mais países procuram garantir acesso a estes recursos estratégicos, aumenta o risco de fragmentação do comércio internacional através da proliferação de acordos paralelos, restrições comerciais e disputas geoeconómicas.

Por outro lado, uma abordagem mais coordenada poderá facilitar investimentos, reduzir custos e acelerar a transição energética global.

A questão central colocada pelo relatório é particularmente relevante para os países produtores: os minerais críticos serão apenas mais uma commodity exportada ou tornar-se-ão a base para uma nova fase de industrialização e criação de valor?

A resposta a essa pergunta poderá definir parte significativa da geografia económica mundial nas próximas décadas.