Petróleo Recua Para Mínimo De Uma Semana, Mas Hormuz Mantém Prémio De Risco

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  • A suspensão dos ataques norte-americanos contra o Irão e os sinais de diálogo retiraram parte do prémio geopolítico acumulado no preço do crude. A descida permanece, porém, limitada pela forte redução dos fluxos através do Estreito de Hormuz, pelos ataques contra infra-estruturas sauditas e pelo risco de a instabilidade alcançar simultaneamente o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho.

Questões-Chave

  • O Brent e o West Texas Intermediate recuaram pela terceira sessão consecutiva, depois de terem perdido cerca de 8% na segunda-feira.
  • O Brent era negociado inicialmente a US$87,86 por barril e o WTI a US$82,24, com as perdas a aprofundarem-se mais tarde na sessão.
  • A suspensão dos ataques norte-americanos e as conversações com o Irão reduziram o receio de uma escalada militar imediata.
  • As exportações líquidas de crude e produtos refinados através de Hormuz caíram de 5,9 milhões para 2,9 milhões de barris por dia na semana terminada a 24 de Julho.
  • O enfraquecimento da procura, especialmente na Ásia, está a limitar a subida dos preços apesar das restrições à oferta.
  • A retoma das operações no terminal russo do Caspian Pipeline Consortium acrescentou algum alívio à disponibilidade de crude.
  • Uma reabertura efectiva de Hormuz poderia aproximar o Brent de US$80, enquanto o fracasso das negociações manteria o mercado exposto a uma nova subida abrupta.

Os preços do petróleo recuaram esta terça-feira, 28 de Julho, para perto dos níveis mais baixos de uma semana, à medida que a suspensão temporária dos ataques dos Estados Unidos contra o Irão alimentou a expectativa de uma solução diplomática para o conflito.

Os futuros do Brent caíram inicialmente 0,57%, para US$87,86 por barril, enquanto o West Texas Intermediate, referência norte-americana, perdeu 0,45%, para US$82,24. Ambos os contratos seguiam em queda pela terceira sessão consecutiva, depois de terem recuado aproximadamente 8% na segunda-feira.

As perdas aprofundaram-se no decurso da sessão. O Brent chegou a negociar próximo de US$85,83 por barril e o WTI em torno de US$80,63, reflectindo uma redução adicional do prémio de risco associado ao conflito. 

A descida não significa, contudo, que o risco de abastecimento tenha desaparecido. O mercado está a distinguir entre uma pausa militar, que reduz o receio imediato, e uma normalização efectiva dos fluxos energéticos, que ainda não ocorreu.

Sinais Diplomáticos Retiram Parte Do Prémio De Guerra

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Washington estava a manter “boas conversações” com o Irão e que existia a possibilidade de alcançar uma solução para o conflito.

Trump advertiu, porém, que os ataques norte-americanos poderiam ser retomados caso as negociações falhassem. O Irão também manteve a possibilidade de responder militarmente a novas operações.

O mercado reagiu sobretudo à perspectiva de que tenha sido encontrada uma saída temporária para interromper a escalada. A suspensão dos ataques reduz, no curto prazo, a probabilidade de destruição adicional de infra-estruturas, bloqueio total das rotas marítimas ou envolvimento directo de outros países produtores.

Tony Sycamore, analista da IG, considerou que o possível surgimento de uma via de saída retirou intensidade aos preços e reduziu os receios relacionados com ataques dos Houthis contra infra-estruturas sauditas. Sublinhou, contudo, que a situação permanece altamente fluida.

Esta distinção é determinante. Os preços incorporam não apenas o petróleo que está a ser produzido e transportado, mas também uma compensação pelo risco de futuras interrupções. Quando cresce a expectativa de acordo, essa compensação diminui rapidamente, mesmo antes de os fluxos físicos regressarem ao normal.

Hormuz Continua Longe Da Normalização

O Estreito de Hormuz permanece como o principal ponto de vulnerabilidade do mercado.

Na semana terminada a 24 de Julho, as exportações líquidas de petróleo bruto e produtos refinados através da passagem marítima atingiram apenas 2,9 milhões de barris por dia, contra 5,9 milhões na semana anterior, segundo estimativas do Barclays citadas pela Reuters. A redução foi superior a 50%.

Mesmo o volume da semana anterior já se encontrava muito abaixo dos níveis normalmente associados à rota.

A Agência Internacional de Energia estima que cerca de 20 milhões de barris por dia atravessam Hormuz em condições normais, equivalentes a aproximadamente 25% do comércio marítimo mundial de petróleo. Cerca de 80% destes carregamentos têm como destino a Ásia. 

A dimensão da rota explica por que razão uma pausa nos ataques não é suficiente para retirar completamente o prémio geopolítico.

Armadores, seguradoras, tripulações e compradores precisam de avaliar se as embarcações podem transitar com segurança, se os custos de seguro regressarão a níveis normais e se existe risco de apreensão, ataque ou bloqueio.

A capacidade de desviar crude através de oleodutos é limitada. A Agência Internacional de Energia estima que apenas 3,5 milhões a 5,5 milhões de barris por dia podem ser redireccionados por rotas que evitam Hormuz, uma fracção do volume normalmente transportado pelo estreito. 

Preço Reflecte Simultaneamente Escassez E Destruição Da Procura

A queda do crude, apesar da forte redução dos fluxos, revela que o mercado também está a considerar o enfraquecimento da procura.

Edward Meir, analista da Marex, considera que uma das principais razões pelas quais os preços não subiram ainda mais é a destruição da procura, particularmente na Ásia.

A expressão “destruição da procura” descreve uma situação em que os preços elevados, a escassez física ou a desaceleração económica levam consumidores e empresas a reduzir o consumo.

Companhias aéreas podem diminuir frequências, transportadores ajustam operações, indústrias substituem combustíveis ou reduzem produção e famílias limitam deslocações. O efeito acumulado modera a procura e estabelece um limite para a subida do petróleo.

A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos estima que o consumo mundial de petróleo poderá diminuir, em média, 1,2 milhão de barris por dia em 2026. Cerca de 800 mil barris diários dessa redução deverão ocorrer nas economias não pertencentes à OCDE, incluindo os mercados asiáticos mais afectados pelas perturbações em Hormuz. 

O mercado encontra-se, assim, num equilíbrio incomum: a oferta está restringida pelas rotas marítimas, mas o consumo também está a cair devido aos preços, às dificuldades de abastecimento e ao enfraquecimento de algumas economias importadoras.

Inventários Baixos Limitam Espaço Para Queda Prolongada

A expectativa de menor procura ajuda a conter os preços, mas os níveis de inventários continuam a representar um risco.

A Administração de Informação de Energia projecta que os inventários comerciais de petróleo nas economias da OCDE poderão cair para menos de 2,3 mil milhões de barris até Dezembro de 2026, o nível mais baixo desde o início da sua série estatística, em 2003. 

Inventários reduzidos diminuem a capacidade do mercado para absorver novos choques.

Quando existem reservas comerciais elevadas, refinarias e distribuidores podem utilizar os stocks para compensar uma interrupção temporária. Quando esses stocks estão próximos de mínimos históricos, qualquer novo ataque, bloqueio ou atraso pode produzir uma reacção mais forte nos preços.

Esta realidade explica por que razão o petróleo pode cair rapidamente perante notícias diplomáticas e voltar a subir com igual velocidade quando surgem sinais de deterioração da segurança.

O Financial Times observa que a estratégia de Donald Trump de utilizar declarações públicas optimistas tem conseguido reduzir temporariamente os preços. Mas o jornal adverte que o efeito da comunicação tende a enfraquecer quando os fluxos físicos permanecem limitados e os inventários continuam a diminuir. 

Mar Vermelho Mantém Um Segundo Foco De Instabilidade

A crise não está limitada ao Golfo Pérsico.

Os Houthis, aliados do Irão no Yemen, procuraram aumentar a sua influência sobre o transporte marítimo no Estreito de Bab el-Mandeb, uma passagem fundamental entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden.

Afrah al-Zouba, indicada para a pasta dos Negócios Estrangeiros do Governo iemenita reconhecido internacionalmente, afirmou que os Houthis pretendem reproduzir em Bab el-Mandeb a capacidade de controlo exercida pelo Irão sobre a navegação em Hormuz.

Embora existam dúvidas sobre a capacidade militar do movimento para impor um bloqueio completo, o tráfego marítimo diminuiu significativamente no Mar Vermelho e em Hormuz.

A Arábia Saudita anunciou ter abatido drones dirigidos contra alvos petrolíferos, incluindo instalações na região de Riade. Segundo as autoridades sauditas, os aparelhos terão sido lançados por grupos armados apoiados pelo Irão a partir do Iraque.

Os Houthis afirmaram igualmente ter atacado o oleoduto Leste–Oeste, que transporta petróleo para o porto saudita de Yanbu, no Mar Vermelho.

O risco de perturbações simultâneas em Hormuz e Bab el-Mandeb teria implicações particularmente graves. As duas passagens ligam os principais produtores do Médio Oriente aos consumidores asiáticos e europeus e condicionam as alternativas disponíveis para redireccionar carregamentos.

Retoma Do CPC Acrescenta Oferta Ao Mercado Atlântico

A descida do crude também foi favorecida pela retoma das operações no terminal do Caspian Pipeline Consortium, CPC, na costa russa do Mar Negro.

O terminal suspendeu carregamentos durante aproximadamente uma semana depois de ataques com drones contra navios e instalações utilizadas para exportar petróleo do Cazaquistão e de outros produtores ligados ao consórcio.

O CPC confirmou que os carregamentos foram retomados na noite de 19 de Julho, depois dos ataques contra navios civis nas águas do terminal. 

A recuperação das operações acrescenta barris ao mercado do Atlântico e reduz parcialmente a percepção de escassez criada pelas dificuldades no Médio Oriente.

O efeito é, porém, limitado pela persistência dos riscos de segurança no Mar Negro. A simples reabertura de um terminal não garante que os carregamentos permaneçam regulares caso os ataques sejam retomados.

Stocks Norte-Americanos Podem Travar A Correcção

Os investidores aguardam também os dados semanais dos inventários nos Estados Unidos.

Uma sondagem preliminar da Reuters indicava que as reservas norte-americanas de crude e gasolina provavelmente diminuíram na semana anterior, enquanto os stocks de destilados poderão ter aumentado.

Uma redução maior do que a esperada nos inventários de crude e gasolina poderia sustentar os preços, por indicar procura interna mais firme ou menor disponibilidade.

Em contrapartida, um aumento inesperado dos stocks reforçaria a leitura de que a procura está a enfraquecer e poderia prolongar a descida.

Os destilados, que incluem gasóleo e combustível de aviação, merecem particular atenção devido à sua importância para transportes, indústria, agricultura e comércio internacional.

US$80 Torna-Se Referência Para Um Cenário De Reabertura

O próximo movimento do petróleo será determinado pela diferença entre uma pausa política e uma normalização física.

Caso as conversações entre Washington e Teerão conduzam a um acordo verificável, os fluxos através de Hormuz aumentem e os custos dos seguros marítimos diminuam, o Brent poderá aproximar-se dos US$80 por barril, segundo estimativas do Goldman Sachs citadas pela Reuters. 

O banco já tinha considerado que a recuperação das exportações da região e a acumulação de oferta poderiam conduzir o Brent para uma faixa próxima de US$70 a US$75 numa fase posterior, desde que a abertura de Hormuz se consolidasse e não surgissem novos choques. 

Este cenário requer mais do que declarações diplomáticas. Exige aumento comprovado do número de navios, recuperação dos volumes exportados, redução das ameaças contra infra-estruturas e confiança dos armadores.

Caso as negociações fracassem e os Estados Unidos retomem os ataques, o mercado poderá rapidamente devolver aos preços o prémio de risco retirado nas últimas sessões.

Para Moçambique, Queda Pode Aliviar Inflação E Custos De Transporte

A evolução do petróleo possui implicações directas para economias importadoras de combustíveis, como Moçambique.

Uma redução sustentada das cotações internacionais pode diminuir o custo de importação de combustíveis, limitar pressões sobre os preços domésticos, aliviar os custos dos transportadores e reduzir a necessidade de compensações públicas destinadas a conter as tarifas.

Uma nova subida produziria o efeito inverso: maior necessidade de divisas, aumento dos custos de transporte e produção e novas pressões sobre preços, subsídios ou tarifas.

O Banco de Moçambique advertiu, em Maio, que os riscos para a inflação tinham aumentado devido à incerteza sobre a duração do conflito no Médio Oriente e aos seus efeitos sobre as cadeias internacionais de abastecimento. 

A descida desta semana pode oferecer algum alívio, mas ainda não representa uma alteração estrutural do risco. Enquanto os fluxos através de Hormuz permanecerem reduzidos, a factura energética continuará vulnerável a mudanças diplomáticas ou militares repentinas.

Mercado Ainda Não Precifica Paz Duradoura

A queda acumulada ao longo das últimas sessões mostra que os investidores estão dispostos a retirar rapidamente parte do prémio geopolítico quando surgem sinais de diálogo.

Mas os preços permanecem acima dos níveis que seriam compatíveis com uma recuperação completa da oferta e das rotas marítimas.

Hormuz continua a operar muito abaixo da capacidade habitual, Bab el-Mandeb permanece exposto aos Houthis, instalações sauditas continuam a ser alvo de ataques e os inventários globais oferecem uma margem reduzida para absorver novas interrupções.

O mercado está, por isso, a precificar uma pausa, não uma paz definitiva.

A trajectória do Brent e do WTI dependerá agora de sinais concretos: aumento do tráfego marítimo, recuperação das exportações, diminuição dos ataques e transformação das conversações entre os Estados Unidos e o Irão num acordo capaz de sobreviver às tensões militares.

Até que essas condições estejam reunidas, o petróleo poderá permanecer abaixo dos máximos recentes, mas continuará sujeito a oscilações acentuadas entre a esperança diplomática e o risco físico de escassez.