
Mercado Privado Cresce Na BVM, Mas Estado Ainda Absorve 83% Do Financiamento
- Campanha de registo começa a produzir resultados e aumenta a negociação de acções e obrigações, mas a Bolsa continua com apenas 11 empresas cotadas, nenhum banco comercial e mais de 100 sociedades anónimas fora da Central de Valores Mobiliários.
- BVM já canalizou 413.058 milhões de meticais através do mercado de capitais, equivalentes a cerca de US$ 6,4 mil milhões;
- Estado recebeu 343.478 milhões de meticais, correspondentes a 83,2% do financiamento acumulado;
- Empresas mobilizaram 69.580 milhões de meticais, mais 17,4% comparativamente a Junho de 2025;
- Negociação de obrigações corporativas cresceu 175,7% e a de acções aumentou cerca de 257%;
- Doze novas sociedades emitentes registaram as suas acções na CVM entre Março e Maio de 2026;
- Mais de 100 sociedades anónimas continuam sem registar as respectivas acções;
- MECTS poderá tornar-se a primeira PPP cotada, 15 anos depois da aprovação da lei;
- BCI e Standard Bank poderão abrir o mercado bolsista aos bancos comerciais;
- Cumprimento da lei, entrada de grandes empresas e diversificação dos instrumentos permanecem como principais desafios;
A Bolsa de Valores de Moçambique começou a obter resultados na campanha destinada a registar mais sociedades e aumentar a participação empresarial no mercado de capitais. A negociação de acções e obrigações corporativas cresceu no primeiro semestre de 2026 e 12 novas sociedades emitentes entraram na Central de Valores Mobiliários em apenas três meses.
Os avanços ainda não alteraram, porém, a estrutura central do mercado. O Estado continua a absorver 83,2% do financiamento acumulado através da BVM, enquanto a Bolsa possui somente 11 empresas com acções cotadas, nenhum banco comercial e mais de 100 sociedades anónimas ainda sem registo na Central de Valores Mobiliários.
Os dados foram apresentados pelo presidente do Conselho de Administração da BVM, Pedro Frederico Cossa, durante a 22.ª edição do Economic Briefing, realizada a 11 de Setembro, em Maputo.
A BVM apresentou o mercado de capitais como alternativa ao crédito bancário, num contexto em que a Prime Rate se mantém em 15,50%, antes da aplicação dos spreads de risco definidos pelas instituições financeiras.
“A Bolsa não é um espaço reservado apenas às grandes empresas. É um instrumento de política económica do Governo ao serviço de todo o tecido empresarial nacional”, afirmou Pedro Cossa.
Bolsa Canalizou 413 Mil Milhões De Meticais
O financiamento acumulado através da BVM atingiu 413.058 milhões de meticais até Junho de 2026, o equivalente a aproximadamente US$ 6,4 mil milhões.
Deste valor, o Estado mobilizou 343.478 milhões de meticais e as empresas captaram 69.580 milhões. Significa que os títulos públicos representam 83,2% do financiamento acumulado, enquanto o sector empresarial recebeu 16,8%.
A dimensão do mercado mostra que existe capacidade interna para mobilizar recursos financeiros. A sua utilização permanece, contudo, concentrada no financiamento público.
Para a BVM, o problema central não é a ausência de poupança ou de investidores interessados, mas a reduzida oferta de empresas preparadas para emitir títulos.
“Existe poupança nacional disponível e disposta a financiar a economia moçambicana. O que falta, em muitos casos, não é procura de investimento, é oferta de bons activos, é a oferta das vossas empresas”, declarou o PCA.
A passagem de um mercado concentrado em dívida pública para uma plataforma mais ampla de financiamento empresarial exige novas emissões de obrigações, papel comercial e acções.
Empresas Mobilizaram 69,6 Mil Milhões De Meticais
O financiamento acumulado às empresas atingiu 69.580 milhões de meticais em Junho de 2026, representando um crescimento de 17,4% em comparação com o período homólogo.
Este montante corresponde ao capital captado pelas empresas através da Bolsa ao longo do tempo e não ao volume negociado durante o primeiro semestre.
A distinção é importante. O financiamento mede os recursos mobilizados através da emissão dos títulos, enquanto o volume de negócios representa as transacções realizadas entre investidores no mercado.
No primeiro semestre de 2026, o valor negociado nos instrumentos do sector privado aumentou de 209,4 milhões para 596,5 milhões de meticais.
Apesar do crescimento, a dimensão das transacções privadas permanece reduzida quando comparada com os 413.058 milhões de meticais de financiamento acumulado no mercado.
Obrigações Corporativas Lideram Negociação Privada
As obrigações corporativas foram o principal segmento do mercado privado, com um valor negociado de 488,3 milhões de meticais no primeiro semestre de 2026.
O montante representa um crescimento de 175,7% comparativamente aos 177,1 milhões registados no período homólogo e corresponde a 81,9% da negociação privada.
As acções movimentaram 108,2 milhões de meticais, contra 30,3 milhões no primeiro semestre de 2025, uma expansão próxima de 257%.
O papel comercial, destinado sobretudo ao financiamento empresarial de curto prazo, não registou transacções. No período homólogo tinha movimentado dois milhões de meticais.
A evolução mostra maior actividade nas obrigações e acções, mas também uma utilização desigual dos instrumentos disponíveis. A ausência de operações em papel comercial limita as opções para empresas que procuram financiar tesouraria e capital circulante.
Capitalização Cresce Em Termos Homólogos, Mas Recua No Semestre
A capitalização bolsista situou-se em 217.214 milhões de meticais em Junho de 2026, representando um crescimento de 8,4% face aos 200.311 milhões observados um ano antes.
O valor corresponde a 19,69% do Produto Interno Bruto, acima dos 18,15% registados em Junho de 2025.
A comparação com Dezembro apresenta uma evolução diferente. No final de 2025, a capitalização atingia 221.993 milhões de meticais e representava 20,12% do PIB. Durante o primeiro semestre de 2026, o mercado perdeu 2,2% do seu valor.
A leitura combinada indica que a Bolsa permanece acima do nível homólogo, mas encerrou os primeiros seis meses do ano abaixo do valor alcançado em Dezembro.
Desde 1999, foram admitidos à cotação 351 títulos. Destes, 85 permaneciam no mercado em Junho de 2026. A BVM contava com 11 empresas com acções cotadas e 23 emitentes de dívida corporativa.
Todas As Acções Referidas Pela BVM Valorizaram
As empresas analisadas pela BVM registaram valorização das respectivas acções durante o primeiro semestre.
A Cervejas de Moçambique apresentou o maior ganho, de 48,3%, seguida pela Tropigalia, com 8%. As acções da Hidroeléctrica de Cahora Bassa valorizaram 6,9%, as da Companhia Moçambicana de Hidrocarbonetos 6,6% e as da Empresa Moçambicana de Seguros 0,9%.
Segundo Pedro Cossa, algumas destas valorizações superaram a remuneração oferecida pelos depósitos a prazo.
A comparação deve considerar que os dois instrumentos possuem perfis distintos. Os depósitos oferecem uma remuneração previamente definida, enquanto as acções podem valorizar ou perder valor consoante o desempenho da empresa, a procura dos investidores e as condições do mercado.
A valorização das empresas cotadas constitui um sinal favorável, mas não substitui a necessidade de aumentar a liquidez. Um mercado com poucas transacções pode apresentar variações relevantes de preço sem possuir o volume necessário para a entrada e saída regular de investidores.
Doze Empresas Registadas Em Três Meses
O resultado mais visível da campanha iniciada pelo Governo e pela BVM ocorreu na Central de Valores Mobiliários.
Entre Março e Maio de 2026, foram registadas 12 novas sociedades emitentes de acções. O número corresponde a mais de 10% das 110 empresas que tinham sido registadas desde a criação da Central, em 2014, até ao final de 2025.
A evolução ganhou velocidade ao longo do ano. Entre Janeiro e Fevereiro de 2026 tinham sido registadas cinco empresas, enquanto no período de Janeiro a Maio de 2025 apenas uma sociedade efectuara o registo.
A Central de Valores Mobiliários possuía 398 títulos em Junho, mais 21,3% do que no período homólogo. O número de titulares aumentou 6,6%, para 28.395.
O registo permite identificar a titularidade do capital, acompanhar transferências entre accionistas, criar uma base para a tributação de mais-valias e melhorar a prevenção do branqueamento de capitais e do financiamento ao terrorismo.
Apesar do crescimento, mais de 100 sociedades anónimas continuam sem registar as acções e os respectivos accionistas.
Campanha Resulta De Decisões Do Governo
A aceleração dos registos ocorreu depois de uma sequência de decisões tomadas entre Janeiro e Julho de 2026.
A 29 de Janeiro, durante a segunda reunião de preparação do Conselho de Ministros, a Primeira-Ministra orientou os ministérios a divulgarem, nos respectivos Conselhos Consultivos, as obrigações previstas na Lei das PPP, Projectos de Grande Dimensão e Concessões Empresariais.
A orientação foi alargada às empresas do Sector Empresarial do Estado e às entidades consideradas de relevância económica.
No dia seguinte, a BVM iniciou a apresentação do tema nos Conselhos Consultivos sectoriais. O levantamento realizado indicou que nenhuma das empresas inicialmente identificadas cumpria integralmente os imperativos legais.
A 10 de Fevereiro, o Conselho de Ministros incumbiu a ministra das Finanças de acompanhar a matriz de implementação, propor instrumentos legais para a cotação de sectores relevantes, em coordenação com o Banco de Moçambique, e apresentar informação trimestral sobre os resultados.
Entre Fevereiro e Junho, foram enviados ofícios a 17 ministérios, ao Instituto de Gestão das Participações do Estado e às províncias. A BVM também realizou acções de divulgação em nove províncias e trabalhou com reguladores, bancos, seguradoras, operadores de Bolsa e organizações da sociedade civil.
A 7 de Julho, o Conselho de Ministros voltou a apreciar a matéria e recebeu uma matriz de acções com entidades responsáveis, prazos e objectivos.
Universo Identificado Ultrapassa 487 Empresas
O universo de empresas abrangidas pelo processo aumentou de 372 para mais de 487, à medida que os ministérios, reguladores, províncias e entidades do Estado aprofundaram o levantamento.
A matriz submetida ao Conselho de Ministros prevê o registo das acções das sociedades anónimas, a identificação de empresas para admissão à Bolsa e a preparação de propostas legais destinadas a sectores de elevada relevância económica.
A proposta inclui também medidas para impedir que empresas alterem o tipo societário com o objectivo de evitar o registo na Central de Valores Mobiliários.
Outra componente é a revisão do quadro sancionatório. A BVM considera que a falta de consequências perante o incumprimento contribuiu para que obrigações existentes há mais de uma década permanecessem sem aplicação.
O prazo de três anos referido na documentação destina-se à conclusão do processo. As primeiras medidas deverão ser executadas imediatamente.
MECTS Poderá Ser Primeira PPP Cotada
A sociedade MECTS registou as suas acções na Central de Valores Mobiliários e submeteu, a 26 de Junho, o pedido de admissão à cotação na BVM.
A empresa poderá tornar-se a primeira parceria público-privada cotada ao abrigo da Lei n.º 15/2011, 15 anos depois da aprovação do diploma.
A operação permitirá avaliar se a campanha de registo consegue avançar para a fase seguinte: a dispersão efectiva de capital e a negociação das acções em Bolsa.
O aumento dos registos constitui um avanço administrativo e jurídico, mas não significa automaticamente maior financiamento empresarial. Para produzir esse efeito, as empresas terão de realizar emissões, dispersar capital ou admitir os títulos à negociação.
A eficácia da campanha será, por isso, determinada pelo número de sociedades que transitarem do registo para a cotação e pela capacidade de mobilizarem recursos junto dos investidores.
BCI E Standard Bank Podem Abrir Bolsa Aos Bancos
O sector bancário representa outra possibilidade de expansão do mercado. Actualmente, a BVM possui duas seguradoras cotadas, mas nenhum banco comercial.
A Caixa Geral de Depósitos, accionista maioritária do BCI, manifestou publicamente disponibilidade para cotar a instituição. O PCA da BVM mencionou igualmente o Standard Bank entre os bancos que poderão avançar para o mercado.
A entrada de uma instituição bancária teria um efeito importante sobre a dimensão, diversidade e visibilidade da Bolsa. Os bancos possuem uma base alargada de clientes, activos relevantes e resultados acompanhados regularmente pelo mercado.
Uma cotação exigiria divulgação pública de informação financeira, prestação de contas aos accionistas e cumprimento das regras do mercado de valores mobiliários.
O interesse manifestado ainda precisa de se transformar numa operação concreta. Será necessário definir a parcela do capital a dispersar, a avaliação do banco, o calendário e as autorizações regulatórias.
Lei Das PPP Permaneceu Sem Aplicação Efectiva
A Lei n.º 15/2011, de 10 de Agosto, determina que as PPP, os projectos de grande dimensão e as concessões empresariais dispersem entre 5% e 20% do capital social através do mercado bolsista, preferencialmente a favor de pessoas singulares moçambicanas.
O Decreto n.º 16/2012 regulamentou a lei, mas a obrigação permaneceu sem execução efectiva durante vários anos.
O Decreto n.º 25/2006 torna obrigatório o registo das emissões de valores mobiliários e dos respectivos titulares na Central de Valores Mobiliários.
As novas leis de Minas e Petróleos, publicadas a 3 de Junho de 2026, também introduzem exigências relacionadas com a participação nacional e a inscrição das empresas no mercado bolsista.
O enquadramento jurídico existe. Os obstáculos localizam-se na identificação das empresas abrangidas, monitoria, fiscalização, capacidade técnica dos emitentes e aplicação de consequências perante o incumprimento.
CDM, CMH E HCB Distribuíram 1,85 Mil Milhões De Meticais
A BVM apresenta a Cervejas de Moçambique, a Companhia Moçambicana de Hidrocarbonetos e a Hidroeléctrica de Cahora Bassa como exemplos dos efeitos da dispersão de capital.
A CDM realizou uma oferta pública de 28% em 2001 e passou de dois para 3.028 accionistas. Em 2025, distribuiu 1.292 milhões de meticais em dividendos.
A CMH dispersou 10% do capital em 2008 e passou de dois para 1.541 accionistas. Os dividendos distribuídos em 2025 atingiram 249 milhões de meticais.
A HCB colocou 4% do capital em Bolsa em 2019 e passou de menos de cinco accionistas para 17.102. A empresa distribuiu 307 milhões de meticais em dividendos durante 2025.
Em conjunto, as três empresas possuem mais de 21.600 accionistas moçambicanos e distribuíram aproximadamente 1,85 mil milhões de meticais em dividendos num único ano.
Os dados mostram que a dispersão pode transformar a poupança das famílias em participação no capital empresarial e rendimento através de dividendos. O acesso permanece condicionado pela disponibilidade de empresas, pela capacidade financeira dos investidores e pela liquidez das acções.
Resultados Iniciais Ainda Não Mudam Estrutura Do Mercado
A abordagem da BVM produziu resultados mensuráveis no registo de sociedades, na negociação de obrigações corporativas e no valor transaccionado em acções.
A passagem de uma para 12 novas sociedades registadas em períodos comparáveis mostra que as decisões do Governo e as acções realizadas junto das empresas alteraram o ritmo de adesão à Central de Valores Mobiliários.
Esse avanço permanece concentrado na etapa inicial. O mercado continua com 11 empresas cotadas, nenhum banco comercial e uma utilização praticamente inexistente do papel comercial. A dívida pública mantém a maior parcela do financiamento mobilizado.
Os próximos resultados terão de ser observados no número de empresas efectivamente admitidas à cotação, no volume de novas emissões, na diversificação sectorial e na parcela do financiamento destinada ao investimento privado.
A MECTS, o BCI e o Standard Bank constituem operações com potencial para mostrar se a campanha consegue passar dos registos para uma expansão efectiva do mercado.
A despeito de lograr aumento da adesão administrativo, BVM enfrenta o desafio de converter esse movimento em activos negociáveis, financiamento empresarial e maior participação dos investidores nacionais no capital das empresas.
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