
Moçambique E Angola Avançam Com Cabo Nacala-Lobito Para Reforçar Corredor Digital Regional
- Memorando entre os dois países abre caminho ao estabelecimento de uma ligação submarina entre Nacala e Lobito, num projecto ainda em fase de concessão. Governo associa a iniciativa a uma agenda mais ampla de conectividade, expansão de redes, satélites, 5G, inclusão digital e modernização do Estado.
Questões-Chave
- Moçambique e Angola assinaram um memorando de entendimento para o estabelecimento de um cabo submarino entre Nacala e Lobito.
- O projecto, em fase de concessão, pretende ampliar a capacidade internacional de ligação à internet, reduzir custos de comunicações e reforçar a posição regional de Moçambique.
- O Presidente da República defendeu que a conectividade deve produzir benefícios concretos para a educação, saúde, agricultura, comércio, serviços financeiros e criação de emprego.
- O Governo refere investimentos de 20 milhões de dólares na conectividade escolar, a implementação de 60 estações de telefonia e a expansão do acesso a mais de 300 localidades.
- A União Internacional das Telecomunicações e a União Africana das Telecomunicações destacaram a necessidade de uma transformação digital inclusiva, centrada nas pessoas, na juventude e na resiliência das redes.
Moçambique e Angola deram um passo relevante para reforçar a integração digital regional, com a assinatura de um memorando de entendimento destinado a viabilizar o estabelecimento de um cabo submarino entre Nacala e Lobito. A iniciativa, anunciada no âmbito da V Conferência Nacional das Comunicações, procura aumentar a capacidade de ligação internacional à internet, reduzir os custos de comunicação e posicionar Moçambique como um corredor digital de maior relevância na região.
O entendimento foi formalizado pelos ministros responsáveis pelas Comunicações e Transformação Digital de Moçambique, Américo Muchanga, e das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social de Angola, Mário Oliveira. Segundo informação divulgada durante a conferência e reportada pelo Jornal Notícias, o projecto encontra-se na fase de concessão, abrindo caminho para uma ligação de elevada importância estratégica entre a costa norte de Moçambique e o porto angolano do Lobito.
Mais do que uma nova infra-estrutura de telecomunicações, o cabo Nacala-Lobito representa uma aposta na criação de maior redundância, capacidade e competitividade para os serviços digitais. Caso se concretize nos termos anunciados, poderá reforçar a conectividade internacional, diversificar rotas de tráfego de dados e criar melhores condições para empresas, instituições públicas, operadores e utilizadores finais acederem a serviços digitais com maior qualidade e menores custos.
Conectividade Como Plataforma De Desenvolvimento
Na abertura da V Conferência Nacional das Comunicações, o Presidente da República, Daniel Chapo, enquadrou a iniciativa numa visão mais ampla de transformação económica e social. Para o Chefe do Estado, os investimentos em comunicações e digitalização devem traduzir-se em resultados concretos para a população, reforçando o acesso a serviços públicos, conhecimento, oportunidades de negócio e emprego.
“Queremos que estes investimentos se traduzam em benefícios concretos para os povos, que a conectividade e transformação digital estejam plenamente ao serviço do desenvolvimento”, afirmou Daniel Chapo, citado pelo Jornal Notícias. O Presidente apontou, entre as áreas prioritárias, a educação, saúde, agricultura, comércio, serviços financeiros, capacitação da juventude e a geração de soluções para os desafios nacionais.
A mensagem é relevante num país onde a extensão territorial, as assimetrias regionais e os custos de acesso continuam a limitar uma apropriação mais ampla das tecnologias digitais. A expansão da conectividade não é, por isso, apenas uma questão de velocidade ou cobertura de rede: é também uma condição para melhorar a prestação de serviços públicos, reduzir distâncias, facilitar transacções económicas e aumentar a participação de cidadãos e empresas na economia digital.
Satélites, Escolas E Redes Rurais Na Agenda
Daniel Chapo referiu igualmente que decorre no país o licenciamento de operadores de satélite, uma medida considerada fundamental para assegurar conectividade em zonas remotas e de difícil acesso. A utilização de soluções de satélite poderá complementar as redes terrestres, especialmente em comunidades onde a expansão convencional de fibra óptica ou de infra-estruturas móveis enfrenta limitações técnicas e financeiras.
A agenda anunciada inclui ainda a implementação de 60 estações de telefonia e a extensão do acesso às comunicações para mais de 300 localidades. Em paralelo, estão a ser investidos 20 milhões de dólares na conectividade escolar, numa iniciativa que poderá reforçar o acesso de alunos, professores e instituições de ensino a conteúdos, plataformas e ferramentas de aprendizagem digital.
O Presidente da República destacou também a consignação do espectro para a tecnologia 5G como um passo estratégico para a modernização das comunicações. A disponibilização de frequências constitui uma etapa essencial para a expansão de redes de nova geração, com potencial para suportar maior velocidade, menor latência e aplicações mais exigentes em sectores como indústria, logística, saúde, educação, serviços financeiros e administração pública.
“Queremos que na próxima década sejamos reconhecidos como uma das economias digitais mais dinâmicas do continente”, afirmou Daniel Chapo. “Queremos ser um ‘hub’ energético, logístico e digital da região, pois temos energia para sustentar a inovação, transformação digital, ‘datacenters’, talento, juventude, visão, parceiros e determinação.”
Regulação Terá De Acompanhar Velocidade Da Mudança
A Presidente do Conselho de Administração da Autoridade Reguladora das Comunicações de Moçambique, Helena Fernandes, defendeu que o fortalecimento do sector das comunicações deve ser entendido como uma base essencial para a transformação digital, a inclusão social e o desenvolvimento económico do país.
Segundo a responsável, a rápida evolução tecnológica exige uma regulação capaz de antecipar tendências, criar condições para a inovação, promover concorrência saudável e assegurar a protecção dos consumidores. A prioridade, sublinhou, passa também por expandir a conectividade universal, com atenção especial às zonas rurais, e reforçar a resiliência das infra-estruturas e dos serviços de comunicação.
“Nunca antes como hoje as comunicações estiveram tão profundamente ligadas ao desenvolvimento económico, à inclusão social e à competitividade das nações”, afirmou Helena Fernandes, durante a conferência.
A dirigente considerou que o encontro constitui uma plataforma de diálogo e de partilha de conhecimento para encontrar soluções destinadas ao desenvolvimento das telecomunicações, dos serviços postais e da radiodifusão. A presença de reguladores, operadores, académicos, especialistas e parceiros de cooperação permite, segundo a INCM, discutir os desafios de conectividade, inclusão e resiliência que moldarão o futuro do ecossistema digital moçambicano.
Parceiros Internacionais Validam Ambição Digital
A dimensão internacional da conferência foi reforçada pela participação da Secretária-Geral da União Internacional das Telecomunicações, Doreen Bogdan-Martin, do Secretário-Geral da União Africana das Telecomunicações, John Omo, e da Secretária-Geral da Organização das Telecomunicações da Commonwealth, Bernadette Lewis.
Doreen Bogdan-Martin considerou que Moçambique está a criar bases importantes para uma transformação digital inclusiva, destacando a ligação histórica entre o país e a União Internacional das Telecomunicações, iniciada em 1975. A dirigente sublinhou que a estratégia digital moçambicana demonstra uma visão de futuro que coloca as pessoas, e em particular os jovens, no centro das políticas tecnológicas.
“No coração da transformação digital do país temos o povo, especialmente os jovens”, afirmou. Para a responsável, os investimentos digitais devem gerar competências, oportunidades e capacidade efectiva de participação das novas gerações numa economia em mudança.
A Secretária-Geral da UIT saudou igualmente os esforços nacionais em torno da inteligência artificial, incluindo a criação de mecanismos institucionais para orientar a sua utilização. A posição reforça a necessidade de Moçambique combinar inovação tecnológica com princípios de inclusão, ética, segurança e benefício social.
Por sua vez, John Omo desafiou os participantes a contribuírem para que as redes de comunicação alcancem mais pessoas, sobretudo em momentos de emergência. A observação ganha particular importância num país exposto a eventos climáticos extremos, em que a disponibilidade de redes resilientes pode ser decisiva para a circulação de informação, coordenação de respostas humanitárias e protecção das comunidades.
Cabo Nacala-Lobito Pode Reforçar Nova Geografia Digital
A ligação projectada entre Nacala e Lobito deverá ser lida à luz da ambição de Moçambique em consolidar-se como plataforma energética, logística e digital da África Austral e Oriental. Nacala dispõe de uma posição geográfica privilegiada no Índico e está integrado num corredor que serve o norte de Moçambique e países do interior da região. Lobito, por sua vez, reforça a ligação com a costa atlântica e com corredores logísticos de importância crescente na África Austral.
Ao combinar conectividade submarina, expansão de redes móveis, cobertura satelital, conectividade escolar, 5G e modernização regulatória, o país procura construir condições para que a transformação digital deixe de ser apenas uma aspiração e se converta num instrumento efectivo de desenvolvimento.
O desafio, daqui em diante, será assegurar que os compromissos anunciados se materializem em infra-estruturas funcionais, preços mais acessíveis, melhor qualidade de serviço e oportunidades concretas para cidadãos, empresas e instituições. A criação de um corredor digital entre Nacala e Lobito poderá representar um passo estratégico nessa direcção, desde que seja acompanhada por investimento, regulação previsível, segurança das redes e políticas consistentes de inclusão digital.
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